Os inimigos de Luís Neves

🗓️ 2026-07-27 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Circula por aí uma tese peregrina, alimentada sobretudo a partir do universo socialista, e verbalizada por pessoas que deviam ter mais juízo, que se pode resumir numa ideia: os alegados pecadilhos de Luís Neves estão a ser plantados na comunicação social por gente do ou próxima do Chega; logo, o ministro da Administração Interna não pode ser criticado ou sequer escrutinado porque isso seria fazer um enorme favor ao Chega. Era mesmo o que nos faltava. A esquerda vive há tantos anos obcecada com o Chega que perdeu o norte.

Foi isso que sugeriram figuras como Fernando Medina e Eurico Brilhante Dias, que se agarram, no fundo, a uma ideia bastante primária — ‘o inimigo do meu inimigo é meu amigo’. Ora, vão pensando (e dizendo) muitos socialistas: ‘Luís Neves é inimigo de André Ventura, opõe-se à agenda política do Chega (e da “extrema direita que vive dentro do PSD”), perseguiu e deteve gente muito pouco recomendável que orbita em torno do Chega, logo devemos proteger Luís Neves, porque, poupando-o, preservamos um aliado forte nessa luta contra o Chega’.

Importa explicar o circuito normal deste tipo de casos: uma fonte, movida por um ou mais interesses, benignos ou malignos, contacta um jornalista ou determinado órgão de comunicação social com uma denúncia; um ou mais jornalistas investigam a denúncia, avaliam o caso e fazem o devido contraditório; havendo fundamento, a denúncia transforma-se em notícia; dependendo ou não do interesse do tema, existe uma corrida por outros ângulos e, não raras vezes, a descoberta de novas informações relevantes, transformando um caso aparentemente isolado num carrossel de embaraços para o envolvido.

É assim que acontece desde tempos imemoriais e é assim que continuará a acontecer enquanto existir jornalismo e jornalismo de investigação. Foi isso que aconteceu com outros tantos protagonistas políticos, tanto do PS como do PSD, foi isso que aconteceu nos governos de José Sócrates, Pedro Passos Coelho e António Costa, só para citar os mais recentes, e foi isso que aconteceu, em particular, com Luís Montenegro.

Goste-se ou não, com maior ou menor competência e profissionalismo de todos os que investigam, com maior ou menor justiça para os visados, com maior ou menor cumplicidade de “fontes judiciais”, é isto que tem acontecido. E, a menos que algo de muito radical aconteça, é isto que vai continuar a acontecer. Existe, porém, uma forma de quebrar este ciclo: o visado esclarecer o que há para esclarecer, com seriedade e transparência, permitindo-se ao escrutínio e deixando a tentativa de vitimização e as insinuações em casa.

Recorde-se que o caso de Luís Neves ganhou forma quando o vaidoso amigo-empreiteiro revelou aos jornalistas do Nascer do Sol, à mesa de um restaurante, as suas combinações com o “poderoso” ministro, precipitando uma sucessão de pequenas e grandes notícias que originaram um inquérito no Ministério Público — com a PJ na humilhante situação de se ver afastada da investigação. Até pela dimensão que o caso já ganhou, e que ultrapassa as fronteiras da esfera mediática, torna-se ainda mais bizarro sugerir que tudo não passa de uma grande conspiração da extrema-direita. Mas adiante.

Feitos os estragos, está agora ao alcance do ministro da Administração Interna esvaziar este caso. Basta que consiga explicar, com clareza e sem subterfúgios, a relação comercial que mantinha com um empreiteiro que lhe fazia obras em casa e na PJ; como é que há material das Infraestruturas de Portugal no monte do ex-diretor da PJ; porque não entregou, como devia ter feito, a declaração de rendimentos; e, sobretudo, como é que um atrelado apreendido pela PJ numa megaoperação de combate ao tráfico de droga acaba em Barcelos nas instalações do tal amigo empreiteiro.

Se Luís Neves der explicações razoáveis, o caso morre. Se Luís Neves der explicações coxas, o caso arrasta-se. Se Luís Neves não falar de todo, continuará a ser grelhado na praça pública. Não há grande ciência nisto. Até ver, e quando o caso ainda só fazia cócegas, o ministro deu três entrevistas consecutivas, convencido de que mataria o assunto, e a coisa correu francamente mal, com muitas contradições e pontas soltas. Entretanto, rebentou a história do atrelado e o ministro calou-se, seguramente por ordem de Luís Montenegro, que lhe terá dado instruções para esperar até que o mar acalmasse. Só nessa altura voltará a falar e só nessa altura será possível avaliar as explicações de Luís Neves. É esperar.

Mas o tempo pedido pelo ministro não deve ser aproveitado para alimentar teorias da conspiração. Importa muito pouco se há interesses obscuros na origem das notícias contra Neves (Inimigos que deixou na PJ? Elementos da extrema-direita? Traficantes de droga? Membros da maçonaria? Reptilianos que tomaram o poder…?) ou se o desgaste de Luís Neves e do Governo faz as delícias de André Ventura — porque faz, naturalmente. O que verdadeiramente importa é que há explicações que têm de ser dadas e que Luís Neves ainda não deu — porque efetivamente não as quis dar.

E esse é o maior problema da tese defendida por figuras como Fernando Medina e Eurico Brilhante Dias: a ideia, bastante problemática, de que em nome de um suposto combate ao Chega e à extrema-direita, as regras do escrutínio democrático devem ser suspensas. Que jornalistas, analistas e políticos da oposição “responsável” devem evitar melindrar alguém que faz voz grossa a Ventura. Que devem ter cuidado para não alimentar o “monstro”. Que esse exército indefinido dos verdadeiros filhos de Abril deve mobilizar todos os esforços na defesa de um ministro que, mesmo metendo água, mete a extrema-direita na linha.

Quem defende isto não percebe que este tipo de argumentos só reforça a contraconspiração alimentada por Ventura: a tese de que há um regime, um grande conluio entre PS, PSD, jornalistas e outros interesses do ‘sistema’, que faz tudo para se proteger. Já agora, são uma forma nada subtil de descredibilizar a comunicação social, sugerindo que anda ao sabor de interesses de uns e de outros. Mas essa acusação é tão velha e tão gasta que importa pouco. Na verdade, as intervenções de Medina e de Brilhante Dias, que deram a cara por aquilo que muitos socialistas dizem à boca pequena, julgando ser um contributo nessa luta do bem contra o mal, são um mimo para Ventura. É realmente pena que não o percebam.

O antídoto para travar o Chega não é discutir a origem das informações que os órgãos de comunicação social publicam, como se vai fazendo no PS. Ou, mais absurdo ainda, sugerir que tudo isto foi agigantado por alguns setores da direita para proteger o preferido Fernando Alexandre das trapalhadas nos exames. A generosa maioria das pessoas que leem, ouvem e veem notícias não precisa de ser protegida da verdade — e não se entretém em perceber quem bufou o quê, quando, como e porquê. Dispensam bem a sistemática infantilização de que são alvo. Os jornalistas devem continuar a fazer o seu trabalho, o PS deve fazer as perguntas e as críticas que entender fazer (esquecendo o Chega por um minuto que seja) e Luís Neves deve explicar o que tem de explicar. O resto fica para os teóricos da conspiração. A democracia agradece.