Visão | Oasis vão a Barcelona e Portugal fica, para já, a cantar Wonderwall à janela
Liam e Noel Gallagher sobreviveram um ao outro, à primeira digressão de reunião, aos sete Wembleys e aparentemente até à própria reconciliação. Agora anunciam a Oasis Live ’27: 38 concertos, onze paragens, duas noites em Barcelona e, por enquanto, nem uma mísera passagem por Portugal. Eis as 11 coisas que convém saber antes de vender o carro para comprar um bilhete. Para já, é obrigatório registar-se no site dos Oasis até amanhã 17 de setembro às 17h em CEST — o que corresponde a 16h em Portugal — para comprar bilhetes
Primeiro voltaram. Depois fizeram um filme para provar que tinham voltado. Agora anunciam outra digressão para demonstrar que, afinal, não voltaram apenas para uma temporada de nostalgia lucrativa e para verificar se Liam e Noel Gallagher conseguiam permanecer no mesmo palco sem transformar uma Gibson num instrumento de arremesso. Oasis: Don’t Look Back in Anger, estreado em Portugal a 10 de setembro e destinado a chegar depois à Disney+, ainda sem data portuguesa de streaming oficialmente anunciada, registou a improvável ressurreição de 2025. A sequela, pelos vistos, será ao vivo: Oasis Live ’27, 38 concertos entre maio e eetembro de 2027. A digressão anterior teve 41 espectáculos e foi a primeira desde a separação de 2009; esta já nasce gigantesca.
Primeira coisa que precisamos de saber: Portugal ficou de fora. Outra vez. Não temos Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Estádio da Luz, Dragão, Alvalade, Altice Arena nem sequer um palco improvisado junto às roulottes de bifanas. Nada. A rota anunciada começa a 21 de maio em Glasgow, passa por Manchester, Munique, Barcelona, Amesterdão, Paris, Roma, Boston, Las Vegas e Slane Castle e termina a 19 de setembro em Knebworth Park, o lugar mágico do apogeu em 1996. São 38 concertos e onze destinos. Portugal, essa velha potência marítima que conseguiu chegar à Índia no século XV, em 2027 não consegue que os Oasis atravessem a fronteira de Badajoz.
Newsletter
Segunda: a nossa salvação chama-se Barcelona. Os concertos espanhóis estão marcados para 10 e 11 de julho de 2027, no Estadi Olímpic Lluís Companys, às 20h. Não há Madrid, o que pelo menos nos permite partilhar a desgraça com metade de Espanha. Para um português determinado a ouvir Live Forever, Supersonic, Wonderwall, Champagne Supernova e Don’t Look Back in Anger sem recorrer ao Spotify e a uma coluna Bluetooth, Barcelona será a peregrinação mais lógica. Aeroporto, hotel, bilhete, jantar, táxi: quando Liam chegar ao refrão de Rock ’n’ Roll Star, já teremos investido o equivalente à entrada de um pequeno automóvel.
Terceira: não basta querer comprar. É preciso ser autorizado a tentar comprar, maravilhosa evolução tecnológica do capitalismo cultural. Não haverá venda geral. É obrigatório registar-se no site dos Oasis até 17 de setembro às 17h CEST (Horário de verão da Europa Central, 16h de Portugal); quem for selecionado recebe um código pessoal e intransmissível, mas o código não garante bilhete. Portanto, primeiro entramos numa lotaria para ganharmos o privilégio de entrar noutra lotaria onde finalmente poderemos gastar dinheiro. A civilização ocidental levou alguns milhares de anos a chegar a isto. As vendas serão repartidas entre 25, 26 e 27 de setembro para evitar a carnificina digital que marcou a reunião anterior.
Quarta: os preços de Barcelona começam nos 85 euros para lugares sentados e sobem pelos 153, 170, 204 e 255 euros; em pé, 204 ou 255 euros. Depois entra o maravilhoso universo VIP: 425, 481,50 ou 651,50 euros. Por 651,50 euros não consta que Noel Gallagher vá pessoalmente ao hotel acordar-nos com o pequeno-almoço, mas recebemos merchandising, acesso a uma experiência pré-concerto e o direito de dizer aos netos que vimos os Oasis enquanto ainda tínhamos um fundo de emergência. Pelo menos, depois da polémica de 2025, os preços são fixos e anunciados antecipadamente. Pequenos progressos civilizacionais.
Quinta: Richard Ashcroft volta a abrir para os Oasis. O antigo vocalista dos The Verve já os acompanhou em 2025 e repete a dose. Portanto, antes de Wonderwall podemos ter Bitter Sweet Symphony, o que transformará a noite numa espécie de reunião geral dos sobreviventes dos anos 90. Só falta Damon Albarn (Blur) aparecer num canto para completar a “grupeta” da Britpop.
Sexta: não esperem um novo álbum. Noel já disse que não haverá música nova antes desta digressão. O que, pensando bem, talvez seja uma excelente notícia. Os Oasis não precisam de inventar um single mediano para justificar Definitely Maybe ou (What’s the Story) Morning Glory?. Há bandas que passam vinte anos a fugir dos êxitos; os Oasis descobriram que milhões de pessoas querem exatamente os mesmos êxitos, de preferência tocados muito alto e acompanhados por 70 mil desconhecidos emocionalmente descontrolados.
Sétima: a digressão de 2027 nasceu ainda durante a de 2025. Noel contou que, depois do segundo Wembley, perceberam que aquilo estava a correr demasiado bem para acabar. Traduzindo do Gallagher para português corrente: ninguém tinha morrido, ninguém tinha abandonado o palco, ninguém tinha dado com uma guitarra na cabeça do outro, Liam e Noel continuavam a falar e havia milhões de pessoas desejosas de comprar mais bilhetes. Porque não continuar? O mais espantoso na história dos Oasis já nem é terem voltado; é terem descoberto que gostam de estar juntos.
Oitava: Manchester recebe onze concertos no Etihad Stadium. Onze. Glasgow cinco. Isto deixou de ser propriamente uma tournée e começou a parecer uma ocupação territorial do Reino Unido. Em junho de 2027, haverá, provavelmente, mais Gallagher por metro quadrado em Manchester do que chuva, o que não é fácil e já é estatisticamente impressionante. Londres, curiosamente, ficou sem concertos desta vez. Depois de sete Wembley em 2025, os Oasis decidiram que a capital inglesa podia descansar e comprar um bilhete de comboio.
Nona: tudo acaba em Knebworth, e aqui já entramos diretamente na mitologia. Em agosto de 1996, os Oasis tocaram ali para cerca de 250 mil pessoas em duas noites, concertos eternizados em Oasis Knebworth 1996. Trinta e um anos depois regressam para quatro concertos, a 11, 12, 18 e 19 de setembro. Se 1996 foi o momento em que pareciam maiores do que o próprio Britpop, 2027 será o momento em que descobriremos se a nostalgia consegue ser ainda maior do que a memória.
Décima: há um misterioso buraco no calendário entre Manchester e Munique, exatamente na altura de Glastonbury, de 23 a 27 de junho, o que evidentemente bastou para lançar os rumores. Mas convém não comprar já as galochas e a parka impermeável: não existe confirmação de que os Oasis sejam cabeças-de-cartaz de Glastonbury 2027. Existe apenas um espaço conveniente no calendário e milhões de pessoas extraordinariamente disponíveis para transformar espaços convenientes em notícias.
Décima primeira e última: ainda haverá esperança para Portugal? Esperança existe sempre: é grátis e, ao contrário dos bilhetes VIP, nem sequer cobra taxa de serviço. Em 2025, a digressão começou com 17 datas anunciadas e acabou com 41 concertos. Em 2027 arrancamos logo com 38, e a banda não deu qualquer indicação de novas datas. Portanto, neste momento, a informação séria é simples: Portugal está fora da Oasis Live ’27. Dizer que nunca haverá um concerto português seria ir mais longe do que os factos permitem. Mas quem quiser mesmo vê-los talvez não deva ficar sentado à espera que Liam descubra Lisboa no Google Maps.
E é aqui que o documentário Oasis, Don’t Look Back in Anger ganha uma espécie de epílogo que nem Steven Knight (Peaky Blinders) conseguiria escrever melhor. O filme conta-nos que Liam e Noel voltaram porque envelheceram, deixaram cair parte da raiva e descobriram que juntos ainda produzem aquela estranha eletricidade que nenhuma carreira a solo conseguiu reproduzir. A Live ’27 acrescenta a conclusão mais prática: descobriram também que se divertem. E, claro, que milhões de pessoas estão dispostas a pagar generosamente para participar nessa terapia familiar coletiva. Aos portugueses resta Barcelona, que fica mais perto, uma inscrição até amanhã, quinta-feira, 17 de setembro), um cartão bancário corajoso e a esperança de que, algures entre Live Forever e Don’t Look Back in Anger, Noel olhe para o mapa da Península Ibérica e pergunte: “Então e aqueles tipos ali do lado?” Porque nós, ao contrário do conselho da canção, podemos perfeitamente olhar para trás com alguma raiva. Sobretudo quando vemos dois concertos em Barcelona e nenhum em Lisboa.