Paraguai paga preço ao desafiar China por elo com Taiwan - 16/10/2026 - Igor Patrick - Folha

🗓️ 2026-10-17 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Um dia antes de ser alvo de sanções da China, o ministro paraguaio de Tecnologias da Informação e Comunicação, Gustavo Villate, publicou no X uma saudação pelo feriado nacional ao "Governo da República da China (Taiwan)", nome oficial da ilha que Pequim reivindica como sua.

Na segunda-feira (12), ele entrou numa lista que a Lei Antissanções Estrangeiras de 2021 vinha reservando a políticos ocidentais e fabricantes de armas. Com a sanção, ele teve seus hipotéticos bens na China bloqueados, não poderá fazer negócios com chineses nem visitar o país, Macau ou Hong Kong.

A porta-voz Mao Ning acusou Villate de "espalhar mentiras sobre hackers chineses", numa referência ao anúncio que o ministério dele fez em julho com a embaixada americana de que teria encontrado invasores ligados ao regime chinês nos sistemas paraguaios.

Na quinta-feira (15), num texto longuíssimo, Villate apresentou sua própria teoria para a decisão chinesa. Segundo o ministro, a raiz está no leilão de 5G do ano passado, em que o regulador nacional exigiu de cada concorrente um relatório da missão diplomática paraguaia no país de fabricação do equipamento.

Sem embaixada em Pequim, a regra tirou Huawei e ZTE do jogo sem citá-las, além das duas maiores operadoras do país (Tigo e Personal) que trabalham com equipamento chinês. As licenças ficaram com a Claro, do mexicano Carlos Slim, e a Nubicom.

China, terra do meio

Receba no seu email os grandes temas da China explicados e contextualizados

Washington passou anos pedindo à América Latina que limitasse os negócios com a Huawei, sem muito sucesso. O Paraguai conseguiu tal proeza valendo-se de uma decisão de 1957, quando o ditador Alfredo Stroessner transformou anticomunismo em política de Estado para reconhecer Taipé e cortou laços diplomáticos com a China.

Villate quer estender o critério à inteligência artificial e a um data center financiado pelo BID. Há ainda, segundo ele, um sistema de informação de saúde feito com Taiwan que já funciona em mil unidades públicas, dado que quase não circula fora de Assunção e que colocaria a segurança nacional em risco.

Isso muda a natureza da disputa porque por décadas a aposta chinesa foi convencer o agronegócio de que trocar de lado valia o acesso a um mercado gigante de soja e carne. A pressão até teve seu efeito político (um projeto da oposição pela aproximação com Pequim chegou ao Senado em 2020, mas caiu por 25 votos a 16), mas em 2023 Efraín Alegre, defensor da troca, perdeu feio as eleições para Santiago Peña.

Enquanto a questão era comercial, o bolso dos pecuaristas podia um dia decidi-la. Ao amarrar Taiwan à segurança das redes, o governo Peña converteu a aliança em política de tecnologia.

O arranjo tem custos que Assunção prefere não discutir, a começar por um 5G sem as duas maiores operadoras num mercado pequeno onde menos concorrência costuma significar serviço mais caro. O data center, por sua vez, depende de eletricidade barata que, pelas contas do próprio governo, deixará de ser realidade até 2030.

Mesmo assim, Pequim parece ter concluído que a via comercial não vai render nada antes da eleição de 2028, à qual Peña não pode concorrer, e passou a mirar pessoas.

No curto prazo, a sanção deu um palanque que Villate talvez não tivesse por mérito próprio. Minha aposta é que o alvo seja o próximo presidente, que herdará uma regra que encarece as redes do país e saberá que mantê-la tem um preço pessoal.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.