Leitora escreve sobre saudades de Portugal - 17/09/2026 - Praça do Leitor - Folha

🗓️ 2026-09-17 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Desembarquei em São Paulo chegando de Lisboa. Dessa vez, sem passagem de volta, o telefone busca a rede móvel e não encontra. Não sou mais +351.

Há três anos, me perguntaram por meses: está indo de vez?

No final, me apeguei às coisas mais bobas: meu travesseiro de altura regulável, meus potinhos de vidro com tampa, meu quarto digno do Palácio da Ajuda, com uma cama de ferro pintada de verde, uma cabeceira enfeitada de flores e um lustre cheio de pingentes de plástico —mas que impressionavam as visitas com a aparência de cristais—, e um armário tão antigo que os cabides eram colocados de frente e não de lado.

A despedida desses anos continuou nas semanas seguintes por meio de um gesto simples, como desinstalar aplicativos de celular. O sentimento é agridoce. Tchau, aplicativo da Carris. As bicicletas agora não mais serão as verdes da Gira. Bolt e Bolt Food, menos dois aplicativos. O The Fork, vazio, sem recomendação. Tchau, Continente, Pingo Doce... Lidl querido! Demorei tanto para falar seu nome com confiança e naturalidade. Too Good To Go acusa ausência de lojas na área em que me encontro. Também não precisa ser tão direto! Vodafone agora é Vivo. Me despeço do meu 937.

A estação de metrô da linha amarela mais próxima mudou de nome; Entrecampos agora é Butantã. As Finanças voltam a ser a Receita Federal. SNS agora é SUS. Gov.pt agora é Gov.br. Acho que estou mesmo de luto. Fico triste até por pensar que já não me perguntarão: "Contribuinte na fatura?", engolindo as vogais e fazendo a frase soar como uma única palavra.

Na próxima viagem, não irei mais me gabar a quem me visita, porque serei eu a visita: o meu cartão Navegante é mensal, porque eu sou local. Ressuscito um Bilhete Único com uma foto de quando eu tinha 19 anos. Casa de banho volta a ser banheiro. Ginásio volta a ser academia. Há três anos aprendi a desaprender.

Confesso que estranhei, até me neguei. "Percebe" não é a mesma coisa que entender. Não faz sentido! Até o dia em que faz todo sentido, percebe? Fico a pensar ou fico pensando? Acho que vou revezar; gosto dos dois. Por três anos fiz confusão, não sabendo conjugar o tu. Não use você, eles diziam. E não entrou na minha cabeça que você era formal e tu informal.

Os primeiros dias, a primeira semana em que até a chuva é novidade e se molhar inteira é divertido e se torna uma história para contar. A primeira vez que te pedem informação na rua e você sabe explicar o caminho. A descoberta dos primeiros caracóis na calçada.

Agora eu sou +55 11. E ainda me perguntaram: está voltando de vez? "Ah, de vez é muito tempo", digo.

Desci do elevador no 5º andar, mas agora moro no 2º. Sigo procurando os interruptores da luz do lado de fora dos cômodos. Enquanto dirijo, reconheço edifícios prontos que há três anos estavam em construção, mudo o rádio de estação, faço a curva da Av. Escola Politécnica e pego a Marginal Pinheiros. Uma placa de carro final 3 suspende meus devaneios: espera, que dia é hoje? Terça? Não acredito!

É rodízio do meu carro.


Carol Santin mora em São Paulo, SP. É mestre em Edição de Texto pela Universidade NOVA de Lisboa e autora do livro "Intercâmbio Para Todos: O Que Você Precisa Saber Para Estudar, Trabalhar e Viver no Exterior."

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