Pisa 2025: A nota começa muito antes - 08/09/2026 - Educação - Folha
Avaliações educacionais identificam avanços, retrocessos e desigualdades, oferecendo evidências para reorientar prioridades e estratégias. Por sua importância, exigem uma leitura rigorosa, principalmente sobre o que medem e quem está representado nos resultados.
Esse é um cuidado importante no Pisa. A avaliação da OCDE mede o desempenho de jovens de 15 anos matriculados a partir do 7º ano. Dessa forma, jovens que abandonaram a escola ou ainda estão em etapas anteriores ficam fora da população avaliada. O resultado oferece uma fotografia relevante de uma geração, mas não uma fotografia completa.
Na América Latina, a cobertura acrescenta uma dimensão decisiva. À medida que mais jovens permanecem na escola e avançam sem grandes distorções de idade e série, uma parcela maior da população de 15 anos passa a ser alcançada pelo Pisa. Estudantes de grupos historicamente mais vulneráveis passam a integrar a população avaliada. Essa mudança na composição pode influenciar a média e fazer com que avanços no sistema educacional não apareçam nos resultados devido a um processo de inclusão.
Outro ponto importante é que, aos 15 anos, os estudantes estão, em geral, nos anos finais do ensino fundamental ou no primeiro ano do ensino médio (no caso do Brasil), a depender de sua trajetória escolar. Isso significa que países que investiram na melhoria do ensino médio não têm esses ganhos capturados pelo resultado do Pisa, uma vez que os alunos são avaliados antes de chegarem a essa etapa.
Fenômeno similar acontece com avanços recentes em fases iniciais da educação básica, como a alfabetização na idade certa. Estudantes avaliados com 15 anos de idade passaram por essa fase oito anos antes (considerando alfabetização aos sete anos, como definido no Brasil). Ou seja, evoluções mais recentes também não são capturadas no resultado do Pisa.
Feitas essas ressalvas, os resultados de 2025 permanecem preocupantes. Entre os 35 países da OCDE com resultados comparáveis, a média caiu três pontos em ciências, 14 em leitura e nove em matemática desde 2022. Aqui, vale retomar o recorte temporal. Os estudantes avaliados tinham cerca de 10 ou 11 anos durante o fechamento das escolas na pandemia, quando estavam em uma fase importante da consolidação das aprendizagens básicas. O efeito geracional da pandemia se combina a problemas anteriores e à capacidade de cada sistema de recompor aprendizagens.
As trajetórias latino-americanas em educação são distintas. Essas diferenças também são observadas nos seis países em que atua o Instituto Natura. Entre eles, o Chile segue como o sistema de melhor desempenho, embora tenha perdido 12 pontos em leitura e nove em matemática desde 2022. O Peru caiu 18 pontos em leitura e nove em matemática. Colômbia e México alcançaram 414 pontos em ciências e apresentaram estabilidade nessa área desde 2015, enquanto registraram perdas recentes em leitura ou matemática. A Argentina teve queda nos três domínios e alcançou 393 pontos em ciências, o menor resultado do grupo.
O Brasil exige uma leitura cuidadosa. O país alcançou 409 pontos em ciências e permaneceu estatisticamente estável em leitura e matemática em relação a 2022. Desde 2015, a OCDE considera estatisticamente estável o desempenho brasileiro nas três áreas. O patamar de aprendizagem continua baixo e insuficiente. Ao mesmo tempo, a cobertura do Pisa aumentou quatro pontos percentuais no período. Entre os países analisados pela OCDE, o Brasil foi o único a combinar estabilidade nas três áreas com expansão da cobertura.
Manter a média enquanto uma parcela maior e mais vulnerável da população passa a ser representada pela avaliação amplia a compreensão do resultado brasileiro e reforça a urgência de priorizar os anos finais do ensino fundamental, etapa em que avanços anteriores podem perder continuidade.
O Pisa segue como referência internacional essencial. Sua leitura ganha precisão quando combinada a indicadores que acompanham a trajetória completa de uma geração, de forma a identificar em que etapas a aprendizagem se perde e orientar políticas capazes de transformar evidências em resultados sustentados ao longo de toda a educação básica.
Combinar perspectivas, índices e avaliações é fundamental. Políticas públicas estruturadas e sustentadas ao longo do tempo podem fazer da educação um vetor ainda mais potente de transformação social na América Latina.