O Rei vai nu

🗓️ 2026-07-27 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Quando era miúdo, pelos meus 7 ou 8 anos, desenvolvi um fascínio, que, confesso, mantenho até hoje, por jornais e rádio. A dada altura inventei um jornal da rua, que teve apenas uma edição e um leitor – eu. Passava horas a simular relatos de futebol ou a ler notícias em voz alta para um gravador de cassetes que depois me divertia a ouvir e a tentar aperfeiçoar – por exemplo, era absurdo relatar “Paneira toca para Futre”, quando à partida jogariam os dois em alas opostas. Por alguma razão, nunca tive o mesmo encanto pelo jornalismo televisivo. É certo que o telejornal era um ritual, mas tudo aquilo me parecia demasiado aborrecido quando comparado com a rádio. Televisão era, para mim, exclusivamente entretenimento, séries, filmes, desenhos animados, todo o género de desportos, telenovelas, talk shows, programas de música. O telejornal era um ritual que complementava o jornal em papel que se lia no café ou em casa. O leitor, julgo, sabe já que eu não sou propriamente conhecido por ser um visionário, e houve quem tivesse percebido, quando eu ainda nem nascido era, mas em Portugal só anos depois, que também a informação podia ser entretenimento. E aqui estamos, comigo perfeitamente rendido e aficionado: não há hoje melhor novela do que um canal de notícias. E a receita não é particularmente difícil de seguir.

Se estivermos em Janeiro, podemos fazer uns directos à porta de uns hospitais. Há gripe, infecções respiratórias, ambulâncias, pelo que se pode facilmente gerar um «caos nas urgências». Ao mesmo tempo, se estiver mesmo muito frio, como normalmente está em Janeiro, podemos também aproveitar e encher a grelha com as alterações climáticas. Enchem-se os estúdios com sindicalistas, médicos, enfermeiros, presidentes de comissões de utentes, meteorologistas, climatologistas, e algum presidente de Câmara, porque é sempre uma boa altura para recuperar este ou aquele hospital que está prometido há cerca de 20 anos e continua por edificar. Não é mau também recuperar o aumento dos preços, as famílias endividadas depois do Natal e, claro, os famosos saldos, onde os portugueses gastam o dinheiro que se disse na notícia anterior que não tinham. Passando o pico da gripe, podemos ter mau tempo. Ventos e chuvas fortes ou ausência de chuva. O que é uma bênção, na medida em que, independentemente do que aconteça com o tempo, podemos sempre voltar a falar das alterações climáticas e culpá-las da chuva ou da seca. Se não chover, alterações climáticas. Se começar a chover na semana a seguir: alterações climáticas com um miminho, que são as cheias. Com as cheias podemos manter os directos, que saíram da porta do hospital para uma zona qualquer onde haja árvores a abanar com o vento, e podemos agora ir para uma Baixa de alguma cidade, enviando um rapaz qualquer com um oleado e um guarda-chuva que abana muito explicar que está a chover como nunca choveu nos últimos X anos. Na manhã seguinte, mais directos. Se parar de chover, mantém-se o directo porque há gente a despejar água de dentro de lojas. Parando o fenómeno extremo, a que também podemos chamar «comboio de tempestades», podemos passar para os comboios que devem estar em greve. Fazemos alguns directos de paragens de autocarros, para ver como a greve dos comboios atrapalha toda a gente. Se pudermos, pergunta-se também se o cidadão sente frio para aquela altura do ano, e se não é muito aborrecido estar com frio na paragem do autocarro por causa da greve dos comboios. Chegamos a Março e é importante alertar os portugueses de que devem «meter o IRS», sugerindo algumas «dicas de poupança». Também é uma boa altura para falar dos preços da habitação e de como os turistas matam o país aos poucos, ou sobre como os portugueses viajaram, em turismo saudável, para o estrangeiro por alturas da Páscoa, ignorando que se passaram meses desde que se noticiou que os portugueses não têm dinheiro. Em Abril é tempo de celebrar e alertar para os perigos dos inimigos da democracia. Para prosseguir os festejos, em Maio podemos falar de casos de corrupção, porque histórias não faltam. Se não houver casos novos, é sempre bom ir ao julgamento da Operação Marquês e tentar saber o que anda José Sócrates a fazer desta vez. Com muita sorte, começamos Junho com incêndios. Permite não parar os noticiários ou não os encher com assuntos mais aborrecidos do que labaredas de fogo, ou com mais um painel de comentadores a falar do que se passa na Ucrânia ou no Irão – toda a gente adora, mas também temos limites. Se não houver incêndios, é bom que haja futebol. Se não houver futebol, nem incêndios, temos de arranjar outra coisa qualquer. À falta de melhor, convida-se André Ventura para vir ao estúdio pela sexta vez no semestre, para ter a oportunidade de nos dizer que este País é uma bandalheira e enchermos uma noite com comentários sobre o que disse André Ventura. Enfim, é sempre melhor que arda qualquer coisa. Se arder uma leira de mato em Alcantarilha, é suficiente para finalmente desanuviarmos e sairmos de Lisboa, enviando para lá alguém que nos pode dizer em directo, de 15 em 15 minutos, que por enquanto ainda não estão a arder casas, mas nunca se sabe. Se arderem casas, então, podemos pôr o país todo a chorar, o que é incrível. Já nem peço a sorte de podermos ajudar a fazer de um ministro qualquer um imbecil e, eventualmente, vê-lo acabar por demitir-se, mas pelo menos teremos sempre algum outro político a chorar com populares, o que também não é nada mau como produto. Acabando os incêndios, temos sempre as praias. Queremos saber se a água está boa, se estava mais fria no ano passado, se os hotéis estão cheios, se a sardinha está cara. Entre isso e uns directos de Vilar Formoso para ver chegar os emigrantes, o mês está feito, que quem nos deu o suminho jornalístico dos outros meses também precisa de ir de férias. Chega Setembro e o regresso às aulas. Aguarda-se o concurso de professores e os possíveis problemas associados. Se for possível juntar-lhe as palavras “caos” ou “catástrofe”, tanto melhor. Importante é que haja gente ansiosa, sem que nos perguntemos se a ansiedade é provocada pelos problemas em si ou pelo alarme que “alguém” gerou. Mais uma boa oportunidade para falar dos preços da habitação. Convide-se, pois, um especialista para vir a estúdio sugerir congelar preços. Rapidamente o problema fica resolvido – ou não, mas quem é que quer mesmo saber? – e entramos na disputa política do Orçamento do Estado. Até ao Natal temos tema suficiente, porque podemos estar sempre na calha de uma remodelação iminente, de uma crise no Governo, numa sondagem, num novo caso judicial, uma comissão parlamentar de inquérito, uma polémica qualquer, buscas da PJ, investigações do Ministério Público, arguidos constituídos, megaoperações, inflação, preço dos combustíveis. E se tudo falhar, temos Trump, ou outro Presidente americano qualquer, desde que não seja Democrata. Se houver crise, a culpa é dos americanos. Se não houver crise, resta encher o espaço e perguntar muitas vezes o que é que os americanos vão fazer de seguida que nos vai conduzir à crise. Afinal, o que seria da democracia sem um jornalismo tão bom? Num País sem histórico de instituições fortes, onde o institucionalismo depende sempre da sua personalização, e onde nenhuma instituição parece funcionar, os canais de notícias tornaram-se eles mesmos instituições – escrutinadoras sem escrutínio, sem responsabilidades associadas aos seus actos, com o poder gigante de fabricar ídolos ou vilões, queixando-se todos os dias do viés e do alarmismo dos outros. A democracia merece melhor jornalismo do que o que tem tido vindo das televisões. O Rei vai nu.