O que está por trás das alterações dramáticas no comportamento das borboletas
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“O bater das asas de uma borboleta no Brasil pode causar um furacão no Texas.” A frase do meteorologista americano Edward Lorenz (1917-2008) sintetiza um dos postulados de sua Teoria do Caos — segundo o qual um pequeno evento fortuito em determinada parte do planeta pode desencadear consequências ambientais até em lugares distantes. O chamado “efeito borboleta” do imaginário popular é uma metáfora, evidentemente. Mas pode ser lido como alerta diante de novas descobertas sobre o inseto de asas coloridas e voo gracioso. Publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution, um trabalho de biólogos da Universidade Monash, na Austrália, apontou que as mudanças climáticas estão levando a alterações dramáticas no comportamento das borboletas ao redor do mundo.
O levantamento, que condensa dados de pesquisas sobre 1 758 espécies em 105 países, mostra que as mudanças de temperatura e degradações do meio ambiente estão levando as borboletas a migrar de seus hábitats originais. O deslocamento atinge 79% dos casos analisados e a causa inequívoca é a nova realidade climática da Terra.
Os efeitos disso são profundos. “Temperaturas mais elevadas podem permitir que algumas espécies sobrevivam em locais que antes eram frios demais e prolongar sua estação reprodutiva”, afirma Shawan Chowdhury, autor principal do estudo e chefe do Laboratório Global Change Ecology. O pesquisador, porém, afirma que o impacto positivo sobre as populações de algumas borboletas não é necessariamente bom, já que pode implicar contração de outras espécies na região invadida, o que ocorreu com 27% das borboletas analisadas. “Se as populações remanescentes se tornarem pequenas, isoladas ou expostas a ameaças, o risco de extinção pode aumentar”, alerta Chowdhury.
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O Brasil faz parte do novo mapeamento. Casa de 3 500 das cerca de 20 000 espécies de borboletas do mundo, o país é representado pelos estudos sob comando de André Freitas, professor titular do Instituto de Biologia da Unicamp. Além do valor inestimável das borboletas para a polinização das plantas, o docente destaca a importância delas no ecossistema como base da cadeia alimentar — seus ovos e lagartas são alimento para outros insetos, aves e pequenos mamíferos. O fator que as torna ainda mais essenciais é que funcionam como indicadores biológicos. “Elas mostram que um lugar está mudando antes de nós percebermos”, diz o professor. As borboletas têm vida fugaz, de poucas semanas, e muitas vezes nos passam despercebidas. Mas não se engane: quando elas batem as asas em fuga, é bom o planeta inteiro se preocupar.
Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008
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