O relógio também faz parte da transição energética
A forma como consumimos eletricidade mudou muito menos do que o próprio sistema elétrico. Continuamos a ligar os equipamentos praticamente às mesmas horas de há duas décadas, mas a rede já não funciona da mesma forma. Hoje, o momento em que consumimos energia pode ser tão importante como a quantidade que consumimos.
Os números mostram isso de forma clara. Em Portugal, apenas cerca de 35% da eletricidade é consumida durante o período de vazio, enquanto a maioria continua concentrada ao longo do dia e, sobretudo, no início da noite. É precisamente nessa altura que as famílias regressam a casa e ligam vários equipamentos em simultâneo, aumentando a pressão sobre a rede.
Este padrão é natural, mas já não se enquadra com um sistema elétrico que recompensa quem desloca consumos para as horas de menor procura. Apesar de existirem tarifas diferenciadas e de muitos equipamentos poderem ser programados automaticamente, continuamos a consumir como se todas as horas do dia tivessem o mesmo valor.
Esta é, talvez, uma das dimensões menos debatidas da transição energética. Falamos frequentemente da necessidade de produzir mais eletricidade renovável, mas raramente discutimos a importância de utilizar melhor a energia que já produzimos. No entanto, uma gestão mais inteligente dos consumos pode reduzir custos para as famílias, aliviar a pressão sobre a rede e facilitar a integração das energias renováveis.
O exemplo dos veículos elétricos ilustra bem este desafio. Em teoria, são umas das cargas mais flexíveis de uma habitação e poderiam ser carregados durante a noite, quando a procura é menor. Contudo, os dados da E-Redes sobre o carregamento público mostram precisamente o contrário: apenas cerca de 20% da energia é consumida durante o período de vazio e o pico de carregamento ocorre a meio do dia. Embora este comportamento esteja associado, em grande medida, aos carregamentos realizados durante o horário de trabalho, demonstra que existe um potencial significativo para utilizar esta flexibilidade de forma mais eficiente.
A transição energética não depende apenas da capacidade de produzir mais eletricidade limpa. Depende também da capacidade de adaptar os nossos hábitos a uma realidade diferente daquela a que já estávamos habituados. No futuro, uma das maiores oportunidades de eficiência poderá estar numa pergunta muito simples: a que horas estamos a consumir eletricidade?