O que revela o ceticismo em relação à IA

🗓️ 2026-07-27 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Nas economias mais avançadas do mundo do ponto de vista tecnológico, uma parte significativa dos trabalhadores de escritório identifica-se como cética em relação à Inteligência Artificial, enquanto nos mercados emergentes esse número é substancialmente inferior. Os líderes empresariais que descartam esta diferença como uma questão meramente cultural, ou como um fenómeno isolado, estão a interpretar erradamente um dos sinais mais úteis que têm à sua disposição.

O Índice de IA 2026 de Stanford apresenta resultados muito importantes face a este tema: a confiança na IA e o seu uso consistente ultrapassaram os 80% em mercados como a Índia, ao passo que, nos Estados Unidos, ambos os indicadores se situaram perto dos 50%.

O que devemos ter em atenção é que o fosso de otimismo entre mercados emergentes e economias desenvolvidas é mais profundo do que pensamos. Um estudo da KPMG concluiu que, para os trabalhadores dos mercados emergentes, a IA funciona como um instrumento de ascensão profissional, de maior igualdade e de oportunidades criativas. Por outro lado, para os trabalhadores das economias desenvolvidas, o cenário é mais complexo, dado que não se trata de desconfiança quanto ao conceito de IA, mas de uma possível desconfiança quanto à IA que lhes foi disponibilizada e não são os projetos-piloto que não têm sucesso que constituem, por si só, o problema.

Nos mercados com maior nível de adoção da IA a nível mundial, os trabalhadores relatam, com maior frequência, ter atravessado pilotos falhados antes de atingirem um uso diário consistente. A repetição, e não a perfeição, é o caminho para a maturidade. As lideranças que conseguem transformar céticos em defensores da tecnologia são as que concedem às suas equipas espaço para experimentar, falhar e voltar a tentar. É essa exposição repetida que constrói a experiência e a confiança necessárias para a utilização da IA de forma consistente e duradoura.

O que têm em comum os trabalhadores que mais usam IA

O percurso de cético a defensor assenta em quatro condições, presentes de forma consistente entre os trabalhadores que já ultrapassaram a fase de piloto e utilizam a IA diariamente:

1. A formação vai muito além de uma sessão de integração de uma hora. É o acompanhamento contínuo e adaptado a cada função que constrói uma fluência genuína.

2. A IA encontra-se integrada diretamente nas ferramentas que os trabalhadores já utilizam, e não implementada como uma plataforma autónoma. Quando a experiência é natural e intuitiva, a adoção sustenta-se por si mesma.

3. A confiança assenta numa IA segura e sensível ao contexto, que nunca expõe dados sensíveis. Para os trabalhadores com maior nível de adoção, este é um requisito inegociável.

4. Estes sistemas de IA são concebidos para atuar de forma autónoma em tarefas específicas de cada função, e não como assistentes genéricos que respondem a perguntas de caráter geral.

A verdadeira medida de uma estratégia de IA reside assim na experiência diária de quem trabalha nas equipas de apoio ao cliente, jurídicas ou comerciais, do profissional que experimentou a IA por duas vezes, obteve resultados genéricos e regressou, sem alarido, ao trabalho manual. Garantir a fluência em IA é o que distingue as empresas que se limitaram a implementar uma tecnologia daquelas que efetivamente transformaram a forma como o trabalho é realizado.

As lideranças que encaram cada cético como uma fonte de informação relevante, e não como um problema a gerir, irão construir equipas capazes de se manterem competitivas nos próximos anos. Investem nas condições que tornam a tecnologia indispensável a partir da base: a formação adequada, as salvaguardas necessárias e sistemas de IA que atuam de forma autónoma, adaptados a cada função.

A reticência em relação à IA não constitui resistência ao futuro. É o sinal mais honesto que uma equipa pode transmitir sobre onde a experiência falhou, sendo que é este o ponto a partir do qual as lideranças devem começar a reconstruí-la.