"Pedi-lhes que fugissem. Quando fiz isso, perdi a minha oportunidade de sair": assim foi o dramático resgate de dois trabalhadores no Nepal

🗓️ 2026-09-04 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Cerca de 93 militares e especialistas participavam na operação, que recorreu a escavadoras, compressores, perfuradoras e explosivos para ultrapassar os grandes bloqueios

"Já passaram nove dias", respondeu Sanjay Sah quando um dos militares que acabavam de o resgatar lhe perguntou que dia era. Tinha passado todo esse tempo preso sob a central hidroelétrica Trishuli 3A, a recitar um mantra e a comunicar aos gritos com outros trabalhadores, até que esta sexta-feira uma voz chegou do outro lado do túnel para lhes dizer que não tivessem medo, pois tinham vindo para os retirar.

A quilómetros dali, Bidhya Devi Dangol passava esses mesmos dias a recusar-se a acreditar naqueles que lhe repetiam que o primo, Kabir Maharjan, não podia continuar vivo. "Diziam-me: "Ninguém consegue sobreviver ali dentro, ele não vai sair". Apetecia-me bater em quem dizia essas coisas", contou à EFE a mulher, de 60 anos, que correu para o Hospital Militar Birendra, em Catmandu, quando soube que Maharjan era o segundo homem a sair vivo do túnel.

Escavar na direção de uma voz

Ainda faltavam entre 50 e 60 metros quando os socorristas conseguiram estabelecer contacto com os trabalhadores. Pediram-lhes que não se mexessem e mantivessem a calma e, do interior, alguém respondeu "okay". As equipas já tentavam abrir caminho até eles há vários dias e precisaram de cerca de mais uma hora e meia, desde aquele primeiro contacto, para chegar primeiro a Sah e depois a Maharjan, no conduto que conduz à central subterrânea.

A enxurrada tinha soterrado a entrada com cerca de 25 metros de lama, pedras e detritos, que acabaram por ficar compactados "como rocha", segundo o porta-voz do Exército nepalês, Raja Ram Basnet. Só para recuperar o acesso foram necessários quase seis dias.

Cerca de 93 militares e especialistas participavam na operação, que recorreu a escavadoras, compressores, perfuradoras e explosivos para ultrapassar os grandes bloqueios. Já no interior, o avanço também não era fácil: havia água e material acumulado e, em alguns pontos, o espaço era tão reduzido que os socorristas não conseguiam trabalhar de pé.

Quando chegaram aos dois homens, Sah saiu primeiro, consciente e coberto de lama. Conseguiu levantar-se com ajuda e acabou por ser transportado às costas por um dos socorristas. Maharjan foi retirado depois e, por volta das 9:20, ambos estavam fora, dez dias depois de terem ficado presos devido à enxurrada de 26 de agosto.

Inicialmente, nenhum dos dois falou. Depois, ambos começaram a chorar, relatou o tenente-coronel Ganga Baral, responsável pela operação de resgate, liderada pelo Exército nepalês com a participação da Polícia Armada, da Polícia do Nepal e de técnicos da Autoridade de Eletricidade.

"Não podia simplesmente fugir sozinho"

Para Sah, aqueles nove dias começaram com uma decisão tomada antes de o túnel ficar bloqueado. Trabalhava na sala de controlo quando soube que tinha ocorrido um acidente na barragem principal e começou a avisar os restantes trabalhadores para que fugissem.

"A minha responsabilidade era salvar a vida de todos. Depois de um acidente destes, não podia simplesmente fugir sozinho. Tinha de salvar todos", contou a uma equipa do Exército após o resgate.

"Disse a todos que tinha acontecido um acidente na barragem principal e pedi-lhes que fugissem. Quando fiz isso, perdi a minha oportunidade de sair. No final, não consegui escapar."

Sah calculou que entre 40 e 45 pessoas poderiam estar a trabalhar no complexo naquele momento. Já preso, recitou o Mahamantra e gritou para comunicar com outros trabalhadores que não conseguia ver.

"Daqueles com quem conseguimos contactar, havia apenas três ou quatro pessoas. Conseguíamos ouvi-los quando gritávamos", explicou.

Também não sabia o que tinha acontecido às pessoas que poderiam estar mais para dentro, na direção da central subterrânea. "O túnel é muito comprido. Mesmo que estivessem dentro do túnel, a força da água poderia tê-los levado ainda mais para o interior."

Esse relato levou as equipas a prosseguir as buscas depois de retirarem os dois homens. Militares e elementos da Polícia Armada percorreram todas as zonas a que conseguiam aceder, mas não encontraram mais sobreviventes nem voltaram a ouvir vozes. Encontraram um corpo sem vida.

A direção da Trishuli 3A pediu posteriormente que fosse avaliada a possibilidade de encerrar a operação, ainda dependente de uma inspeção final com técnicos.

"Mas até ele sair..."

Bidhya também ainda não sabia como Kabir tinha conseguido sobreviver. Quando falou com a EFE no Hospital Militar Birendra, nem sequer tinha tido autorização para o ver e levava apenas algumas horas a tentar assimilar que o homem a quem, durante nove dias, lhe tinham dito para não esperar tinha conseguido sair do túnel.

"Metade do meu coração dizia-me que nada lhe ia acontecer, que ia sobreviver. Mas até ele sair...", disse, sem terminar a frase.

"Estamos tão felizes que não há limites. Só estamos um pouco tristes porque não nos deixam vê-lo."

A notícia que recebeu depois foi menos tranquilizadora. Maharjan foi internado nos cuidados intensivos em estado crítico e foi divulgado que não conseguia mexer os braços nem as pernas. Sah, por sua vez, permanecia estável.

Amir Maharjan, irmão de Kabir, descreveu à EFE o facto de ele ter aparecido vivo como "um milagre".

Centenas continuam desaparecidos

Sah e Maharjan são dois dos mais de 13.000 resgatados ou colocados em segurança desde a catástrofe que provocou pelo menos 1.287 mortos e 5.083 desaparecidos no Nepal.

Entre as pessoas que continuam por localizar estão cerca de 900 trabalhadores de projetos hidroelétricos. Noutros túneis, as equipas continuam a perfurar os bloqueios e a tentar abrir passagens para chegar a locais onde acreditam que algumas pessoas poderão ter procurado abrigo, sem saber ainda se encontrarão alguém com vida.