Pela primeira vez, um ciberataque quase totalmente autónomo atingiu um governo

🗓️ 2026-08-15 📁 technology 📝 ⏱️ 👁️ : -

Um grupo de hackers, suspeito de ter ligações à China, recorreu a agentes de Inteligência Artificial (IA) de código aberto para conduzir um dos ataques informáticos mais sofisticados alguma vez documentados contra um governo. O caso, revelado esta semana por Taiwan, mostra como a IA está a mudar as regras da ciberguerra.

Luvas de boxe com bandeiras da China e Taiwan, frente a frente


O Ministério dos Assuntos Digitais de Taiwan confirmou que, em julho, várias agências governamentais foram alvo de um ataque informático "anómalo", com origem no estrangeiro.

Segundo as autoridades, citadas pela CNBC, os atacantes combinaram técnicas manuais tradicionais com o apoio de agentes de IA, entre os quais o OpenClaw, um assistente de código aberto amplamente utilizado.

As primeiras equipas de segurança detetaram a atividade suspeita ainda em julho, tendo o Instituto Nacional de Cibersegurança emitido uma série de alertas a partir do dia 20 desse mês, enquanto decorria a investigação.

Entretanto, Taiwan garantiu já ter identificado a origem, os métodos e o alcance do ataque, e que as agências afetadas concluíram o processo de resposta.

Uma campanha quase totalmente autónoma

Os detalhes mais reveladores vieram da empresa israelita de cibersegurança Dream, que conseguiu recuperar o "ambiente de trabalho" completo dos atacantes, um arquivo de cerca de 160 MB com quase 1400 ficheiros, a documentar a operação praticamente em tempo real.

De acordo com a Dream, os atacantes usaram duas ferramentas de IA de código aberto, a Hermes e a OpenClaw, para montar um sistema capaz de agir com um grau de autonomia raramente visto até hoje.

Ao longo de quatro dias, chegaram a correr até oito agentes de IA em simultâneo, que mapearam 21 sistemas governamentais, comprometeram 85 contas e roubaram mais de 2500 registos pessoais, antes de alargarem o ataque à agência de segurança nuclear de Taiwan e a pelo menos sete empresas do setor energético.

Um pormenor que chama especialmente a atenção dos especialistas é que os agentes de IA foram, aparentemente, capazes de contornar as suas próprias barreiras de segurança ao serem instruídos a tratar a operação como se fosse um teste de penetração autorizado, e não um ataque real.

Ferramentas gratuitas, mas impacto gigante

Curiosamente, nem o Hermes nem o OpenClaw são ferramentas exclusivas ou de acesso restrito. Ambas são gratuitas, de código aberto, e foram criadas para fins totalmente legítimos, nomeadamente automatizar tarefas complexas e permitir que modelos de IA atuem em nome de um utilizador.

Não é necessária qualquer credencial especial, acesso empresarial ou modelo de IA proprietário para as usar desta forma.

Os investigadores não conseguiram apurar qual o modelo de IA por detrás destes agentes. Ainda assim, várias vozes na comunidade de cibersegurança já apontam este caso como um dos primeiros exemplos públicos de um ciberataque quase totalmente autónomo contra um alvo governamental.

Apesar da narrativa de "ataque autónomo", especialistas como Cris Thomas, da Semgrep, pedem alguma cautela, pois continua a existir um humano na equação, responsável por escolher o alvo e definir os objetivos da operação. A IA acelera e escala o ataque, mas não decide, sozinha, quem atacar.

Um novo capítulo na tensão entre Taiwan e a China

Taiwan não identificou publicamente a China como responsável pelo ataque, mas os investigadores da Dream encontraram, no arquivo recuperado, comunicações internas em chinês simplificado associadas à operação.

De facto, a ilha reporta, há vários anos, uma pressão crescente por parte de Pequim, que combina exercícios militares, campanhas de desinformação e ciberataques naquilo que as autoridades taiwanesas descrevem como "guerra híbrida".

Conforme informámos anteriormente, só em 2025, Taiwan registou uma média de 2,63 milhões de ataques informáticos por dia, mais 6% do que no ano anterior.