Animação 'Papaya' é alegoria da liberdade e da natureza - 24/09/2026 - Ilustrada - Folha

🗓️ 2026-09-24 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

No início, "Papaya" parece se propor como fábula infantil a respeito de uma pequena semente que se recusa a receber raízes, ser fixada na terra, transformar-se em planta ou árvore.

Talvez o público infantil tenha alguma dificuldade para aderir não tanto à trama, mas, antes de tudo, ao fato de este ser um filme de animação com menos movimento e variedade de cenas do que as animações mais comerciais.

Existe também o fato de que, sobretudo no início, as cores sejam suaves, talvez até um pouco desbotadas. Isso não tem lá muita importância, porque logo perceberemos que a fábula se dirige mais a um público adulto.

Temos então a pequena semente que se aventura pelo mundo, rolando, enfrentando as variações do tempo, as traições da própria natureza, representada sobretudo pelo clima, chuvas e tal, mas também por outros animais e todos os perigos que se possa imaginar pelos quais passa uma semente e como consegue se manter em vida.

Malgrado seus esforços, ou talvez por causa deles, a semente acaba se deparando com a cultura, com os homens, e outra série de adversidades vai surgir em sua frágil existência. Assim, as belas cachoeiras que existiam no ambiente natural começam a se transformar em riachos miseráveis.

Nossa futura papaia é levada de cá para lá, às vezes pelo vento, às vezes por algum pássaro que pega uma folha em seu bico. À medida que se aproxima da cidade, ou das indústrias, onde antigas sementes são embaladas, desnaturadas e enviadas para consumo, nossa amiga vai vivendo novas e nem sempre agradáveis experiências.

"Papaya" encontra uma maneira interessante de, por meio desse imaginário, lançar a questão do meio ambiente. E diga-se que Priscilla Kellen, a quem se deve a concepção e a direção do filme, evita discursos em favor da ecologia: as imagens bastam-lhe.

Ao longo da trama, o encontro da nossa protagonista com a cultura se torna mais atroz —o que significa contato com esgotos, indústrias, estradas, asfalto, e, no entanto, representa um segundo nascimento para a pequena semente.

Pode-se pensar que existe algo de feminino na fabulação, na medida em que a semente contém as ideias de nascimento e reprodução. De vida, em resumo. E isso se traduz por uma explosão de imagens psicodélicas, digamos assim —sim, elas remetem à velha palavra do tempo dos hippies—, em que tudo parece renascer na natureza, em que natureza e cultura tendem a se encontrar em conciliação.

"Papaya" é um filme que, graças aos traços e cores delicadas com que trabalha a autora, talvez interesse visualmente mais a adultos do que a crianças. Mas o périplo da pequena semente, sua luta por liberdade e sobrevivência, tem algo de comovente que pode muito bem transitar entre duas ou mais gerações e facilitar a circulação de ideias ligadas à sobrevivência não só das sementes como também dos viventes em geral.