Paula Gama: Peça existe, mas não chega: por que carros ficam meses parados na oficina

🗓️ 2026-10-06 📁 auto 📝 ⏱️ 👁️ : -

O que existe é uma combinação mais complexa: determinados componentes têm baixo giro, concessionárias e mercado independente operam com estoques e canais de distribuição diferentes e, em alguns casos, uma peça pode estar disponível em um ponto da cadeia sem conseguir chegar rapidamente ao veículo que precisa dela.

Outro fator é a multiplicação de modelos e versões disponíveis, que torna mais complexo dimensionar os estoques e aumenta a possibilidade de uma peça específica não estar disponível naquele momento.

A peça existe. Mas onde?

Uma das explicações está na forma como os estoques são administrados. Ronaldo Teffeha, diretor de Comunicação da ANFAPE (Associação Nacional dos Fabricantes e Comercializadores de Autopeças para o Mercado de Reposição), afirma que as concessionárias tendem a manter em estoque principalmente os componentes mais procurados.

"Eles têm estoque dos itens de maior giro e aqueles da curva C em diante são solicitados da montadora e ficam sujeitos à indisponibilidade", afirma.

A chamada Curva ABC é uma forma de classificar estoques de acordo com a importância e o giro dos produtos. Na categoria C ficam, de maneira geral, itens menos procurados. Em vez de manter grandes quantidades dessas peças paradas no estoque, elas podem ser solicitadas conforme aparece a demanda.

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Um filtro, uma pastilha de freio ou outro componente substituído com frequência tende a ter giro suficiente para permanecer disponível. Já uma determinada grade, um farol específico de uma versão ou uma peça de acabamento pode passar muito tempo sem ser necessária e precisar ser solicitada somente quando surge um cliente.

O desafio aumenta quando se considera o tamanho do catálogo. Um mesmo modelo pode ter peças diferentes conforme versão, motorização e ano de fabricação, e uma fabricante precisa dar suporte a veículos vendidos ao longo de vários anos.

Para-choque, farol e lanterna viram vilões

Há um tipo de componente que aparece com frequência nos relatos de demora: as peças externas. Segundo a ANFAPE, para-choques, faróis, lanternas, retrovisores, capôs, paralamas e grades dianteiras estão entre os itens mais sujeitos a dificuldades de disponibilidade.

As reclamações de consumidores também mostram esse padrão, especialmente após colisões. São peças que muitas vezes não têm o mesmo giro de itens utilizados em revisões e manutenções periódicas, mas que se tornam indispensáveis quando acontece um acidente.

Além disso, os carros atuais tornaram algumas peças externas mais complexas. Para-choques podem abrigar sensores de estacionamento, radares e outros equipamentos; retrovisores incorporam câmeras, motores e sistemas de alerta; faróis passaram a utilizar módulos eletrônicos e tecnologias específicas. Nem sempre o item que parece simples por fora é simples de substituir.

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Propriedade industrial entra na discussão

Outro fator levantado pela ANFAPE é a proteção de propriedade industrial sobre determinados componentes. A entidade afirma que existem peças cuja fabricação pelo mercado independente é limitada por direitos detidos pelas fabricantes dos veículos.

"Essa é uma discussão antiga, pois tem alguns itens que as montadoras limitam a produção pelo mercado independente por questões de propriedade industrial e, ao mesmo tempo, não entregam esses componentes para o mercado, deixando o dono do veículo aguardando", afirma Teffeha.

A declaração representa a posição da ANFAPE, entidade diretamente interessada na ampliação da atuação do mercado independente. A associação defende que uma oferta maior desses componentes poderia diminuir o tempo de espera em determinadas situações.

A Anfavea, que representa as montadoras instaladas no país, foi procurada para explicar como são dimensionados os estoques de reposição, comentar os prazos, mas não respondeu até a publicação.

Chineses recém-chegados chamam atenção das oficinas

Do ponto de vista das oficinas, a dificuldade também não aparece de maneira uniforme entre todos os carros. O Sindirepa, que representa empresas de reparação de veículos, afirma que não percebe uma falta generalizada de componentes mecânicos para a frota já consolidada no Brasil.

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Segundo a entidade, nessa parcela do mercado os problemas costumam ser pontuais e aparecem com maior frequência justamente em peças externas. Há, porém, maior preocupação com alguns veículos de marcas chinesas que começaram a operar mais recentemente no país.

"O que a gente tem notado mais é falta de peças dos carros chineses, desses carros novos que estão chegando e ainda não têm uma infraestrutura de concessionárias e de reposição", afirma a entidade. Segundo o Sindirepa, as dificuldades aparecem principalmente em peças externas, mas também há registros envolvendo itens mecânicos e de suspensão.

A Abeifa, que representa fabricantes e importadores de veículos, foi procurada para comentar a disponibilidade de peças entre marcas importadas e recém-chegadas e explicar como essas empresas dimensionam seus estoques no país, mas não respondeu até a publicação.

As respostas das entidades mostram que não há uma falta generalizada de autopeças no país. Os problemas estão mais concentrados em componentes de menor giro, peças externas e modelos cuja rede de reposição ainda está sendo estruturada.

Mas, para quem está com o carro parado, essa diferença pouco importa. Basta uma única peça não estar disponível para atrasar todo o reparo, e manter o veículo dias ou até semanas na oficina.

Reportagem

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