O que explica ausência do eleitor na região com mais abstenções da capital
São Paulo
Bela Vista, no centro da capital, foi a zona eleitoral com mais abstenções da cidade. Metrópoles foi até lá para falar com eleitores
16/10/2026 02:00

São Paulo — A poucos metros da sede do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), instituição que organiza as eleições no estado, o aposentado Erasmo da Silva, de 75 anos, comentava sobre o pleito deste ano apontando para as pernas machucadas.
Sentado em frente a uma loja de bolos na Rua Humaitá, na Bela Vista, centro da capital paulista, ele diz que não foi às urnas no 1º turno porque seu local de votação mudou. Antes, votava a cinco minutos de sua casa. Agora, sua seção fica a 20 minutos de caminhada, um trajeto que as pernas já não conseguem mais fazer.
“No 2º turno, se um amigo meu trouxer o carro e vier me pegar, eu vou lá votar”, diz.
A Bela Vista, zona eleitoral onde Erasmo mora, teve o maior percentual de abstenção de toda a capital paulista. Enquanto a média de faltas na cidade ficou em 23,40%, o percentual de pessoas que deixaram de ir às urnas na região chegou a 28,32% – o equivalente a mais de 41 mil moradores.
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O Metrópoles foi até lá e conversou com eleitores para tentar entender o fenômeno. Polarização, problemas de locomoção e até a chuva foram algumas das respostas apresentadas pelos moradores para as ausências no primeiro turno.
Desanimada
Helena Lenharo, de 77 anos, e Carmen Ferreira, de 71 anos, contribuíram para a estatística de abstenções. “Eu fiquei meio desanimada com essa política suja”, conta Helena, que se diz decepcionada com questões como a crise no Supremo Tribunal Federal (STF).
A dois quarteirões de distância dela, Carmen também diz que “do jeito que estão as eleições, os mais velhos não estão querendo votar, querem ficar em casa”. Mas não foi isso que a atrapalhou de ir às urnas. “Eu tava viajando”, conta.

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Helena diz que está desanimada com a "política suja", mas foi convencida pela irmã a votar no 2º turno
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Carmen faltou ao 1º turno porque estava viajando, mas promete votar no 2º turno.
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Erasmo (à direita) não votou no 1º turno porque o novo local de votação é distante de sua casa. O aposentado tem problemas de mobilidade
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As duas pretendem votar no segundo turno. “Minha irmã tá insistindo para que vá agora. […] Tem que ter esperança, né?”, afirma Helena, que tem deficiência visual e contará com a ajuda da familiar para chegar até o local de votação.
Idosos e polarização
Para a engenheira Maria de Nazaré, de 46 anos, uma das razões para o número alto de abstenções na Bela Vista é o fato do bairro ter muitos idosos. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que quase 23 mil eleitores da Bela Vista têm mais de 70 anos. Nesta faixa etária, o voto é facultativo, desobrigando os eleitores a irem às urnas.
Maria afirma que mudanças no local de votação, como a que aconteceu com Erasmo, por exemplo, atrapalham mais este grupo do que o resto dos eleitores. “Eu acho que foi por isso [pelas mudanças na seção eleitoral] que a maioria [dos ausentes] não foi votar”, supôs a moradora.
Ela conta que descobriu no dia da votação que sua seção eleitoral havia mudado, e precisou andar por um longo trajeto com os dois filhos até chegar no local correto. Para Maria, se um idoso do bairro passou pelo mesmo, pode ter desistido no meio do caminho.

O zelador Basílio Andrade, de 52 anos, diz que “não é só questão de idade” que tem afastado parte da população do bairro das urnas. Para ele, a polarização se refletiu na votação. “Está muito polarizado. Eu penso que quem não foi votar [é porque] está neutro”, afirma ele.
No prédio em que trabalha, Basílio tem visto moradores buscando incentivar quem ainda não votou a ir no segundo turno. Os ausentes se tornaram um eleitorado valioso, especialmente para a esquerda, que luta para conquistar eleitores para Lula (PT) após o presidenciável largar atrás de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno.
Na Bela Vista, Lula venceu Flávio por 60,58% a 30,65%. A região também deu vitória para Fernando Haddad (PT) na disputa contra Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Chuva
Entre os entrevistados pelo Metrópoles, houve também quem citasse problemas pessoais ou fatores externos, como uma chuva forte no dia da eleição, para justificar as ausências no primeiro turno.
Dona de um salão de beleza na Bela Vista, Eliana Gonçalves, 52, diz que parte dos seus clientes desistiu de votar por causa do temporal que caiu na cidade no dia do primeiro turno.
“Teve muita gente que não conseguiu sair [de casa]. Eu só fui [votar] porque é aqui na Faculdade de Direito, que é pertinho. Se não eu também não tinha ido. As pessoas já não queriam votar, imagina na chuva?”, conta.
Foi o que aconteceu com Daniel Rocha, de 41 anos. Ao Metrópoles, ele contou que já estava cansado e, com o temporal, decidiu não votar. “Para mim, tanto faz, tanto fez, qualquer um dos dois que ganhar”.

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Daniel diz que cansaço e chuva fizeram com que ele não votasse no 1º turno
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Antônio diz que não gosta de votar no 1º turno porque "são muitos candidatos". Mas confirmou presença no 2º turno.
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Ana diz que vota "até de cadeira de rodas" se for preciso
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Escritor, Marcelo defende que eleitores usufruam direito ao voto e compareçam às urnas
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Também ausente no primeiro turno, o porteiro Antônio Silva, 54 anos, escolheu não ir pela demora na votação. “Toda vez eu só vou no segundo turno. É muito candidato no primeiro, tem que votar pra seis [políticos]. Eu vou votar pra um só”, afirma ele, que garante presença no dia 25 de outubro.
Democracia
Ana Lúcia de Souza, 58 anos, diz que na seção onde a filha trabalhou “houve praticamente 60% de ausências”. A moradora acredita que as faltas aconteceram porque as pessoas “estão revoltadas” com os problemas no país, mas discorda de quem deixa de votar.
Quando o Metrópoles encontrou com Ana, ela tentava virar o voto de uma manicure no salão que frequenta. “Eu penso que as pessoas precisam usar essa revolta no voto. Eu gosto de exercer meu ato de democracia. Eu vou nem se for de cadeira de rodas”, disse ela.
A opinião é a mesma do escritor Marcelo de Lima, 43 anos. No primeiro turno, ele levou mais de uma hora e meia na fila para votar, mas aguentou firme a espera.
“Eu acho que as pessoas têm que dar valor ao direito que têm porque você não sabe o dia de amanhã. Se acontecer alguma coisa muito grave você pode perder o direito”, afirma.