Os brasileiros achavam que sabiam o que era uma crise... até chegar essa disputa sem precedentes entre dois juízes de sua mais alta corte
Uma nova polarização paira sobre a eleição presidencial no Brasil. A cerca de 30 dias do primeiro turno, o embate público entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) rouba os holofotes dos protagonistas da disputa e, inevitavelmente, vai afetar o humor do eleitorado que escolherá quem vai ocupar o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos.
A troca de acusações (implícitas e explícitas, diga-se) entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, a partir de investigações relacionadas ao caso Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, escalou a um nível que não encontra precedentes, mesmo em um país habituado a crises políticas e institucionais como o Brasil.
E tudo ocorre em um ritmo acelerado mesmo para tempos de redes sociais e postagens que viralizam em questão de segundos. Nas medições digitais de opinião pública, já é visível a divisão entre apoiadores e detratores dos ministros-pivô da crise no STF.
Mendonça foi o ministro que, na terça-feira, tornou público um relatório da Polícia Federal, a partir de mensagens periciadas nos telefones celulares apreendidos com Vorcaro. No documento, constam citações a encontros com Moraes, negociação de dois contratos entre o extinto Banco Master e o escritório de advocacia da esposa de Moraes, imagens e relatos de conversas do ex-banqueiro com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e menções ao delegado-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, entre outros indícios.
A partir desse documento, Mendonça pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, que essas descobertas fossem discutidas pelo plenário da Corte, que está incompleto desde o ano passado, com a aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso – pela primeira vez em mais de um século, o Senado rejeitou o nome indicado pelo presidente da República, o que torna o quórum incompleto e sem perspectiva de ser recomposto.
O contra-ataque e o risco institucional
Dois dias depois, em reação direta à decisão tomada pelo colega de Corte, Moraes usou um outro inquérito sob sua responsabilidade – o conhecido “inquérito do fim do mundo”, aberto no início de 2019 – para atribuir a Mendonça outros indícios, como abuso de autoridade e crime de responsabilidade.
Em síntese, um ministro colocado sob suspeita por outro ministro respondeu não aos indícios em si, mas com acusações diretas e graves contra o colega de Corte.
Antes, o próprio procurador-geral já havia apontado possível nulidade do relatório sobre as mensagens de Vorcaro, sob alegação de que deveria haver anuência prévia da maioria dos ministros do STF antes que os policiais registrassem os indícios a respeito de Moraes e do próprio Paulo Gonet.
Moraes não se manifestou publicamente sobre o relatório da PF. Em ocasiões anteriores, quando a imprensa revelou a existência do contrato entre o Banco Master e o escritório da mulher do ministro, a alegação foi de que se tratava de um contrato de serviços jurídicos. Moraes também já negou, em ocasiões anteriores, ter recebido uma mensagem do celular do ex-banqueiro.
Por sua vez, Mendonça nega ter agido com interesse político na condução do caso Master; como foi ministro do governo Bolsonaro e foi indicado ao STF pelo ex-presidente, aliados de Moraes o acusam de viés em sua atuação no caso Master. O ministro também não se manifestou publicamente após a medida tomada por seu colega no Supremo.
No meio desse embate, o presidente do STF, Edson Fachin, tenta encontrar caminhos para que a própria Corte não sofra ainda mais desgaste perante a sociedade do que vem enfrentando desde que passou a ser reconhecida mais pela atuação política do que pelo julgamento técnico de questões constitucionais.
Em junho, o instituto Datafolha perguntou aos brasileiros se sentiam orgulho ou vergonha de diversas instituições públicas, e o Supremo foi apontado como motivo de vergonha por 58%, nível semelhante ao de órgãos historicamente rejeitados pelos eleitores, como o Congresso Nacional.
Na sexta-feira, Fachin acenou publicamente com a necessidade de se encerrar o chamado inquérito do fim do mundo, o que mais simboliza o acúmulo de poder por parte de Moraes nos últimos anos – foi ele o responsável pelo processo que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por crimes contra a democracia, o que colocou o ministro como alvo preferencial dos apoiadores do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.
Mas, ao trazer para si a responsabilidade pela averiguação de conduta tanto de Moraes quanto de Mendonça, Fachin tenta ganhar um tempo que a pressão social parece pouco disposta a conceder ao presidente do STF.
O para-raios da crise
Pode soar estranho a olhos e ouvidos que não acompanham a política nacional diariamente, mas era questão de tempo para que a Corte Constitucional brasileira e alguns dos integrantes mais poderosos do STF estivessem no centro de uma disputa tão rumorosa quanto essa, capaz de abafar, ainda que temporariamente, a própria disputa presidencial.
Nenhuma democracia liberal dá a um tribunal constitucional tamanho protagonismo como o arranjo institucional brasileiro. A título de comparação, a Suprema Corte dos Estados Unidos recebe cerca de 7 mil pedidos de recurso por ano e aceita julgar menos de uma centena. O STF julgou apenas no primeiro semestre de 2025 mais de 57 mil processos, segundo balanço da própria Corte.
E enquanto esses tribunais mundo afora buscam se concentrar em questões constitucionais, no Brasil o Supremo tem tripla função: corte constitucional, tribunal recursal e, para determinadas autoridades nacionais, a primeira instância em ações penais como a que condenou Bolsonaro.
Nesse imbróglio institucional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta evitar a contaminação de imagem, o que é algo difícil de se fazer a tão pouco tempo das eleições e após a percepção de uma aliança entre os Poderes Executivo e Judiciário ao longo do atual mandato – o STF tomou decisões importantes para o governo em embates, por exemplo, sobre recursos do Orçamento.
O histórico mostra outro desafio para o petista. Em 2013, um ano antes da Copa do Mundo no Brasil, manifestações iniciadas com críticas às passagens de ônibus nas capitais, uma atribuição dos prefeitos, resultaram em uma espiral de protestos contra tudo e contra todos, derrubando pela metade a aprovação acima de 60% que a presidente da época, Dilma Rousseff (PT), usufruía na segunda metade daquele mandato.
A petista conseguiu se reeleger no ano seguinte, mas na disputa presidencial mais apertada até então, e ainda sem sentir os efeitos da grave crise econômica que já demonstrava sinais durante 2014. Dois anos depois, Dilma teve o mandato cassado pelo Congresso, e o mau humor da opinião pública com a política tradicional ajudou a impulsionar a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018.
Experiente como só ele, Lula sabe dos riscos que esse clima de “que se vayan todos” pode levar à campanha à reeleição de um governo que já tem desafios por si só, ao ter maior desaprovação do que aprovação perante a opinião pública.
Por isso, o presidente também afirmou na sexta-feira que “ninguém pode utilizar o cargo que tem em benefício pessoal”, buscando concordar com o clima de indignação diante da crise, ao mesmo tempo que critica “vazamentos seletivos” em investigações policiais.
Nos primeiros dias de turbulência institucional, é Flávio quem pode tirar maior proveito, ao reiterar as acusações de que Moraes teria perseguido Jair Bolsonaro. Mas o candidato do PL também foi flagrado em mensagens com Vorcaro, ao pedir dinheiro para o filme Dark Horse, o que limita o quanto pode navegar nos rumos do caso Master em público.
A um mês do primeiro turno, a crise do STF ganhou ares de vendaval, e quem está na disputa presidencial tenta não ser varrido junto