Paródias da famosa bolsa da Hermès, Jelly Firkins viram febre mundial

🗓️ 2026-09-13 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -
DIRETO DO ORIENTE - Jovens sul-coreanas exibem seus modelos: as versões “gelatinosas” são tendência vinda do país asiático
DIRETO DO ORIENTE - Jovens sul-coreanas exibem seus modelos: as versões “gelatinosas” são tendência vinda do país asiático (Redes sociais/.)

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Em 1984, o então diretor da maison francesa Hermès, Jean-Louis Dumas, se encontrou com a lendária atriz inglesa Jane Birkin (1946-2023) durante um voo de Paris a Londres. Foi a partir desse contato que o responsável pelo ateliê desenhou para a artista sua versão da “bolsa perfeita”. Esse exercício de imaginação criou a bolsa Bir­kin, artigo de luxo que se tornou parte da cultura pop como a bolsa mais desejada do planeta. Com o tempo, assim como todo artigo de alta-costura, versões diversas e não relacionadas com a Hermès surgiram. Hoje, um desses modelos “alternativos” da Birkin vem fazendo extremo sucesso no embalo da onda conhecida como Y2K — que consiste na nostalgia da moda dos anos 2000. Viralizada nas redes sociais e impulsionada pelo mundo do k-pop, a Jelly Firkin — uma mistura de “jelly” (gelatina), por ser feita de plástico translúcido, e “Firkin”, palavra que remete em inglês a “fake Birkin”, ou “Birkin falsa” — chegou ao mundo do estilo e do consumo jovem como um furacão.

REVELADORAS - A bolsa favorita dos jovens no momento: uso de PVC garante sua translucidez
REVELADORAS – A bolsa favorita dos jovens no momento: uso de PVC garante sua translucidez (Redes sociais/.)

A explosão nas redes, com hash­tags em plataformas como Instagram e TikTok já com milhões de visualizações, ilumina um fenômeno que nasceu no Oriente e logo ganhou força global. Uma das grandes marcas que produzem bolsas no estilo Jelly Firkin é a sul-coreana Deinet. O país hoje é referência em explosões de moda — não à toa, a celebridade que deu o pontapé para a tendência foi a cantora Kya, ídolo do grupo KiiiKiii. Ao posar para a divulgação de um disco do grupo com uma dessas versões da Jelly Firkin em tom verde, as buscas pela peça na internet saltaram 5 000%. A transparência é um dos trunfos da bolsa: como seu material permite enxergar (ou exibir) o que está em seu interior, ela fez explodir trends como o “What’s in my bag?” (em português: “O que está na minha bolsa?”). O valor das Jelly Firkins da Deinet (todas esgotadas) fica na casa dos 80 dólares, enquanto lojas como Temu, Shopee e AliExpress comercializam outras versões a preços irrisórios, inclusive no Brasil (por aqui, ela pode ser adquirida por cerca de 200 reais). É um gigantesco e irônico contraste com as Birkins, que não são vendidas livremente pela Hermès: dependem de uma longa relação de compras com a maison — e custam algumas centenas de milhares de reais.

A pulverização torna difícil determinar quem foi a criadora da Jelly Fir­kin, apesar de o fetiche pelo plástico não ser novo na moda. O material da bolsa remete à estética do início dos anos 2000, quando bolsas e sapatos de PVC transparente definiram parte do guarda-roupa jovem — um revival que hoje reencontra uma indústria da moda estruturalmente mais dependente de plástico. Isso fez, curiosamente, a bolsa fake do momento entrar na mira dos ambientalistas: o ciclo curto de modismos impulsionados por redes como o TikTok tende a levar a um descarte massivo rápido— o que implica que logo essas bolsas cobiçadas se tornarão PVC inútil e capaz de poluir a natureza.

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OBJETO DE DESEJO - A original: ela carrega um ar de luxo, exclusividade e mistério, e só pode ser comprada após anos de relacionamento com a marca
OBJETO DE DESEJO – A original: ela carrega um ar de luxo, exclusividade e mistério, e só pode ser comprada após anos de relacionamento com a marca (Rune Hellestad/Getty Images)

O mais interessante do fenômeno, contudo, é que o sucesso das Jelly Fir­kins põe em perspectiva conceitos como luxo e preço. As bolsas Birkin originais existem e sobrevivem no mundo da moda por seu status de exclusividade. Ao contrário de outras falsificações que tentam se assemelhar ao máximo à criação da Hermès, a brisa de leveza e originalidade das Jelly Firkins brinca exatamente com o oposto disso: ao assumir-se como “fake Birkins”, elas se impõem mais como paródias que como falsificações. Essa imitação “honestona” funciona como um meio-termo entre a cópia e um certo manifesto crítico sobre a valorização excessiva do ícone de verdade. De resto, como elas não usam o logotipo nem outras marcas distintivas da Birkin, sustentar processos por plágio torna-se uma tarefa ingrata para a maison francesa.

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Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012

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