Oura Ring acusado em tribunal de "adivinhar" as fases do sono dos utilizadores

🗓️ 2026-08-24 📁 technology 📝 ⏱️ 👁️ : -

Uma ação coletiva recentemente apresentada acusa a Oura de vender "adivinhação disfarçada de ciência". Segundo a queixa, o popular anel inteligente não tem sensores para medir o que realmente define as fases do sono, e os seus modelos de Inteligência Artificial (IA) estariam apenas a "adivinhar" resultados.


A Oura tornou-se um dos nomes mais conhecidos no mundo dos wearables de saúde, prometendo aos utilizadores uma análise detalhada do sono, desde o tempo em sono profundo até às fases REM. Contudo, agora, essa promessa está a ser posta em causa em tribunal.

No dia 20 de agosto, a Clarkson Law Firm apresentou uma ação coletiva no Tribunal Distrital do Norte da Califórnia contra a Oura Health, em nome da consumidora Madison Surber.

Segundo a queixa, Surber comprou um Oura Ring 4 Gold por 513,68 dólares, em maio de 2025, confiando nas alegações de marketing da marca sobre a precisão do dispositivo.

"O sono acontece no cérebro, não no dedo"

O argumento central do processo defende que, para determinar com rigor as fases do sono, é necessário medir atividade elétrica cerebral, movimentos oculares e tónus muscular, sinais que só são captados através de elétrodos no couro cabeludo, sensores nos olhos e no queixo, como acontece nos exames de polissonografia em laboratório.

Segundo a queixa, um anel usado no dedo não consegue captar nenhum destes sinais.

Em vez disso, a Oura baseia-se em sinais indiretos, como a frequência cardíaca, temperatura da pele, movimento e, nos modelos mais recentes, oxigenação do sangue, que são depois processados por modelos de IA para "adivinhar" em que fase do sono o utilizador se encontra.

No documento pode ler-se que os modelos de IA da Oura estão a fazer guess work (em português, "trabalho de adivinhação") a partir de dados impróprios, tirando partido de consumidores preocupados com a sua saúde ao vender "inferência de IA duvidosa como se fosse ciência fiável".

Os números que sustentam a queixa

A ação cita um estudo publicado em 2025 na Scientific Reports, conduzido num hospital universitário com 45 participantes, que concluiu que a precisão da Oura na identificação das quatro fases do sono foi de apenas 53,18%.

Ainda assim, a Oura continua a promover-se com mensagens como "construída para garantir precisão" e "precisão inigualável", tendo já apontado taxas de precisão de 79% e, mais recentemente, de 95% face a laboratórios clínicos de sono.

De ressalvar que a queixa não ataca todas as funcionalidades do anel, com a medição de temperatura ou de frequência cardíaca, por exemplo, a não serem postas em causa. O foco está nas alegações sobre a deteção exata das fases do sono.

Oura Ring 5

A resposta da Oura

Contactada pela imprensa, a Oura garantiu que continua a "defender a sua ciência, investigação e alegações de precisão", e assegurou estar empenhada em "comunicar claramente o que a Oura mede, o que estima, e como os utilizadores devem interpretar essa informação".

A empresa afirma ainda que vai contestar o processo "no fórum legal apropriado".

Para contexto, este caso surge numa altura particularmente sensível para a Oura que, avaliada em 11 mil milhões de dólares, já deu os primeiros passos formais para entrar na bolsa.

A empresa entregou um esboço confidencial do prospeto de oferta pública inicial (em inglês, IPO) junto da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (em inglês, SEC), com bancos de investimento de peso, como o Goldman Sachs, Morgan Stanley e JPMorgan, envolvidos no processo.

Segundo a queixa, a empresa vendeu quase três milhões de anéis só em 2025, faturando mais de mil milhões de dólares.

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