Como melhorar a concentração para o Enem e vestibular - 10/10/2026 - Educação - Folha

🗓️ 2026-10-10 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Para quem passa horas diante de questões, a dificuldade nem sempre está em não saber o conteúdo. Às vezes, o problema aparece antes: ler um enunciado até o fim ou se distrair facilmente enquanto estuda. Em provas longas como o Enem e os vestibulares, sustentar a concentração pode pesar tanto quanto o conhecimento.

A estudante Rafaela Rieg, 17, do segundo ano do ensino médio, percebeu isso na própria rotina. Ela conta que costumava estudar por cerca de uma hora sem sentir a necessidade de parar. Com o tempo, passou a se distrair depois de aproximadamente 40 minutos. O principal gatilho era o celular.

"Toda vez que eu ia estudar, acabava vendo alguma notificação no celular e me distraía totalmente, parando até de fazer a lição que eu estava fazendo", afirma Rafaela.

Os vídeos curtos de redes sociais também entravam nesse ciclo. Rafaela usava o TikTok nas pausas e em pesquisas, mas, segundo ela, o hábito prejudicou sua atenção e consumia quase uma hora de estudos. "Eu entrava para ver vídeos por uns 15 minutos e acabava ficando 30 minutos a 1 hora distraída com os vídeos."

A experiência ajuda a ilustrar uma diferença central para quem vai prestar Enem ou vestibular: concentração não é apenas conseguir prestar atenção, mas sustentar o foco e saber retomar depois de uma distração.

Rachel Guanabara, diretora da ESB (Escola Suíço-Brasileira) Rio de Janeiro, diz que as provas exigem horas de atenção e leitura. "É bem diferente de você estar numa concentração de uma rede social, em que você está vendo pequenos vídeos curtos e a atenção rapidamente vai de um para o outro."

Segundo a diretora, é natural haver momentos de dispersão durante uma prova longa, mas é preciso treinar a habilidade de retornar à atividade e administrar o tempo.

Jones Brandão, professor e gerente de ensino e inovações do Sistema Positivo, compara a concentração a uma musculatura. Para ele, simulados, leituras e blocos de estudo com períodos definidos de foco e descanso ajudam a preparar o estudante para a duração da prova.

"Se o estudante treina e treina com foco, com interesse de ver aquilo de fato mudar, ele vai ter resultado", afirma Brandão.

O celular ocupa um ponto especial nesse desafio. Brandão explica que o consumo frequente de vídeos curtos pode diminuir a tolerância ao tédio. Com isso, quando o estudante precisa lidar com uma tarefa que exige mais atenção e tempo, ele pode se entediar e perder o foco.

"À medida em que o vestibulando está ali muito entregue a esse consumo de vídeos curtos, todo esse estímulo gera nele uma baixa tendência ao tédio", afirma Brandão.

Na avaliação da diretora da ESB, há uma relação entre o contato frequente com informações fragmentadas e a dificuldade maior para sustentar leituras longas ou complexas. Por isso, a leitura é uma das formas de exercitar a atenção.

Brandão sugere um teste simples para o estudante identificar como está a sua capacidade de foco: tentar ler durante 15 minutos sem buscar outra atividade.

"Se você conseguir terminar os 15 minutos sem nenhum desejo de olhar para tela ou sem nenhum desejo de olhar para qualquer outra coisa, é um indicador de que a concentração não pode estar tão feia assim", afirma o professor.

Por isso, a proposta é transformar a leitura em um hábito progressivo para ajudar a concentração. Brandão recomenda fazer marcações no texto, estabelecer períodos de leitura e até conversar com outra pessoa sobre o que foi lido. Além de ajudar, a atividade pode ampliar o repertório exigido nos vestibulares e na redação.

Para Guanabara, o estudante precisa fazer um movimento contrário à lógica dos conteúdos rápidos. "Concentração é treino. Se você quer concentrar, se você quer ter mais atenção, você precisa fazer um treino para isso. O que estamos fazendo hoje em dia com os jovens é o contrário, estamos treinando o vídeo rápido, scroll infinito, passou e vai embora."

Ao afastar o celular e usar o computador só para atividades escolares, Rafaela diz ter recuperado parte do foco. Na segunda semana, já lia e produzia resumos por uma hora ou mais sem distrações, conta. "Comecei a estudar por 30 minutos, depois por 1 hora, depois por mais 3 horas e assim sucessivamente."

Segundo ela, a mudança teve impacto tanto nas provas escolares quanto na preparação para o Enem, permitindo passar mais tempo tentando compreender os conteúdos.

No entanto, os professores não defendem uma guerra contra a tecnologia. Rachel Guanabara afirma que a palavra-chave é "intencionalidade". A tecnologia pode ajudar em pesquisas, exercícios e ferramentas de aprendizagem, desde que o estudante saiba o que está fazendo e evite estímulos paralelos. "Não temos que banir telas, banir todo tipo de tecnologia, porque as telas, as tecnologias, elas também nos ajudam."

Para quem tem dificuldade, ler alguns minutos, afastar o celular e ampliar gradualmente o tempo de estudo ajudam a reconstruir a tolerância a atividades prolongadas. O bom resultado nos vestibulares não depende apenas de estudar mais. Envolve aprender a administrar estímulos, reconhecer a própria dispersão e treinar a capacidade de voltar ao foco.