Jovens estão avessos ao risco porque não toleram fracasso - 22/08/2026 - Becky S. Korich - Folha
A adolescência sempre foi a idade oficial dos riscos —e das más decisões. É a época de cair da bicicleta, de gesso no braço, de aparelho nos dentes e de deixar os pais de cabelo em pé. Tempo de morrer de amor, testar os limites do mundo —e os próprios.
A geração Z parece ter decidido rever esse contrato. Os jovens adultos estão bebendo menos, transando menos, dirigindo menos, casando menos, tendo menos filhos e investindo de forma mais conservadora. Em "Generations" (ainda sem tradução, até onde sei), a psicóloga Jean Twenge analisa, com uma séria de estatísticas, a queda significativa nos comportamentos de risco.
Seria tentador comemorar, principalmente em relação ao álcool. O que parece prudência, entretanto, pode sinalizar uma mudança cultural problemática: a geração fica mais protegida dos perigos, mas também das experiências que ensinam a enfrentá-los.
Esse recuo não aconteceu sozinho. Com ele, diminuíram experiências que exigem exposição e alguma tolerância ao fracasso. Há uma desconfiança da capacidade dos jovens de construir uma vida que não venha acompanhada de garantias —desconfiança que começa nos pais e acaba dominando os próprios jovens.
Quando eu era adolescente, meus pais não conseguiam rastrear onde eu estava. Era inimaginável. Eu era de correr grandes riscos, fiz algumas besteiras que eles nunca souberam e, graças a Deus, passei ilesa. Se me perguntassem se gostaria que meus filhos agissem com a mesma imprudência a resposta seria não. E aqui me pego contradizendo —o que é uma boa definição de ser mãe: quero e não quero que eles experimentem, testem, se arrisquem e se percam por aí até se encontrarem.
Os zoomers cresceram ouvindo que qualquer sofrimento merece diagnóstico e, pior, correção. Muitos pais transformaram a infância num exercício permanente de prevenção de frustrações. Vão tirar satisfação na escola quando o filho leva uma advertência ou chega aborrecido. Acompanham, ou acreditam acompanhar, cada passo. Esquecem que o maior risco acontece dentro do quarto fechado. Ele não sangra, não grita, só vai ocupando o jovem em silêncio.
Há um furo nesse quadro tão comportado: quase 30% desses adolescentes já experimentaram cigarro eletrônico. Ou seja, o jovem brasileiro trocou o risco ruidoso, social, visível —o porre em grupo, o coração partido, o carro amassado— pelo risco sem fumaça. Discreto e individual.
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O celular funciona como cerca de proteção, um arame farpado que protege, mas também machuca. Nele cabem conversa sem presença, sexo sem toque, diversão sem deslocamento —o mundo digital nos permite simular a vida sem a inconveniência de vivê-la.
Jonathan Haidt, em "A Geração Ansiosa", chamou o período de 2010 a 2015 de "A Grande Reconfiguração", o momento em que a infância foi morar dentro do celular, numa dependência que ele não hesita em chamar de vício. Para Haidt, o jovem precisa ser exposto a contratempos, frustrações, fracassos e tropeços para desenvolver força e autossuficiência. Depois nos perguntamos por que eles chegam tão despreparados para a vida adulta.
Ninguém deve beber, transar, casar ou procriar em nome de uma estatística geracional. Uma sociedade não melhora quando os jovens repetem as imprudências dos pais. Não é resgatar os vícios do passado, é recuperar a disposição para o risco, porque cicatrizes também fazem parte da vida.
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