Paulo Portas classifica plano de Trump para Ormuz como “absolutamente insano”
O comentador não vê uma solução militar para o bloqueio do estreito de Ormuz e critica a atuação de Donald Trump. No “Global”, Portas analisou ainda as mudanças políticas no Reino Unido e na Ucrânia, os casos de Pedro Sánchez, o acordo sobre Gibraltar e as fragilidades da economia chinesa
A nova ofensiva militar norte-americana contra o Irão não resolveu o principal problema do conflito. Os Estados Unidos mantêm uma clara supremacia aérea, mas continuam sem conseguir garantir a circulação de navios pelo estreito de Ormuz nem convencer armadores e seguradoras a atravessarem uma zona de risco elevado. “Continuo a não ver uma solução militar para a questão de Ormuz”, concluiu Paulo Portas, depois de destacar a subida do Brent de cerca de 69 para 89 dólares em 15 dias e a redução drástica do número de embarcações que passam diariamente pelo estreito.
Foi neste contexto que classificou como “absolutamente insano” o plano de Donald Trump para cobrar uma tarifa de 20% aos navios que atravessassem Ormuz. A proposta era contraditória: “Por um lado, declara de novo o contrabloqueio”, que impediria a passagem das embarcações, e, por outro, anuncia que lhes cobrará pela travessia. “Isto não faz sentido.”
Trump mereceu também críticas por ter dedicado uma intervenção de 25 minutos às eleições de 2020, voltando a garantir que lhe tinham roubado a vitória. Portas considerou inexplicável que o Presidente recupere o tema depois de ter vencido em 2024 com as mesmas leis e mecanismos eleitorais que antes denunciava como fraudulentos. Mais grave foi a ameaça contra as estações de televisão que recusaram transmitir o discurso em direto. “Fazes uma coisa de que eu não gosto, tiro-te a licença”, resumiu Paulo Portas, para quem os Estados Unidos, durante décadas “um farol do espírito liberal”, estão hoje a transformar-se “num regime perigoso”.
No Reino Unido, Andy Burnham chega ao cargo de primeiro-ministro com um moderado estado de graça, embora ainda não seja claro qual será o rumo do novo Governo. Será o sétimo chefe do Executivo britânico em dez anos, a maior demonstração, na leitura de Portas, de que o Brexit “deu cabo do sistema político inglês”. Burnham deverá apostar na transferência de competências para as regiões, no reforço dos poderes da Escócia e do País de Gales e numa maior intervenção do Estado na energia e nos transportes. Sobre a União Europeia, mantém uma posição prudente: gostaria de ver o Reino Unido regressar durante a sua vida, “mas não é um assunto para agora”.
Pedro Sánchez recebeu, entretanto, “uma má notícia na justiça espanhola e uma boa notícia na justiça europeia”. O caso que envolve o irmão do primeiro-ministro deixou, segundo Paulo Portas, a perceção de que foi criado um cargo desnecessário e feito à medida, tornando difícil afastar a suspeita de nepotismo.
Em sentido contrário, o Tribunal de Justiça da União Europeia considerou a lei da amnistia compatível com o direito europeu. A decisão poderá facilitar o regresso de Carles Puigdemont a Espanha, embora permaneça a dúvida sobre se voltará para apoiar Sánchez ou “para o derrubar”.
O acordo sobre Gibraltar foi apresentado como um raro exemplo de pragmatismo diplomático. Espanha não abdica da reivindicação de soberania e o Reino Unido mantém o controlo do território, mas o compromisso elimina a cerca, facilita a circulação de cerca de 15 mil trabalhadores e cria uma união aduaneira. Portas recordou que 96% dos habitantes de Gibraltar rejeitaram o Brexit e “pagaram as consequências de uma coisa que não quiseram”. Agora, embora o território continue britânico, passarão a aplicar-se regras mais próximas das europeias.
Na Ucrânia, a saída do ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, provocou polémica por afastar uma das figuras associadas à modernização tecnológica das forças ucranianas. Fedorov apostava nos drones e entrou em conflito com os chefes militares, que continuam a considerar a artilharia essencial para os combates no Donbass. A decisão pode resultar da necessidade de Volodymyr Zelensky apoiar o comando militar, mas Paulo Portas não excluiu outra hipótese: que o Presidente ucraniano receie a projeção política do ministro. “Ou então tem medo da sombra, e isso é que já não é bom sinal.”
Sobre a China, chamou a atenção para o abrandamento do crescimento, a crise imobiliária, a quebra do investimento estrangeiro e a fragilidade do consumo. Estados Unidos e Europa, demasiado concentrados em “guerras culturais” e assuntos residuais, estariam a desperdiçar a oportunidade de explorar estrategicamente essas dificuldades. Pequim continua, apesar disso, a demonstrar capacidade tecnológica. O fundador da DeepSeek, Liang Wenfeng, tornou-se uma das maiores fortunas entre os empresários exclusivamente ligados à inteligência artificial, enquanto novos modelos chineses começam a competir com as ferramentas mais avançadas do Ocidente.
Portas comentou ainda a faixa exibida pelos jogadores argentinos após o encontro com a Inglaterra, na qual se lia que as Malvinas são argentinas. Considerou que o gesto “é ilegal” e lamentou que, em 2026, ainda existam argentinos a repetir “os mesmos slogans da ditadura militar” que ordenou a invasão das ilhas em 1982.