O regresso da artilharia e mísseis, muitos mísseis: como vão ser as novas fragatas portuguesas
Três mil e novecentos milhões de euros. Assim, por extenso, ainda parece mais. Quando se fala de navios de guerra modernos, as quantias são sempre astronómicas – e não é pelo casco. O que faz a diferença são os sistemas eletrónicos e as armas. O preço das fragatas FREMM EVO que Portugal vai adquirir ao estaleiro italiano Fincantieri mostra isso mesmo. A CNN Portugal apresenta, em primeira mão, os equipamentos que serão incluídos nos novos navios da Marinha de Guerra Portuguesa.
Em dezembro do ano passado, a CNN Portugal deu a notícia: Portugal escolheu a fragata italiana FREMM EVO para reequipar a sua Marinha. A proposta francesa do Naval Group, a FDI, que tinha sido dada como favorita, ou até vencedora, acabou por ser preterida.
Contudo, dada a complexidade do processo, foram necessários mais sete meses para que houvesse um anúncio formal e a assinatura de um acordo com o governo italiano. Este é essencial porque o mecanismo SAFE para a aquisição de equipamentos militares, ao abrigo do qual será feito o pagamento do projeto, obriga a compras conjuntas por estados da União Europeia. A Itália já tinha encomendado dois navios deste tipo em 2024.
Após a assinatura do acordo pelos ministros da Defesa de Portugal e Itália, em Roma, a 20 de julho, procurámos saber quais seriam as características das novas fragatas. A Marinha Portuguesa respondeu que “a configuração dos navios a adquirir por Portugal terá por base a configuração dos navios FREMM EVO atualmente em construção para a Marinha Italiana”.
O que é que isto quer dizer na prática?
Com novas informações da Armada, estamos agora em condições de indicar quais serão as principais armas e sensores dos navios portugueses, com duas grandes exceções: os mísseis antinavio e os helicópteros.
Uma fragata que é um contratorpedeiro – ou quase…
Como o seu nome indica (Fragata Europeia Multimissão), a FREMM foi concebida para desempenhar vários tipos de missões de forma muito capaz. Outros países, com mais recursos, podem dar-se ao luxo de ter navios dedicados à guerra antissubmarina ou à defesa aérea, por exemplo, mas Portugal e a grande maioria dos estados têm de fazer opções polivalentes. A Marinha tem atualmente cinco fragatas, das quais apenas quatro navegam, e não se espera que, no futuro previsível, venha a ter mais de seis. Assim sendo, precisa de navios combatentes capazes de fazer um pouco de tudo, mesmo que, em alguns casos, não muito bem.
A FREMM EVO é uma embarcação de grande porte, com pelo menos 6500 toneladas, o que lhe dá grande estabilidade em mares difíceis e amplo espaço para reconfigurações temporárias ou permanentes, presentes ou futuras. Esse tamanho e os tipos de armas e sensores de que vai dispor colocam-na mais perto da categoria dos contratorpedeiros (também conhecidos como destroyers) do que das fragatas, da qual nominalmente faz parte. Só para se ter uma ideia da diferença, as atuais fragatas da Armada têm 3200 a 3300 toneladas, ou seja, cerca de metade das FREMM EVO.
Mísseis, muitos mísseis
A ambição no tamanho corresponde à ambição nas capacidades. Uma das dúvidas importantes que existiam relativamente a este novo modelo era a quantidade de mísseis antiaéreos que poderia transportar. Podemos agora confirmar que as FREMM EVO da Marinha Portuguesa irão ter 32 vertical launch systems (VLS) do tipo Sylver A50. Falamos dos silos instalados debaixo do convés de onde são disparadas essas armas. As FREMM originais apenas dispõem de 16 VLS.
Neste caso, a cada VLS corresponde um míssil. No futuro, poderá haver a opção de instalar três ou quatro mísseis (por exemplo, do tipo CAMM) numa só célula, mas, para já, as fragatas terão “apenas” mísseis Aster 15, Aster 30 e Aster 30 B1NT. Estas armas têm alcances de 30, 110 e 150 quilómetros, respetivamente, e tanto podem ser usadas contra aeronaves ou mísseis.
O Aster 30 B1NT é particularmente importante porque dará a Portugal uma capacidade que nunca teve: defender-se de ataques com mísseis balísticos táticos (com alcance de cerca de 1500 quilómetros). Isto significa que, se os três navios forem colocados em pontos diferentes das nossas costas, poderão defender deste tipo de ameaça grande parte do território nacional, incluindo as principais cidades e outros pontos estratégicos, como o porto de Sines e a zona industrial envolvente, sem esquecer as ilhas dos Açores e da Madeira.
A existência de três navios de guerra com capacidade de disparar 96 mísseis antiaéreos de médio e longo alcance em rápida sucessão é um salto quântico para a defesa do país. Como as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente demonstram amplamente, nunca há excesso de munições deste tipo. Contudo, cá, como lá, também se põe o problema do custo. Este nunca é verdadeiramente transparente, porque os segredos comercial e militar assim o ditam, mas estima-se que os mísseis Aster custarão entre um e três milhões de euros por unidade, consoante as variantes. Ou seja, cada navio terá nos seus paióis muitas dezenas de milhões de euros em mísseis antiaéreos. Isto sem contar com as reservas de guerra, que convém manter.
Daí que se aposte cada vez mais noutro tipo de armas, bem mais económico. É o caso das peças de artilharia, que agora voltam a ganhar importância, depois de décadas em que foram desvalorizadas.
O regresso da artilharia
As guerras da Ucrânia e do Médio Oriente mostraram que os mísseis antiaéreos são vitais, mas também mostraram que eles se esgotam muito depressa. Basta um único ataque de saturação, com dezenas ou centenas de “drones”, e lá se vai o “stock” que devia durar dias, semanas ou meses.
Já a artilharia, mesmo a mais obsoleta (os ucranianos usam com proveito armas da 2ª Guerra Mundial), dá volume de fogo a baixíssimo custo, mesmo que o alcance e a precisão sejam muito menores. Isso é especialmente válido em relação a alvos de baixa velocidade e baixa altitude, como os “drones”.
Daí que a fragatas FREMM EVO da Marinha Portuguesa contem com três peças de artilharia: duas OTO Melara de 76 milímetros, que são o padrão das marinhas da NATO, e uma LionFish de 30 milímetros. As OTO podem disparar projéteis guiados DART (antidrone) e VULCANO, com alcances que podem ir até aos 40 quilómetros. Já a LionFish, que é a última barreira de defesa do navio, pode atingir mísseis e “drones” até seis quilómetros de distância. Qualquer uma destas armas tem grandes cadências de fogo: 120 munições por minuto no caso das OTO Melara; mais de 200 no caso do LionFish. Quando disparadas, estas armas criam assim autênticas barreiras de fogo. Sem exagero.
Sobre o mar e sobre a terra
As peças de artilharia OTO Melara podem ser usadas para atacar alvos em terra, se for necessário. Convém que não seja, porque um navio de guerra que esteja a poucas dezenas de quilómetros da costa é sempre um alvo tentador e óbvio para o inimigo. Por isso, quase todas as fragatas modernas têm mísseis de médio ou longo alcance que tanto podem ser lançados contra outros navios, como contra alvos terrestres.
As FREMM EVO portuguesas vão também contar com este tipo de armas. Só não está garantido qual será o modelo. A CNN Portugal sabe que a preferência da Marinha vai para o Naval Strike Missile (NSM), que é fabricado pela empresa norueguesa Kongsberg. Trata-se de uma arma com um alcance superior a 300 quilómetros que foi adotada pela Marinha dos EUA e está a tornar-se padrão da NATO. Daí a preferência da Armada, que prevê a instalação de oito mísseis em cada fragata.
E sob o mar?
Outra das missões-chave da FREMM EVO, a mais importante no caso português, é a luta antissubmarina. O regresso dos submarinos nucleares russos ao Atlântico levanta preocupações especiais, até porque está a ser acompanhado pela presença crescente de navios militares ou da chamada “Frota Fantasma” que transportam “drones” submersíveis. Nos últimos anos têm sido cada vez mais notórias movimentações estranhas que, muito provavelmente, têm a ver com os muitos cabos submarinos que passam ao largo da costa portuguesa.
A vigilância e defesa do espaço entre o Continente e os Açores, já para não falar das águas territoriais e da nossa Zona Económica Exclusiva (ZEE), que pretendemos alargar, são responsabilidades que a NATO nos atribui e das quais não podemos escapar. É por causa disso que o país vai gastar 3900 milhões de euros em três navios de guerra, já para não falar das outras nove embarcações que estão a ser construídas ou a caminho disso.
As novas fragatas vão dispor de vinte torpedos ligeiros, que tanto poderão ser o modelo americano Mk 46, com um alcance de 11 quilómetros, como o MU90, de fabrico franco-italiano, que pode ir até aos 22 quilómetros. Essas armas antissubmarinas poderão ser usadas diretamente pelos navios, e também pelos helicópteros embarcados (dois por navio).
Neste momento, Portugal dispõe de quatro aparelhos do tipo Lynx Mk95 (um quinto está há anos em modernização e é duvidoso que volte ao serviço). A Marinha assume que “tem previsto, no âmbito da Lei de Programação Militar, um programa de substituição dos atuais helicópteros (…) no final da sua vida útil (…), mas que este se encontra ainda “numa fase inicial, não existindo, por agora, qualquer decisão quanto ao modelo ou ao número de aeronaves a adquirir”.
Contudo, a CNN Portugal pode avançar que os dois modelos que estão a ser considerados são o SH-60 norte-americano, a versão naval do famoso Blackhawk, e o NH90, de fabrico europeu, também na sua versão naval. A vontade da Marinha, a avaliar por uma apresentação feita em maio deste ano pelo chefe do Estado-Maior, o almirante Nobre de Sousa, é ter oito novos helicópteros a partir de 2030.
Ver melhor, mais longe e mais depressa
É claro que todas estas armas só poderão ser eficazes se houver sensores adequados para detetar as ameaças com a precisão e antecedência necessárias. É nisso e nas capacidades de guerra eletrónica que também se gasta boa parte dos tais 3900 milhões de euros. É também nisso que as FREMM EVO oferecem uma enorme melhoria em relação ao que há agora – que é muito pouco.
O radar principal é o Kronos Dual Band, fabricado pela empresa italiana Leonardo. Tem um alcance superior a 250 quilómetros e é capaz de detetar e rastrear centenas de alvos simultaneamente, desde mísseis balísticos a “drones”, e em todas as direções ao mesmo tempo – exceto uma, claro.
No que diz respeito à deteção de submarinos, a FREMM EVO conta com o sonar de profundidade variável CAPTAS-4, da empresa francesa Thales, que tem um alcance máximo de 160 quilómetros. Como o barulho dos motores de uma fragata antissubmarina é um dos principais obstáculos ao seu sucesso, este navio conta com outro trunfo importante – a propulsão elétrica, que torna a FREMM quase inaudível para os submarinos.
A execução desta missão contará, muito provavelmente, com outros meios. Segundo a Armada, “perspetiva-se o envolvimento de empresas portuguesas (…) nas áreas das comunicações, sistemas de combate, simulação [e] veículos não tripulados”. Assim, embora se admita que os tipos e modelos de “drone” não estejam ainda selecionados, é certo que os navios terão aparelhos deste tipo de fabrico nacional. Tanto podem ser aeronaves, como embarcações de superfície e de subsuperfície. Tanto podem servir para detetar, identificar, rastrear ou atacar. No ar, na superfície ou abaixo dela.
Estas fragatas, com capacidades reforçadas no comando e controlo de “drones”, juntando-se ao NRP D. João II, um navio inovador a nível mundial, podem permitir a Portugal desenvolver uma nova forma de vigiar e controlar as suas águas, ou até uma nova estratégia marítima.
Seja como for, nos próximos dez anos, a Marinha de Guerra Portuguesa dará o maior salto dos últimos duzentos. Pelo menos.