Petróleo sobe e gasolina desce. Como se explica o preço dos combustíveis?

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13.09.2026, 18:33

Olhar apenas para o preço do petróleo para «adivinhar» o preço dos combustíveis pode ser enganador. Nas últimas semanas, o barril de Brent, referência para o mercado europeu, tem estado a subir e na semana passada voltou a negociar acima dos 100 dólares.

Esta segunda-feira, 14 de setembro, no entanto, vamos assistir a direções distintas no preço dos combustíveis: o gasóleo vai continuar a subir e a gasolina vai descer. Como se explica?

O petróleo tem um peso enorme nas contas do preço dos combustíveis, mas é apenas o ponto de partida de uma cadeia bastante mais longa. Entre um barril de crude e o gasóleo e gasolina que colocamos no depósito há refinação, transporte, armazenamento, distribuição e impostos. E, de momento, o mercado dos combustíveis já refinados merece especial atenção.

Totem de posto de combustível
© André Mendes / Razão Automóvel Antes do início do conflito, o preço médio do gasóleo simples situava-se nos 1,635 €/l, e o da gasolina simples nos 1,705 €/l (data de referência: 6 de março de 2026). Na última sexta-feira, 11 de setembro, esses valores eram, respetivamente, 2,113 €/l e 2,1 €/l.

É isso que ajuda a explicar porque podem existir semanas como esta, em que o petróleo e o gasóleo sobem, enquanto a gasolina desce.

Diferenças entre barril, crude e Brent

O barril é a unidade de medida internacional usada pela indústria petrolífera; o crude é o nome genérico dado ao petróleo tal como ele é extraído diretamente do subsolo. O Brent é um tipo específico de crude de elevada qualidade, extraído no Mar do Norte (entre a Noruega e Reino Unido) e cujo o preço é utilizado como referência. Nem todo o petróleo utilizado em Portugal é Brent, é apenas uma referência.

O seu automóvel não consome barris de Brent

Comecemos pelo princípio. Um automóvel não consome petróleo bruto. Consome gasóleo ou gasolina, produtos obtidos depois da refinação. E esses produtos têm as suas próprias cotações internacionais, que não têm obrigatoriamente de seguir o Brent ao mesmo ritmo, nem sequer de evoluir da mesma forma entre si. Foi precisamente isso que vimos no último meio ano, uma das consequências do conflito no Médio Oriente.

Antes do início do conflito, o Brent negociava perto dos 70 dólares e chegou a atingir os 138 dólares no pico da crise. Desde então recuou, mas voltou agora a ultrapassar os 100 dólares. Entre março e agosto, o preço médio do crude subiu 35% acima do valor esperado antes do conflito.

Mas os combustíveis refinados subiram bem mais no mesmo período e não todos na mesma proporção. O gasóleo subiu 59% e a gasolina 43%, com valores médios de 161 dólares por barril e 133 dólares por barril, respetivamente. Consulte na tabela abaixo:

MercadoCusto extra bruto (mil milhões de dólares)Preço médio (mar.–ago. 26)Expectativa
pré-guerra
Diferença
Petróleo bruto164,193 dólares/barril69 dólares/barril+35%
Gasóleo73,8161 dólares/barril101 dólares/barril+59%
Gasolina35,7133 dólares/barril93 dólares/barril+43%
Jet Fuel
(aviação)
20,0+59%
Fonte: CREA (Centre for Research on Energy and Clean Air).

O óbvio é que são dois produtos diferentes. O preço do gasóleo e da gasolina depende do custo do petróleo que lhes deu origem, claro, mas também da capacidade das refinarias para os produzir, dos stocks disponíveis, das rotas de transporte e até da procura em diferentes partes do mundo.

E é na refinação que encontramos uma das principais explicações para aquilo que estamos a verificar este ano. As perturbações no Estreito de Ormuz não afetaram apenas o transporte de petróleo bruto. Também atingiram refinarias e exportações de combustíveis já processados no Médio Oriente, precisamente de onde importamos uma parcela importante do gasóleo que consumimos.

Segundo o BCE (Banco Central Europeu), as exportações mundiais de produtos refinados diminuíram cerca de 4,5 milhões de barris por dia durante o segundo trimestre (março a junho). Em julho, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a redução foi de cinco milhões de barris por dia em relação a um ano antes.

Ao mesmo tempo, os ataques ucranianos às refinarias russas reduziram a produção naquele país. A Rússia é um dos maiores exportadores mundiais de gasóleo e tem limitado as exportações para proteger o abastecimento interno.

As exportações de gasóleo do Médio Oriente, Rússia e Ásia diminuíram cerca de 20% face ao comércio mundial deste combustível por via marítima.

Não significa que há falta de petróleo no mercado. Pelo contrário. O que há é menos capacidade para o transformar em combustível e, sobretudo, em gasóleo.

Europa gosta muito de gasóleo

A Europa tem ainda uma vulnerabilidade adicional: consome muito gasóleo e não produz o suficiente para satisfazer as suas necessidades. Em 2024, o gasóleo representou 63,2% da energia consumida pelo transporte rodoviário na União Europeia, contra 26,9% da gasolina.

Portugal não foge à regra. Só em julho foram introduzidas no consumo 458 521 toneladas de gasóleo, contra 136 838 toneladas de gasolina, segundo a ENSE (Entidade Nacional para o Setor Energético).

Ao mesmo tempo, a capacidade de refinação europeia diminuiu. Desde 2009 fecharam ou foram transformadas 28 das cerca de 100 refinarias existentes no continente.

A invasão russa da Ucrânia agravou essa dependência. Antes da guerra, a Rússia fornecia uma parcela muito significativa do gasóleo importado pela Europa. O embargo europeu obrigou a procurar combustível noutros mercados, incluindo Médio Oriente, Estados Unidos e Índia. Quando alguns desses fornecimentos sofrem perturbações, como aconteceu no Médio Oriente, o gasóleo sente particularmente o impacto.

Motor Renault ECO G

Foi também por isso que aumentou tanto a diferença entre o preço do petróleo e o dos combustíveis refinados. No gasóleo, os custos e margens associados à refinação passaram de cerca de 10 cêntimos por litro em fevereiro para 35 cêntimos nas primeiras semanas de julho. Na gasolina aumentaram de quatro cêntimos para 23 cêntimos.

Em Portugal o Brent também não manda diretamente

Em Portugal, quando calcula os custos de aprovisionamento, a ENSE não parte simplesmente da cotação do Brent. Utiliza as cotações internacionais dos produtos refinados. No caso do gasóleo, por exemplo, é considerada uma cotação internacional para o produto já refinado no noroeste da Europa, à qual são depois acrescentados custos como o transporte.

A ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) chegou à mesma conclusão num estudo publicado em agosto: “a evolução dos preços em Portugal refletiu, em larga medida, as cotações internacionais da gasolina e do gasóleo já refinados. Embora o Brent constitua uma referência relevante para o mercado petrolífero, não permite, por si só, explicar a evolução dos preços destes combustíveis”, concluiu.

E ainda não chegámos à bomba

Mesmo depois de comprado o combustível refinado, ainda há várias parcelas a acrescentar. Há custos de transporte e armazenamento, reservas obrigatórias, incorporação de biocombustíveis, distribuição e comercialização. Só depois chegam os impostos, sobretudo o ISP (Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos) e o IVA.

Há ainda uma questão de tempo. Os combustíveis vendidos hoje podem ter sido comprados ou contratados anteriormente. Existem stocks, contratos de fornecimento e tempos de transporte. Por isso, uma alteração das cotações internacionais não chega instantaneamente ao enorme painel de preços à entrada do posto.

Abastecimento de um automóvel vermelho
© Wassim Chouak / Unsplash Em abril, o preço médio do gasóleo simples chegou aos 2,145 €/l, ultrapassando o máximo de 2,10 €/l registado em 2022, na sequência da invasão russa da Ucrânia. A gasolina simples atingiu, por sua vez, os 2,024 €/l em maio.

E daqui nasce outra velha suspeita: os combustíveis sobem rapidamente quando as cotações aumentam, mas demoram muito mais a descer.

O fenómeno é conhecido como “foguete e pluma”, ou seja, os preços sobem como um foguete e descem como uma pluma. Porém, a ERSE não encontrou indícios de que esse fenómeno exista de forma persistente em Portugal. Segundo o regulador, parte dessa perceção pode resultar precisamente da evolução dos mercados internacionais dos produtos refinados.

“A identificação de uma eventual assimetria estatística não constitui, por si só, evidência de um
funcionamento irregular do mercado.”

ERSE

O Brent é importante, mas não conta a história toda

Naturalmente, o petróleo continua a ter uma enorme influência. Se o crude ficar mais caro durante muito tempo, a sua subida vai chegar aos combustíveis. Mas não permite adivinhar sozinho aquilo que vai acontecer na bomba.

É preciso saber quanto custa transformar esse petróleo em gasolina ou gasóleo, quanto combustível existe disponível, o que está a acontecer às refinarias, aos stocks e às rotas de transporte e, finalmente, somar distribuição e impostos.

A evolução prevista para esta segunda-feira, 14 de setembro, é um bom exemplo. O Brent está novamente acima dos 100 dólares e enquanto o gasóleo vai subir, a gasolina vai descer. É por isso que não basta olhar apenas para o preço do petróleo.

mariana teles