ONG liga PCC a tráfico humano no Camboja - 28/08/2026 - Mundo - Folha
Um banheiro pequeno, com cabines para privada e chuveiro, além de duas pias. É a primeira visão de quem entra em um dos apartamentos de um conjunto de seis prédios de quatro andares em Phnom Penh, a capital do Camboja.
O restante dos 40 m² é preenchido com duas camas de casal, uma mesa de escritório e uma varanda estreita. Parece uma unidade residencial comum, não fossem as grades e os arames farpados para evitar fugas.
Trata-se do complexo de golpes que a ONG The Exodus Road Brasil, um dos braços da organização americana de mesmo nome, afirma ter conexões com o PCC (Primeiro Comando da Capital). Enquanto a entidade diz que a facção atua diretamente no país, vítimas de tráfico humano afirmam que o nome do grupo é usado como ferramenta de intimidação.
O espaço era um dos inúmeros do Camboja que reúnem vítimas de tráfico humano de diversas nacionalidades e as forçam a aplicar golpes eletrônicos em pessoas de seus países de origem. A diferença deste espaço é que nele foram identificadas as conexões com o grupo criminoso brasileiro.
A afirmação é da Exodus Road, que também é membro observador do grupo de especialistas em crimes da Interpol e faz parte do comitê de assessoramento de segurança pública do governo do estado de São Paulo.
Para chegar a essa conclusão, a instituição reuniu depoimentos de vítimas que foram resgatadas do complexo cambojano, onde eram mantidas em trabalho forçado sob pena de tortura. Elas contam ter vivenciado uma rotina que as colocou em contato com pessoas associadas ao PCC.
Cintia Meirelles, diretora da operação brasileira da Exodus Road, afirma que os relatos colhidos pela instituição apontam para a atuação de redes transnacionais, o que faz do tráfico humano um crime que precisa ser compreendido como uma engrenagem do crime organizado.
"Essas redes não dependem apenas de força ou violência: elas utilizam sofisticadas técnicas de engenharia social para identificar vulnerabilidades, conquistar a confiança das vítimas e manipulá-las até que estejam sob controle", diz Meirelles, uma das autoras do artigo "Tráfico de pessoas e convergência criminal: o desafio da invisibilidade", no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026.
"Combater o tráfico, portanto, exige compreender como essas organizações pensam, recrutam e operam e interromper essa cadeia antes que a vítima seja capturada."
A Folha perguntou à Polícia Federal se há informações sobre o envolvimento da facção no crime ou se há alguma investigação em curso que associe o PCC ao tráfico de pessoas, e o órgão respondeu que não comenta nem confirma investigações em curso.
A reportagem também questionou outras organizações de direitos humanos e resgate de vítimas sobre a associação do grupo ao crime. As entidades afirmaram que esse tipo de rastreio não faz parte da sua rotina e que, por isso, não podem confirmar ou negar o envolvimento da facção.
Empreiteiros que faziam reparos nos prédios do conjunto disseram à Folha que pessoas de diferentes nacionalidades eram mantidas no local, até que uma batida policial no início deste ano pôs fim à operação. Um dos profissionais disse ainda que o dono do conjunto tem a intenção de transformá-lo em um condomínio residencial.
Os golpes eletrônicos aplicados por brasileiros no local tinham como objetivo extrair dinheiro de vítimas por meio de telefonemas, mensagens de texto e videoconferências em que os criminosos se passavam por agentes de órgãos públicos, como as polícias Federal, Militar e Civil.
Aqueles que aplicam golpes são aliciados com promessas de salários altos, acomodação, passagens aéreas e alimentação. Ao chegarem, porém, os recrutados são privados de liberdade, forçados a jornadas exaustivas e, muitas vezes, torturados quando se recusam a fazer o trabalho ou não atingem as metas estabelecidas.
Vítimas ouvidas pela Folha que foram levadas a diversos países da região afirmam que o PCC é presença constante nas falas dos gerentes das operações, que afirmam ter vínculo com a facção e, assim, o poder de ordenar agressões e assassinatos.
Um dos entrevistados, que conseguiu escapar de um complexo no Camboja, afirma que o gerente do local mostrou fotos em que aparece ao lado de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder da facção que está preso desde 1999.
O homem, que preferiu não ser identificado, diz que o envolvimento da liderança dos complexos em crimes de tráfico de drogas e de armas era uma informação conhecida entre os que viviam nos locais por onde passou.
Outras vítimas afirmam que o nome da facção era usado como forma de intimidação. "Eram feitas ameaças do tipo 'Olha, nós temos todas as informações, você é de tal local no Brasil. A gente só precisa fazer uma ligação para os irmãos aparecerem para a sua família no Brasil'. Então, era uma pressão psicológica", disse Pedro Alencar, 25, que passou por diferentes centrais em países como Camboja, Laos e Filipinas, e prefere ser chamado pelo nome que usava nos complexos.
O mesmo endereço mapeado pela Exodus Road Brasil aparece como "complexo confirmado" no relatório da Anistia Internacional sobre a indústria de golpes no Camboja, uma classificação que se apoia em depoimentos de sobreviventes e em visitas de pesquisadores da organização.
Questionada pela reportagem, a Anistia afirma que a facção não apareceu de forma espontânea nos depoimentos das vítimas.
No documento, publicado em junho de 2025, a organização avalia que o complexo pode ter sido construído com a finalidade de privação de liberdade. Ele é um dos seis nessa condição entre os 53 mapeados na ocasião. O que sustenta a leitura é o desenho da infraestrutura projetado para evitar fugas.
Assim como a fábrica de estelionatos no Sudeste Asiático cresceu durante a pandemia de coronavírus, os registros do crime no Brasil aumentaram. Enquanto o primeiro caso foi impulsionado pelo fechamento de cassinos e fronteiras em decorrência do isolamento social, o que fez com que criminosos se aproveitassem dos espaços para instalar complexos de golpes, no segundo, as fraudes ganharam força com a maior digitalização da economia no período.
A atuação do PCC em crimes do tipo é alvo de investigação da Polícia Federal desde pelo menos 2023, quando o órgão, as polícias civis de São Paulo e do Rio de Janeiro e o Ministério Público paulista identificaram os chamados "escritórios do crime", estruturas montadas para aplicar golpes por aplicativos de mensagem e telefonemas.
"Esse conjunto de evidências deixa claro que o Brasil não está diante de um problema de estelionatários dispersos, mas de uma economia criminal integrada, com estrutura empresarial, financiamento faccional e capacidade de captura do sistema financeiro", diz o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
O chamado "golpe da Anatel" (Agência Nacional de Telecomunicações), por exemplo, foi um dos identificados pela PF nos escritórios do crime no Brasil e relatado por vítimas como uma das estratégias usadas no Camboja.
Nesse caso, estelionatários ligam para pessoas insatisfeitas com a telefonia para extrair dados sensíveis e depois roubar as vítimas ou disparam um SMS informando que a linha será bloqueada, dando início ao golpe.
Como parte da repressão internacional ao crime, a PF participou em junho da operação Global Chain, feita em 59 países sob coordenação de Interpol, Europol, Frontex e Ameripol. A corporação desarticulou uma rede que levava vítimas ao Camboja e identificou 406 delas, sendo 83 brasileiras e 323 estrangeiras, segundo a Interpol.
Membros do alto escalão da PF afirmaram à Folha, sob condição de anonimato, que não há previsão de abertura de adidância no Sudeste Asiático. Um posto de representação do órgão na região permitiria maior interlocução com as autoridades locais.