“O setor petrolífero tem mostrado uma resiliência que muitos não antecipavam há alguns anos”

🗓️ 2026-08-20 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

O sócio da PLMJ Rúben Brigolas revelou que a principal surpresa do mercado de M&A no primeiro semestre foi a rapidez com que a energia voltou ao centro das decisões de investimento.

O sócio internacional de Corporate M&A da PLMJ, Rúben Brigolas, considera que o mercado de M&A esteve ativo no primeiro semestre, não em termos de um aumento de transações, mas antes pela “maior capacidade para executar operações que já vinham a ser trabalhadas há algum tempo”.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

Revelou que a principal surpresa do mercado foi a rapidez com que a energia voltou ao centro das decisões de investimento e que em Angola o investimento português é “largamente” ultrapassado por outros países.

Quando olha para o primeiro semestre, que retrato faz do mercado de M&A? Foi um semestre mais ativo do que o mesmo período de 2025?

O mercado esteve ativo, mas não acho que a leitura principal seja a de um aumento significativo do número de transações. O que vimos foi, sobretudo, uma maior capacidade para executar operações que já vinham a ser trabalhadas há algum tempo.

Em Portugal, houve atividade relevante em energia, infraestruturas e tecnologia. Em Angola, o interesse continua muito concentrado em recursos naturais, energia e logística, mas já se nota mais atenção a setores ligados à diversificação da economia.

O contexto geopolítico e algum abrandamento em mercados tradicionais de investimento, como os EAU, também têm dado mais visibilidade a Angola e à África Subsariana junto de investidores internacionais. Temos sentido isso em particular no setor extrativo, na energia e nas infraestruturas.

Rúben Brigolas, sócio na área de Corporate M&A, da PLMJHugo Amaral/ECO

Qual foi a principal surpresa do mercado neste primeiro semestre? Alguma tendência que não era antecipada no início do ano?

A principal surpresa foi a rapidez com que energia voltou ao centro das decisões de investimento. No início do ano, o foco estava sobretudo na descida das taxas de juro, na inflação e na evolução das principais economias. Poucos antecipavam que os fatores geopolíticos voltassem a pesar tanto na alocação de capital.

Os acontecimentos recentes no Médio Oriente reforçaram preocupações com a segurança energética e a estabilidade das cadeias de abastecimento. Isso tem aumentado o interesse por ativos energéticos estratégicos e por jurisdições com estabilidade e potencial de crescimento.

Angola surge aqui numa posição interessante. O setor petrolífero tem mostrado uma resiliência que muitos não antecipavam há alguns anos, apoiada por novos investimentos, aquisições de ativos e um renovado interesse de operadores independentes. A isto somam-se o potencial do gás natural e a ligação crescente à mineração e às infraestruturas.

O mercado está a viver uma fase de recuperação ou ainda permanece numa lógica de prudência por parte dos investidores?

Diria que o mercado continua a recuperar, mas de forma desigual. O capital existe e há apetite para investir, mas a forma como o risco é avaliado mudou bastante face ao que víamos há alguns anos.

Os investidores europeus e norte-americanos continuam, em geral, disciplinados e seletivos, com muito foco em estabilidade regulatória, previsibilidade e mitigação de risco. Por outro lado, vemos mais investidores asiáticos e do Médio Oriente, muitas vezes com maior apetência para assumir risco quando identificam ativos estratégicos ou potencial de crescimento relevante.

Isto é particularmente visível em energia, recursos naturais e infraestruturas, onde alguns investidores entram mais cedo no ciclo de desenvolvimento dos projetos e apostam em geografias que outros ainda encaram com cautela.

Não diria, por isso, que exista prudência generalizada. O que há é uma segmentação cada vez maior entre perfis de investidores: uns continuam a preferir mercados maduros e previsíveis; outros procuram oportunidades com mais risco, mas também com maior potencial de retorno.

Rúben Brigolas, sócio na área de Corporate M&A, da PLMJHugo Amaral/ECO

Que tipo de investidores estiveram mais ativos?

Os investidores mais ativos têm sido sobretudo estratégicos, em especial nos setores da energia, petróleo e gás, mineração, infraestruturas e logística. Muitas vezes procuram mais do que retorno financeiro: querem acesso a recursos, segurança de abastecimento ou reforço da presença em determinadas geografias.

Como referi, temos visto mais atividade de investidores da Ásia e do Médio Oriente, que tendem a revelar maior apetência pelo risco e uma visão de mais longo prazo do que muitos investidores europeus ou norte-americanos.

Por outro lado, continua a ser muito relevante o papel das instituições financeiras multilaterais e de desenvolvimento, como a Afreximbank, a AFC ou a IFC. Em grandes projetos, funcionam muitas vezes como catalisadores de investimento, ajudam a mobilizar capital privado e dão conforto adicional aos investidores, incluindo na integração de métricas de sustentabilidade que hoje pesam cada vez mais nas decisões de financiamento.

Esta tendência vê-se com particular clareza em Angola e na África Subsariana, onde recursos naturais, energia e infraestruturas continuam a concentrar uma parte significativa do interesse internacional.

Sentiu um aumento do interesse estrangeiro por ativos angolanos?

Sim, sentimos um aumento do interesse estrangeiro por ativos angolanos, sobretudo nos setores que já referi: petróleo e gás, mineração, energia, infraestruturas e logística. Angola tem aí uma combinação difícil de ignorar: recursos, necessidade de investimento e margem para crescimento.

Mas o interesse não se limita aos setores tradicionais. O setor segurador é um bom exemplo. Angola continua a ter uma taxa de penetração de seguros baixa, mas tem uma população jovem, em crescimento e cada vez mais urbana. Para um investidor, isso significa potencial de expansão a médio e longo prazo, à medida que aumentam a formalização da economia, o acesso a serviços financeiros e a necessidade de cobertura de risco por famílias, empresas e grandes projetos.

Os indicadores demográficos são importantes porque mostram a dimensão futura do mercado. Uma população jovem não significa apenas mão-de-obra disponível; significa também consumo futuro, procura por habitação, mobilidade, saúde, educação, serviços financeiros e seguros. É por isso que muitos investidores olham para Angola não só pelo que o mercado é hoje, mas pelo que pode vir a ser.

Rúben Brigolas, sócio na área de Corporate M&A, da PLMJHugo Amaral/ECO

Quais foram os setores mais ativos em M&A neste primeiro semestre?

Os setores mais ativos em Angola foram sobretudo petróleo e gás, mineração e financeiro.

Em Angola, petróleo e gás continuam a ter um peso muito relevante, não só pela dimensão dos ativos, mas também pelo reposicionamento de alguns operadores e pelo interesse de investidores que veem a segurança energética como tema estratégico. A mineração também ganhou visibilidade, sobretudo pela importância dos minerais críticos e pela necessidade de diversificar a economia angolana.

No setor financeiro, há atividade tanto no segmento bancário como no não bancário. No bancário, continua a haver espaço para consolidação, reforço de capital e entrada de investidores com maior capacidade financeira e tecnológica. No não bancário, destacaria os seguros, pelo baixo nível de penetração, pelo crescimento demográfico e pela ligação natural a grandes projetos de infraestruturas, energia e recursos naturais.

Um destaque especial ainda para o setor industrial, onde temos visto interesse em ativos e projetos ligados à transformação local, incluindo produção e processamento de metais. Devido à forma como o preço da energia ainda é formulado, muitos destes projectos estão a ser implementados com muita urgência, pois está a decorrer uma reforma legal ao sector elétrico que, com naturalidade, irá provocar um aumento do preço da eletricidade.

Em Angola, o investimento estrangeiro português é hoje largamente ultrapassado por investimento vindo de outras geografias.

A sua prática tem uma forte componente internacional, sobretudo ligada a África. Como está a evoluir o fluxo de investimento entre Portugal e os mercados africanos lusófonos?

A ligação entre Portugal e os mercados africanos lusófonos continua a ser relevante, sobretudo pela proximidade cultural, linguística e jurídica, e pela presença histórica de alguns grupos portugueses em setores como banca, construção, distribuição, energia e serviços.

Mas é importante ser claro: em Angola, o investimento estrangeiro português é hoje largamente ultrapassado por investimento vindo de outras geografias. Em setores como petróleo e gás, mineração, infraestruturas, logística ou indústria, encontramos com muito mais frequência investidores dos Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, China ou outros mercados asiáticos. O centro de gravidade do investimento estrangeiro em Angola já não está em Portugal.

Dito isto, Portugal pode manter um papel relevante como plataforma de investimento. Muitas estruturas internacionais continuam a passar por Portugal, não necessariamente porque o investidor final seja português, mas porque existe um enquadramento jurídico e fiscal que pode ser útil para promover e proteger o investimento, incluindo o acordo de proteção recíproca de investimentos e a convenção para evitar a dupla tributação entre Portugal e Angola.

Quais foram os principais obstáculos encontrados pelos investidores este ano?

Os principais obstáculos variam bastante por setor. Nos setores extrativos, como petróleo e gás e mineração, o risco cambial tende a ser menos crítico, porque existem regimes cambiais específicos e muitas receitas estão naturalmente ligadas a moeda estrangeira. Aí, os desafios estão mais na previsibilidade regulatória e na execução dos projetos.

Fora desses setores, a exposição cambial continua a ser um desafio central. Muitos projetos geram receitas em kwanzas, mas precisam de financiamento em moeda estrangeira, num contexto em que o custo do financiamento local permanece elevado.

Daí o outro grande obstáculo: o acesso a capital. Em indústria, infraestruturas, logística, serviços financeiros ou seguros, a oportunidade existe, mas a capacidade de estruturar financiamento competitivo é muitas vezes determinante.

A diferença é que, nos setores extrativos, a possibilidade de operar em “moeda forte” e recorrer a estruturas internacionais de financiamento tem permitido atrair investidores com maior capacidade financeira e técnica. Estas estruturas, mais robustas e sofisticadas, são hoje mais frequentes em Angola, sobretudo em projetos ligados a petróleo e gás e mineração.

Para a segunda metade de 2026, espero que continue a atividade nos setores que têm estado mais dinâmicos, em particular petróleo e gás, mineração, energia e infraestruturas associadas.

O que espera para a segunda metade de 2026?

Para a segunda metade de 2026, espero que continue a atividade nos setores que têm estado mais dinâmicos, em particular petróleo e gás, mineração, energia e infraestruturas associadas.

Em Angola, petróleo e gás deverão continuar a concentrar uma parte relevante da atenção dos investidores. A explicação passa pela necessidade de manter níveis de produção, pela reorganização de portefólios por alguns operadores e por um contexto geopolítico que voltou a colocar a segurança energética no centro das decisões de investimento.

Na mineração, espero também uma segunda metade do ano ativa. O interesse por minerais críticos e pela diversificação da economia angolana continua a crescer, e Angola tem procurado posicionar-se melhor nesse mercado. A questão será menos a existência de interesse e mais a capacidade de transformar esse interesse em projetos concretos e financiáveis.

Também espero maior atividade no mercado de capitais, incluindo possíveis operações de admissão à negociação e IPOs. Angola tem vindo a desenvolver gradualmente o seu mercado bolsista, e esse movimento pode ganhar relevância à medida que empresas, investidores e Estado procuram alternativas de financiamento e mecanismos de saída mais sofisticados.

Existem setores que podem surpreender pela positiva até ao final do ano?

Destacaria o setor financeiro, em particular seguros e outros serviços financeiros não bancários. Angola ainda tem níveis baixos de penetração nestes segmentos, uma população jovem e em crescimento e uma economia que, à medida que se formaliza, vai precisar de mais produtos financeiros, mais cobertura de risco e mais soluções de financiamento.

Também vejo potencial no setor industrial, sobretudo em projetos ligados à transformação local e à substituição de importações. Há cada vez mais interesse em desenvolver capacidade produtiva em Angola, incluindo em áreas como alumínio, materiais de construção, agroindústria e outros segmentos associados a cadeias de valor locais.

Rúben Brigolas, sócio na área de Corporate M&A, da PLMJHugo Amaral/ECO

Que fatores serão determinantes para o desempenho do mercado de M&A nos próximos meses?

Diria que são três. O primeiro é o contexto geopolítico. A evolução dos conflitos no Médio Oriente, a segurança energética e a reorganização das cadeias de abastecimento vão continuar a influenciar decisões de investimento, sobretudo em petróleo e gás, mineração e energia.

O segundo é o acesso a financiamento. Há capital disponível, mas os investidores estão mais exigentes na forma como estruturam as operações. Em Angola, isto é especialmente relevante nos projetos fora dos setores extrativos, onde o custo do financiamento local continua elevado e muitas estruturas dependem de capital externo. A evolução do mercado de capitais também pode ajudar, se criar maior liquidez, referências de valorização e mecanismos de saída. As métricas de sustentabilidade também estão a ganhar peso e, quando bem incorporadas, podem ser um fator positivo na decisão de investimento.

O terceiro é a previsibilidade regulatória, ainda mais em vésperas das eleições presidenciais de 2027. Os investidores aceitam risco, sobretudo em mercados emergentes, mas precisam de perceber como esse risco é medido e mitigado ao longo do tempo. A estabilidade das decisões, a clareza dos processos e a articulação entre entidades públicas continuam a ser determinantes.

Com cerca de 20 anos de experiência, qual foi o melhor conselho que lhe deram ao longo da sua carreira?

Foram dois, que andam de mão dada: o papel do advogado é construir pontes e, no fim, o mais importante são as pessoas.