PISA 2025: Portugal recua na escola e as desigualdades continuam a pesar no desempenho - 24 Notícias

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No dia em que saem os resutados do PISA, é impossível não recordar as notícias de agosto que davam conta que na primeira fase do concurso de acesso ao ensino superior, apenas 3% dos novos colocados vinham de famílias com maiores dificuldades económicas, proporção que se mantém praticamente igual há anos, mesmo com o aumento geral no número de colocações.

Em 2022, acerca da mobilidade social, a OCDE estimava que são precisas cerca de cinco gerações para que uma família portuguesa na base da distribuição de rendimentos consiga chegar ao salário médio, e Portugal continua a ser um dos países mais desiguais da União Europeia. E o desempenho escolar está ligado ao contexto socioeconomico de forma diretamente proporcional. Não é estranho, por isso, que os cursos mais concorridos, como Medicina ou Engenharia Aeroespacial, continuem a ser dominados por estudantes de famílias com mais recursos, que tiveram acesso a explicações e a escolas com melhores condições.

O que diz o PISA 2025?

Esta é a maior edição de sempre do estudo, com mais de 760 mil alunos de 15 anos testados em 91 países e economias, representa cerca de 33 milhões de jovens e traz um retrato pouco animador da educação em Portugal, ainda que com alguns contrastes entre o desempenho académico, que continua a piorar, e o ambiente escolar, que os alunos avaliam de forma positiva.

Como evoluiu a Educação em Portugal?

Na primeira edição do PISA, em 2000, Portugal partiu de resultados fracos e abaixo da média da OCDE, foi melhorando de forma consistente ao longo de quinze anos, e atingiu o seu ponto mais alto em 2015, ano em que se tornou o único país da OCDE a apresentar uma melhoria significativa nos três domínios avaliados (leitura, matemática e ciências) e ficou, pela primeira vez, acima da média da organização nas três áreas, o que lhe valeu elogios internacionais.

Mas a partir daí a tendência inverteu-se por completo, e de forma mais acentuada do que na generalidade dos outros países. A OCDE é taxativa no relatório no que concerne a Portugal: os ganhos alcançados até 2015 foram "completamente revertidos" pelas perdas dos anos seguintes. Em matemática e leitura, os resultados portugueses de 2025 são hoje piores do que em 2006, sendo que, no caso da leitura, são mesmo piores do que em 2000. Em ciências, o desempenho continua acima do que era há vinte anos, mas está "significativamente" abaixo do nível atingido em 2015.

Traduzido em números

Se se comparar com a edição anterior (2022), os alunos portugueses desceram nas três áreas: a matemática caiu de 472 para 460 pontos (menos 12), a leitura caiu de 477 para 462 pontos (menos 15) e as ciências desceram ligeiramente, de 485 para 482 pontos (menos 3).

No ranking internacional, isto reflete-se numa descida de posições em matemática (do 29.º para o 31.º lugar) e em leitura (do 24.º para o 26.º lugar); apenas em ciências Portugal subiu um lugar, do 30.º para o 29.º, mas isso deveu-se sobretudo ao facto de a média dos outros países ter caído ainda mais do que a portuguesa, e não a uma melhoria real.

Se olharmos para o período mais alargado, entre 2015 e 2025, as perdas portuguesas foram de 32 pontos em matemática, 36 em leitura e 19 em ciências.

Como a OCDE estima que cada 20 pontos na escala PISA equivalem, mais coisa menos coisa, a um ano de aprendizagem, isto significa que os alunos portugueses de hoje sabem, em média, o equivalente a mais de ano e meio menos do que os seus colegas de há uma década, em matemática e leitura.

Portugal é o pior?

A queda não é exclusiva de Portugal, a OCDE regista o desempenho médio mais baixo de sempre entre os seus países-membros nas três áreas testadas, mas mesmo num contexto alargado Portugal destaca-se pela negativa por a sua descida ter sido mais acentuada do que a da generalidade dos outros sistemas educativos.

Porquê tão mau?

A OCDE admite não ter uma resposta simples: a pandemia de covid-19 e o encerramento de escolas são frequentemente apontados como fatores relevantes, mas os relatórios sublinham que a tendência de queda já se vinha a desenhar antes da pandemia em muitos países, pelo que terão de existir outras explicações, porventura ligadas à digitalização, às alterações nos hábitos de leitura ou a mudanças mais profundas na relação dos jovens com a aprendizagem.

Níveis de proficiência dos alunos

O PISA divide os resultados dos alunos em seis níveis. O nível 2 é considerado o mínimo necessário para que um aluno consiga participar de forma eficaz na sociedade.

Em matemática, um aluno que atinge este nível já consegue, por exemplo, comparar diferentes percursos, converter preços entre moedas ou perceber uma fatura. Em Portugal, 24% dos alunos não atingem o nível mínimo em ciências, contra 26% na média da OCDE. Em matemática, são 35%, o mesmo valor da média da OCDE, e em leitura, 28%, contra 31% na OCDE.

Em comparação com 2015, a situação piorou: aumentou em 11 pontos percentuais o número de alunos abaixo do nível mínimo em matemática e leitura, e em sete pontos percentuais em ciências.

Além disso, 18,6% dos jovens portugueses não atingem o nível dois em nenhuma das três áreas (matemática, leitura e ciências). Este valor é próximo da média da OCDE, que é de 19,7%.

Segundo Andreas Schleicher, diretor da OCDE para a Educação, estes números podem ser ainda maiores, porque o PISA não inclui alguns jovens, como os que já abandonaram a escola ou têm grandes dificuldades com a língua da avaliação.

Tendo estes casos em conta, estima-se que 29% dos jovens de 15 anos da OCDE tenham dificuldades nas três áreas, um aumento face aos 25% registados em 2022.

No outro extremo estão os “top performers”, ou seja, os alunos que atingem os níveis 5 ou 6. Estes conseguem compreender textos complexos, resolver problemas matemáticos mais difíceis e explicar e analisar questões científicas de forma aprofundada. Em Portugal, apenas 9% dos alunos atingem este nível nas três áreas ao mesmo tempo, enquanto a média da OCDE é de 11,9%. Portugal fica, assim, bastante atrás de países como a China, onde mais de 50% dos alunos são “top performers” e menos de 2% apresentam fraco desempenho.

Diferenças entre rapazes e raparigas

Em matemática, mantêm-se relativamente estáveis, com os rapazes a obter, em média, mais 11 pontos do que as raparigas em Portugal (13 pontos na média da OCDE); em ciências, os dois géneros apresentam resultados muito semelhantes. Mas na leitura a diferença acentuou-se significativamente: desde a última edição, o desempenho dos rapazes portugueses caiu 21 pontos, enquanto o das raparigas caiu apenas 8, abre-se agora um fosso de 33 pontos entre géneros, acima dos 30 pontos que separam rapazes e raparigas, em média, na OCDE.

Desigualdades socioeconómicas no desempenho escolar

Os dados mostram que, em Portugal, os 25% de alunos com mais recursos obtêm, em média, mais 92 pontos em ciências do que os 25% com menos recursos, uma diferença acima da média da OCDE, que é de 85 pontos, e que corresponde a cerca de quatro anos de escolaridade, uma vez que 20 pontos na escala PISA equivalem, aproximadamente, a um ano de aprendizagem.

Em matemática, a diferença entre os dois grupos é ainda maior, chega aos 93 pontos. O estatuto socioeconómico explica 13,3% da variação de desempenho dos alunos portugueses em ciências, um valor superior à média da OCDE (11,6%). Praticamente dois em cada cinco alunos mais pobres em Portugal (39%, contra 37% na média da OCDE) não atingem sequer o nível 2 de proficiência em ciências, contra apenas 6% dos alunos mais favorecidos. Ainda assim, e apesar de o país estar bastante abaixo da média em termos de equidade, não se encontra entre os casos mais extremos: países como o Canadá, Malta e o Japão destacam-se pela positiva, com o estatuto socioeconómico a pesar menos de 8% no desempenho dos seus alunos, enquanto na Alemanha, Eslováquia, Luxemburgo e Roménia esse peso ultrapassa os 19%.

Resiliência académica

Indicador que mede a proporção de alunos desfavorecidos que, apesar das adversidades, conseguem obter resultados de nível elevado. Em Portugal, apenas 10,8% dos alunos carenciados consegue esse feito, um valor ligeiramente inferior à média da OCDE (11,9%), fica assim o país numa posição intermédia, sem conseguir quebrar a associação persistente entre origem social e sucesso escolar.

Falta de professores e de recursos nas escolas portuguesas

O relatório identifica este ponto como particularmente grave. Apenas 13% dos alunos portugueses frequentam escolas onde os diretores não reportam escassez de docentes, um dos valores mais baixos entre os 91 países e economias participantes, e muito abaixo da média da OCDE, que é de 29%.

Portugal enfrenta também problemas relacionados com a falta de professores. Na Europa, apenas a Estónia, a Bélgica e os Países Baixos apresentam uma situação pior. Para 44% dos alunos portugueses, esta falta de professores já afeta diretamente a qualidade do ensino. Também existem problemas com equipamentos e materiais escolares. Apenas 27% dos alunos portugueses estudam em escolas que não têm falta destes recursos, enquanto a média da OCDE é de 43,8%. Na União Europeia, apenas a Letónia, a Lituânia e a Estónia apresentam resultados piores.

Em relação aos recursos digitais, cerca de 40% dos alunos portugueses consideram que a sua escola tem equipamentos inadequados ou de má qualidade. Este valor é o dobro da média da OCDE, que é de 20%. Cerca de 32% dos alunos dizem ainda que a escola não tem recursos digitais. O relatório destaca que a tecnologia pode ajudar a diminuir as desigualdades na educação, mas, para isso, é necessário que todos os alunos tenham acesso a bons recursos digitais e que os professores saibam utilizá-los. Por isso, é importante garantir equipamentos adequados e formação para os professores.

O que dizem os alunos portugueses?

Continuam a avaliar de forma muito positiva o ambiente escolar e, em particular, o apoio que recebem dos professores. Portugal obtém um índice de apoio docente de 0,32, muito acima da média da OCDE, que é de apenas 0,03. Em concreto, 80% dos alunos portugueses afirmam que os professores mostram interesse pela aprendizagem de todos os jovens (mais 11 pontos percentuais do que a média da OCDE) e 83% dizem receber apoio extra sempre que precisam (dez pontos acima da média global). Também no que diz respeito ao bullying, Portugal apresenta resultados comparativamente bons: apenas 14% dos jovens dizem ser frequentemente vítimas de pelo menos uma forma de bullying, seis pontos abaixo da média da OCDE, coloca o país entre os que registam menos casos a nível mundial, apenas Itália e Montenegro apresentam valores mais baixos, numa tabela de 89 países e regiões. Ainda assim, à semelhança do que aconteceu na generalidade dos países, os níveis de bullying pioraram face a 2022. O relatório sublinha que este é um tema particularmente relevante porque vários estudos encontraram uma forte associação entre o bullying, e em especial o cyberbullying, e resultados escolares mais fracos: em 82 dos 86 sistemas educativos analisados, as vítimas de cyberbullying obtiveram entre 13 e quase 90 pontos a menos em ciências do que os colegas que não sofrem esse tipo de assédio.

Bem-estar escolar

A perceção de que aprender coisas novas é "aborrecido" triplicou entre os alunos portugueses, passa de 5% em 2022 para 15% em 2025, ainda assim ligeiramente abaixo da média da OCDE, que subiu de 12% para 17% no mesmo período. Os autores do relatório consideram este um sinal preocupante, uma vez que alunos aborrecidos tendem a prestar menos atenção nas aulas, a participar menos e a ter pior desempenho, podendo esse aborrecimento persistente levar a um maior absentismo e a um afastamento gradual da escola. Cerca de 20% dos alunos portugueses consideram também que o tempo passado na escola é uma "perda de tempo", um valor ligeiramente inferior à média da OCDE (24%), mas que ainda assim revela um certo desencanto. Quanto ao ambiente disciplinar nas aulas, 30% dos alunos consideram que a maioria das aulas de ciências são perturbadas por ruído ou desordem (valor em linha com a média internacional) e um em cada quatro diz que os colegas não conseguem ouvir o professor.

Envolvimento familiar

Em 2025, 73% dos jovens portugueses dizem que os pais lhes perguntam pelo menos uma vez por semana como correram as aulas, e 53% costumam discutir com a família os problemas que tiveram na escola, valores inferiores aos registados em 2022, altura em que se situavam em 84% e 69%, respetivamente. Esta tendência de diminuição do apoio familiar não é exclusiva de Portugal, sendo registada em praticamente todos os países participantes no estudo, o que a OCDE considera preocupante, dado que este é um dos fatores que mais contribui para o sucesso escolar.

Absentismo

Os alunos portugueses faltam bastante menos do que a média internacional: 7% dizem ter faltado um dia inteiro à escola nas duas semanas anteriores ao teste (contra 22% na média da OCDE) e 12% faltaram a pelo menos uma aula. Já os atrasos são mais frequentes do que a média: 56% dos alunos portugueses admitem ter chegado atrasados à escola, contra 50% na média da OCDE.

Uso de Inteligência Artificial

Bastante comum entre os estudantes portugueses. Cerca de 48% usam chatbots de IA pelo menos uma vez por semana para fazer trabalhos escolares, um valor ligeiramente superior à média da OCDE, que é de 46%. Apenas 8% dizem nunca ou quase nunca utilizar estas ferramentas, enquanto na OCDE esse valor é de 14%. Em Portugal, os alunos usam a IA principalmente para fazer pesquisas sobre um tema (35%), resumir textos (32%) e escrever trabalhos (34%). A relação entre o uso da IA e o desempenho escolar é, no entanto, complexa. Os alunos que utilizam estas ferramentas de forma moderada, entre uma vez por mês e duas vezes por semana, para pesquisar ou resumir textos, apresentam, em média, melhores resultados do que aqueles que quase não usam IA ou que a utilizam todos os dias. Por outro lado, os alunos que não utilizam IA para pesquisar, resumir ou escrever trabalhos têm, em média, resultados cerca de 20 pontos superiores em ciências, o que corresponde aproximadamente a um ano de escolaridade. Os resultados também variam entre países.

Na Tailândia, por exemplo, os alunos que usam IA regularmente para escrever textos têm, em média, mais 24 pontos em ciências do que os que não usam, enquanto em Macau a diferença é de 21 pontos. Isto mostra que não é apenas o uso da IA que importa, mas também a forma como é utilizada, as políticas educativas e a preparação dos professores.

O relatório destaca ainda que os alunos que usam IA frequentemente e que aprendem na escola a avaliar criticamente a informação produzida por estas ferramentas tendem a ter resultados ligeiramente melhores. Por isso, não basta ter acesso à tecnologia: é também importante ensinar os alunos a utilizá-la corretamente e a verificar a informação. Portugal destaca-se neste aspeto, já que mais de 90% dos alunos concordam que a informação encontrada numa única fonte deve ser confirmada através de outras fontes fiáveis.

Por fim, na área da Resolução Computacional de Problemas, que avalia a capacidade de utilizar programação e ferramentas digitais para resolver problemas, Portugal obteve 501 pontos, praticamente igual à média da OCDE, que é de 500 pontos. Macau lidera este indicador, com 572 pontos, seguido por países como a Austrália, a Estónia, o Japão, a Coreia do Sul e a Nova Zelândia.

*Este texto foi originalmente publicado na newsletter "Isto é útil", do 24notícias, no dia 8 de setembro de 2026.*

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