Petróleo a 150 dólares? Setor explica quanto poderia custar abastecer o carro em Portugal
O petróleo voltou a superar a barreira dos 100 dólares por barril e o Bank of America já admite um cenário extremo em que o Brent possa chegar aos 150 dólares. Se esse cenário se concretizasse, que efeitos traria e quanto poderia passar a custar abastecer o carro em Portugal?
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António Comprido, secretário-geral da EPCOL – Associação de Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes, que representa empresas do setor dos combustíveis em Portugal, considera pouco provável que o petróleo chegue tão longe, mas fez à ‘Executive Digest’ uma estimativa do impacto que uma subida dessa dimensão poderia ter nos preços nas bombas.
“É sempre muito difícil fazer previsões num cenário tão pouco previsível como aquele que estamos a viver neste momento, com o conflito no Médio Oriente e também com o próprio conflito na Ucrânia”, começa por salientar António Comprido.
O especialista lembra que o cenário dos 150 dólares traçado pelo Bank of America representaria uma subida de cerca de 50% relativamente aos níveis atuais. “A experiência mostra-nos que normalmente essas previsões muito alarmistas não se concretizam”, aponta. “Parece pouco provável, mas francamente não tenho qualquer base para afirmar que vai chegar aos 150 dólares ou que não vai chegar.”
O mercado, porém, voltou esta quarta-feira a dar sinais de tensão. O Brent, referência para a Europa, ultrapassou novamente os 100 dólares por barril, num momento em que a escalada no Médio Oriente e as perturbações dos fluxos através do Estreito de Ormuz continuam a alimentar receios sobre a oferta.
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Quanto poderiam subir os combustíveis?
É aqui que António Comprido introduz uma distinção importante: uma subida de 50% no petróleo não significa que gasolina e gasóleo fiquem automaticamente 50% mais caros.
“O preço dos produtos refinados — gasolina, gasóleo, jet e todos os outros produtos que resultam do petróleo — não reage todo da mesma maneira à evolução do crude”, explica.
Além da matéria-prima, entram na formação do preço outros custos que também estão a ser afetados pelo conflito.
“Temos o custo da refinação, por exemplo, os fretes. Quando há petroleiros que são atacados e danificados, os preços do seguro e do frete marítimo estão também a subir exponencialmente. E tudo isso é importante.”
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Ainda assim, Comprido aceita fazer uma estimativa.
“Admitindo, assim, entre 25% e 30% de impacto da matéria-prima no preço final, uma subida de 50% no crude deverá corresponder a uma subida na ordem de 12,5% a 15% no preço dos combustíveis.”
O secretário-geral da EPCOL insiste que se trata de “contas muito, muito grosseiras” e que a evolução real dependeria dos restantes fatores. “Haverá uns que sobem mais e outros que sobem menos do que esse valor, mas andará por essa ordem de grandeza.”
Fizemos as contas: gasolina e gasóleo poderiam superar 2,40 euros
A partir da estimativa avançada por António Comprido é possível fazer uma simulação.
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Segundo os dados da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) indicados esta terça-feira, o gasóleo simples encontrava-se nos 2,111 euros por litro e a gasolina simples 95 nos 2,100 euros.
Aplicando exclusivamente a subida de 12,5% a 15% estimada para um cenário em que o crude aumentasse 50%, o gasóleo poderia passar para um intervalo entre cerca de 2,375 e 2,428 euros por litro. Na gasolina 95, o intervalo seria de aproximadamente 2,363 a 2,415 euros por litro.
Num depósito de 60 litros, isso significaria pagar entre 142,49 e 145,66 euros para abastecer a gasóleo e entre 141,75 e 144,90 euros no caso da gasolina. Face aos preços de referência atuais, seriam mais cerca de 16 a 19 euros por depósito.
É precisamente aí que reside a maior incerteza: fretes, seguros, custos de refinação e as próprias cotações internacionais da gasolina e do gasóleo podem evoluir de forma diferente e alterar significativamente o resultado.
Corrida às bombas? “Não se pode guardar na despensa”
A subida dos preços já levou alguns automobilistas portugueses a antecipar o abastecimento antes dos últimos aumentos.
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António Comprido confirma ter observado esse comportamento em vários postos durante o último fim de semana. Mas afasta a possibilidade de este comportamento, por si só, colocar em causa o abastecimento.
“Não se pode guardar [combustível] na despensa como se guardam as batatas ou o papel higiénico. As pessoas abasteceram antecipadamente no sábado e no domingo e vão abastecer menos durante esta semana.”
Ou seja, ao contrário de outros bens que podem ser armazenados durante semanas ou meses, a capacidade de antecipar o consumo de combustível é limitada essencialmente ao espaço disponível no depósito do automóvel.
“Se tiver o depósito quase cheio, mesmo que saiba que vai aumentar muito o preço, não consegue ir comprar mais, porque não tem sítio onde armazenar.”
Portugal corre risco de ficar sem combustível?
É uma das perguntas que ganha importância à medida que o conflito se prolonga e o Estreito de Ormuz continua condicionado.
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Comprido, porém, não vê atualmente razões para associar a corrida pontual às bombas a um risco de falta de combustível em Portugal.
“Não”, responde quando questionado sobre se esse comportamento poderá colocar em causa a segurança do abastecimento.
Para o especialista, se os preços continuarem a subir, poderá acontecer precisamente o contrário: uma redução da procura. “Eu diria até que uma escalada dos preços deve levar a uma certa retração no consumo.”
E explica porquê. “As famílias vão ter de, se calhar, andar menos, cortar algumas viagens, procurar alternativas mais baratas, transportes públicos. É natural que possa haver alguma retração no consumo.”
Até agora, sublinha, essa quebra ainda não é visível.
Mas há um ponto a partir do qual o comportamento poderá mudar. “Se os preços atingirem valores que são incomportáveis para as famílias, é provável que isso aconteça.”
O petróleo a 150 dólares continua a ser, para António Comprido, um cenário extremo e pouco provável. Mas com o Brent novamente acima dos 100 dólares e uma guerra cuja evolução permanece imprevisível, a distância entre um cenário teórico nos mercados internacionais e a conta paga por quem abastece em Portugal tornou-se novamente uma questão de euros — e de cêntimos — por litro.
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