Os "cómicos" que "boicotam" Seinfeld tiveram piada
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"Ideias Feitas." "Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo, boa tarde.
E hoje queres falar, não sei se já lhe podemos chamar o caso Jerry Seinfeld?
É uma série de casos, se calhar. Para as pessoas que não sabem, duvido que haja alguém que a esta hora não saiba do assunto, porque o objetivo destas pessoas era realmente serem notados e conseguiram. Vai haver, acho que é no último dia de outubro e primeiro dia de novembro, pelo menos esses dois dias, um festival de comédia em Lisboa, o festival Comédia À La Carte, em que estavam previstas as participações de uma série de artistas portugueses, julgo que também um ou outro brasileiro que vai participar. E como cabeça de cartaz, acho que seria mais ou menos indiscutível, o Jerry Seinfeld. Sucede que uma data de artistas, dos portugueses, talvez a maioria até, pelo que vi, resolveu boicotar o festival e não comparecer, e anunciar naturalmente que não iria comparecer no festival. Eu vou citar os nomes dos comediantes em causa. Parece-me que nem todos são comediantes, mas eu como não os conheço, não faço ideia, mas os nomes que eu vi foram Inês Aires Pereira, Cebola Mol, Pedro Tochas, Alexandre Farto, Ecoboomer, Conjunto Cucamonga e Um Tributo Pop, é um projeto musical composto por nomes, estou a ler exatamente como retirei da internet: Carolina Deslandes, Bárbara Tinoco e Tatanka. Agora, os motivos destas pessoas para terem boicotado o tal festival: uma destas pessoas não queria relativizar ou normalizar um genocídio, outro quis demonstrar solidariedade com a causa palestiniana, etc. Aqueles lugares comuns que hoje estão em voga entre determinados setores da sociedade. Na realidade, o que acontece é que Jerry Seinfeld é judeu, não é um judeu antissemita, que também os há. É sionista, ou seja, defende o direito de Israel existir, já se encontrou com sobreviventes e familiares de vítimas do 7 de outubro, condenou com firmeza e sem nuances, ao contrário de outros, a extrema selvageria do 7 de outubro e, para cúmulo, não é hipócrita nem maluco e por isso não demonstra particular tolerância, e de certeza que não demonstra qualquer simpatia para com o Hamas, mesmo que se disfarce a apreciação do Hamas com a solidariedade com o povo de Gaza, essas coisas muito bonitas. Sinceramente, acho que o mais provável é que para a maioria dos que boicotaram o festival, estas questões da geopolítica nem sejam especialmente relevantes. O mais provável é eles nem saberem do que é que estão a falar e terem desistido do festival porque perceberam que a desistência lhes daria mais atenção dos media do que a própria participação, porque hoje em dia invocar Israel com a devida repulsa, permite aceder aos noticiários de uma maneira que as respetivas "obras", com muitas aspas, claro, aspas muito grandes, nunca permitiriam. E depois há uma outra razão, porque esta aversão a Israel, esta necessidade de se criticar Israel, é quase obrigatório hoje em dia, em certos setores, repito, e porque estes alegados comediantes sabem que a decisão contrária, ou seja, manter a participação no festival, suspeitam que isso lhes traria dissabores no meio supostamente artístico a que pertencem e que é um meio muito zeloso de que se cumpram certas regras. E a subserviência desta gente ou de alguma classe artística às pressões dos pares e ao ar dos tempos é uma inclinação antiga e notável. Se formos ver a Revolução Francesa, já havia indícios muito fortes disso e bastante tristes, até. Mais tristes do que isto. Uma coisa é certa: Jerry Seinfeld é um dos maiores comediantes americanos de sempre e é um dos dois responsáveis pela mais importante sitcom da história, talvez a par dos Simpsons. Mas dos Simpsons é um caso peculiar, é animação. A relevância até social do Jerry Seinfeld é mais ou menos indiscutível. E por outro lado, eu não faço ideia de quem são as criaturas que agora julgam que o boicotam. E acautela, vou continuar sem saber. Eu não os conheço e que eu saiba, não conheço ninguém que os conheça, mas sou capaz de ter algum amigo que saiba quem é alguma destas pessoas. Eu não sei, sinceramente. Reconheço que, pelo menos nisto, tiveram piada. Ver comediantes profundamente anônimos boicotar Seinfeld é o mesmo do que Fernando Tordo ter se recusado a atuar na primeira parte de Frank Sinatra. Isso não aconteceu, é uma hipótese. Ou se calhar nem isso, porque eu conheço duas ou três cantigas do Fernando Tordo. Se calhar seria o mesmo que o sujeito que tocava pandeireta nos concertos de Fernando Tordo boicotar o Sinatra. Ver o tal conjunto Songamonga ou Inês não sei quantos boicotarem Seinfeld acaba por ser excelente comédia. Infelizmente para estes cômicos, a única vez na vida em que o foram, foi de modo, acho eu, involuntário.
Obrigado, Alberto, e até amanhã.
Até amanhã, Ricardo.
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