Os jovens e barulhentos socialistas que estão ganhando as primárias do Partido Democrata
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Um dos mais profundos efeitos colaterais do retorno do republicano Donald Trump à Casa Branca foi a derrocada do Partido Democrata, que saiu do pleito atordoado e sem rumo. A data marcada para a volta por cima é 3 de novembro: as midterms, eleições de meio de mandato que vão renovar a Câmara, um terço do Senado e governos estaduais, não costumam favorecer o mandatário em exercício, alvo fácil de todo tipo de insatisfação popular — que há de sobra. Confirmando a regra, Trump viu sua popularidade escorregar para menos de 40% em meio à irritação no país com a guerra no Oriente Médio, cujos estrondos os americanos sentem no bolso. Os democratas teriam a faca e o queijo na mão para abocanhar ao menos uma, senão ambas as casas — não fosse a queda de braço interna que embaralha o horizonte político.
Sem nomes fortes em sua cúpula para aglutinar tendências e definir a seleção de candidatos, os caciques democratas veem, horrorizados, sua ala mais à esquerda cravar nas cédulas eleitorais os nomes de jovens que dominam as redes sociais e flertam com radicalismos poucas vezes pronunciados em palanques. Desde o início do ano, a turma que abertamente se rotula “socialista” ou “progressista” ganhou mais de 35 disputas primárias, em que democrata enfrenta democrata, contra candidatos do establishment. Na terça-feira 11, em Minnesota, a esquerdista Penny Flanagan levou a candidatura ao Senado. No mesmo dia, Francesca Hong, uma ex-chef que defende creches e merenda escolar gratuitas, perdeu por menos de 4 000 votos a vaga para concorrer ao governo de Wisconsin, um crucial estado-pêndulo. Antes delas, em Michigan, Abdul El-Sayed, 41 anos, médico muçulmano que defende um sistema de saúde grátis e universal, superou a moderada Haley Stevens, veterana deputada no quarto mandato, na luta pelo Senado.
A marcha democrata para a esquerda começou com uma caravana que atravessou o país, liderada pela deputada Alexandria Ocasio-Cortez, 36 anos, e pelo veterano senador Bernie Sanders, 84, no fim do governo Biden, e ganhou vento a favor quando Zohran Mamdani se tornou, em novembro, o primeiro prefeito muçulmano de Nova York, defendendo projetos como congelamento de aluguéis e ônibus grátis. Em comum a todos os representantes desta ala está o apoio declarado à causa palestina, em linguagem que, vira e mexe, resvala no antissemitismo. Mesmo longe da maioria, a ala mais radical do Partido Democrata nunca fez tanto barulho, nem conseguiu destronar candidatos à reeleição há anos em suas cadeiras. Seu avanço reflete a crescente insatisfação entre os jovens com o custo de vida, a falta de perspectivas e o desdém pelos políticos mais idosos, herança do frágil Joe Biden.
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A questão é como essa turma vai ser encarada pela maioria silenciosa — até Barack Obama, prócer do progressismo na legenda, evita dar apoio aos socialistas, receoso de que o sucesso nas primárias não se repita nas eleições gerais. A cúpula democrata vê nesses candidatos, com razão, uma arma que os republicanos já estão brandindo, com ataques à “esquerda radical” e aos “comunistas” — termos que arrepiam americanos nascidos e criados na Guerra Fria. O próprio Trump mencionou o termo comunismo 95 vezes desde o final de junho, chamando seus oponentes de “radicais lunáticos sem Deus”. “Ganhar primárias não é o suficiente. A marcha progressista pode virar um tiro no pé”, alerta Steven Ekovich, cientista político da American University. Quando novembro vier, a sorte estará lançada.
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Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008
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