Oposição critica Montenegro por discurso "desligado da realidade" no Pontal

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Luís Montenegro evitou os ataques diretos aos adversários políticos no discurso da Festa do Pontal desta sexta-feira, mas a oposição não lhe retribuiu a cortesia. PS, Chega, Livre, BE e PCP acusaram o primeiro-ministro de ter feito, na rentrée política do PSD, uma intervenção “desligada da realidade”, “sem nenhuma ambição” e que foi um “elogio da banalidade”.

“Portugal está pior e os portugueses estão muito piores, os dados desmentem a propaganda da Aliança Democrática (AD). Luís Montenegro está mais desfasado do que a Alice no País das Maravilhas”, disse o dirigente socialista Filipe Santos Costa à Lusa, em reação ao discurso do chefe do Governo e líder social-democrata na 50.ª Festa do Pontal, a tradicional rentrée do PSD, em Albufeira, Faro.

O membro do secretariado nacional do PS defendeu que a AD está a falhar em tudo aquilo que propôs aos portugueses. “Quando estava na oposição, Luís Montenegro garantia que quando fosse primeiro-ministro ia operar um milagre económico, pôr o país a crescer muito, baixar impostos e ia haver um grande ciclo de investimento público. Mas é assustador ouvir agora Luís Montenegro, no Pontal, a fazer um discurso que já é um discurso preventivo, de justificação e de desculpa do falhanço do Governo”, apontou.

“O país ontem [sexta-feira] descrito, pura e simplesmente, não corresponde à realidade, porque a economia está pior, o custo de vida está pior, a inflação está pior, os rendimentos estão piores, o poder de compra dos portugueses e a qualidade de vida dos portugueses está pior”, insistiu, criticando a política fiscal do Governo por não ter repercussão no crescimento económico.

Já André Ventura considerou ser “escandaloso” que o primeiro-ministro tenha ignorado na rentrée “os casos que melindram a credibilidade do Governo”, acusando Luís Montenegro de estar “desligado” da vida dos portugueses. “Ignorou completamente as suspeitas graves que neste momento existem sobre o ministro da Administração Interna, porque provavelmente, e aqui se revela, talvez na sua forma mais intensa, está absolutamente comprometido com a situação de Luís Neves”, acusou o presidente do Chega.

Ventura condenou ainda Montenegro por ter ignorado “os exames e o caos na educação”, considerando que o primeiro-ministro “vive num outro mundo”. E continuou: “Esta rentrée do PSD mostrou muito daquilo que é este Governo e que vamos ter enquanto durar. A governação apenas para alguns, ignorar tudo o que é transparência, tudo o que é escrutínio e tentar apenas atacar os adversários políticos e nunca pensar em levar Portugal à posição que merece este país”, apontou.

O presidente do Chega lamentou que o primeiro-ministro “tenha feito um discurso tão pobre, tão desligado daquilo que é a realidade do país e também sem nenhuma ambição”. Ventura acredita que esta foi mais uma prova de que o Governo é fraco: “Não era nada disso que os portugueses queriam ver hoje, era a resposta e demissão do ministro Luís Neves.”

Também o Livre criticou duramente o discurso na festa do Pontal, considerando que este foi “um verdadeiro elogio da banalidade” de um “Governo esgotado”. O deputado Paulo Muacho afirma que, quando Montenegro “pede para que se fale menos sobre aquilo que não corre bem”, é porque “claramente não está confortável com o trabalho da oposição de apontar os erros e aquilo que vai sendo mal feito”.

“Diz-nos que não são apenas números, que são pessoas, mas esqueceu-se de falar dos dois milhões de portugueses que continuam em risco de pobreza”, acrescentou, citando depois outros números como o “milhão e meio de portugueses que continuam sem ter médico de família” ou os “portugueses que não conseguem pagar a sua habitação, porque os preços das casas subiram só no ano 17,6 por cento”.

Para o deputado do Livre, Montenegro “não tem uma única ideia para o país, nem tem uma ideia de rumo” e questionou comparações com a década de governação de Cavaco Silva (1985-1995). Esses foram anos, disse, de “grande desenvolvimento por causa dos fundos de coesão e dos fundos comunitários” e, “bem ou mal, porque havia uma estratégia naquela altura”.

O coordenador do Bloco de Esquerda disse que o discurso na Festa do Pontal foi “a rábula do costume” de Luís Montenegro. “O país está melhor, as pessoas é que não. Ou as pessoas é que não dão conta. Ouvimos Montenegro dizer que somos uns ingratos, porque na verdade só nos preocupamos com aquilo que corre mal, e que isso são minudências quando comparadas com o tanto que corre bem”, atirou José Manuel Pureza num vídeo de reação à rentrée do PSD.

O coordenador do Bloco defende que o “caos” nos exames nacionais ou a crise no acesso à habitação não são minudências nas vidas dos jovens. Por fim, Pureza criticou o primeiro-ministro por dizer que aumentar os rendimentos dos portugueses é um “desígnio” enquanto aprovou a nova Prestação Social Única (PSU) que “retira 161 euros a quem beneficia do subsídio de desemprego” a partir do sétimo mês de desemprego.

A dirigente do PCP Margarida Botelho considera que a maioria dos portugueses “não se reviu” no discurso do primeiro-ministro da Festa do Pontal. “O Governo tem uma agenda partilhada com o grande capital, com a União Europeia, com o imperialismo. Umas vezes vai buscar apoios ao PS, outras vezes vai buscar apoios ao Chega e à Iniciativa Liberal, mas a verdade é que o nosso país precisava de uma política completamente diferente”, afirmou a membro da Comissão Política comunista.