Plantada em jardins e colocada em jarras, esta planta é das mais perigosas para a saúde e já invadiu mais de 200 municípios

🗓️ 2026-09-07 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Estudos avisam para o potencial da espécie constituir um problema de saúde ambiental, podendo afetar a saúde humana, dado o caráter alergénico do seu pólen. Por outro lado, devido à sua floração tardia, uma espécie exótica como esta, poderá criar, especialmente em regiões mediterrânicas, uma segunda época de exposição ao pólen, no outono, "com implicações para a saúde pública"

A planta invasora cortadéria, também conhecida como erva-das-pampas, é das mais perigosas para a saúde e está presente em mais de 200 municípios continentais, alertaram esta segunda-feira especialistas, que lamentaram a falta de medidas para a conter.

“Cada ano em que se atrasa a intervenção torna o problema mais caro, mais difícil e praticamente impossível de travar”, avisou, em nota de imprensa enviada à agência Lusa, Hélia Marchante, professora na Escola Superior Agrária da Universidade Politécnica de Coimbra e especialista em plantas invasoras.

Segundo a docente e investigadora, um estudo realizado em 2025 sobre a distribuição das plantas invasoras em Portugal continental identificou a planta, cujo nome científico é Cortaderia selloana em 208 municípios - “mas é possível que esteja em mais” - colocando-a entre as dez plantas invasoras com distribuição mais ampla no país.

“Não estamos perante uma ameaça futura. A invasão já está instalada. E está a avançar rapidamente. O problema não é a falta de conhecimento. É a falta de ação à escala necessária. Portugal sabe há anos que a cortadéria é uma espécie invasora”, reforçou.

A planta em causa é conhecida pelas suas plumas vistosas e frequentemente vista à beira das estradas, em zonas costeiras e nas margens de rios, mas também em propriedades privadas - “plantada em jardins e colocada em jarras” - ou parques e espaços públicos detidos por câmaras municipais, juntas de freguesias e outras entidades.

De acordo com a nota, um decreto-lei de 2019 (com sete anos de existência) estabeleceu o regime nacional de prevenção e gestão das espécies exóticas invasoras, incluindo “expressamente a Cortaderia selloana na Lista Nacional de Espécies Invasoras”.

“A legislação interdita, entre outros, a sua detenção, cultivo, comércio, transporte e utilização como planta ornamental e determina a adoção de medidas de gestão adequadas. Mais importante, a própria legislação estabelece uma lógica inequívoca: prevenir, detetar cedo e agir rapidamente”, frisou Hélia Marchante.

Citando vários artigos dessa legislação, a cientista e responsável na Escola Superior Agrária de Coimbra pelo projeto “LIFE COOP Cortaderia” - que envolve instituições de Portugal, Espanha e França no combate a esta espécie invasora – afirmou que está prevista a existência de um sistema de vigilância, bem como a comunicação imediata de novas ocorrências e que as plantas invasoras em território nacional “sejam objeto de planos de ação para controlo, contenção ou erradicação, com prioridades definidas em função da gravidade da ameaça e da dificuldade de intervenção”.

“O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) tem o plano de ação para controlo de Cortaderia praticamente pronto, mas a sua publicação e, mais relevante ainda, a sua implementação, teima em não acontecer”, acusou Hélia Marchante.

“A ciência diz para agir cedo. A legislação diz para atuar. A experiência internacional mostra que esperar torna tudo pior. Então, porque continuamos a assistir à expansão da cortadéria? (…) Cada planta que se deixa produzir sementes é uma fábrica de novas invasões.”

Outros estudos avisam para o potencial da espécie constituir um problema de saúde ambiental, podendo afetar a saúde humana, dado o caráter alergénico do seu pólen.

Por outro lado, devido à sua floração tardia, uma espécie exótica como esta, oriunda da América do Sul, poderá criar, especialmente em regiões mediterrânicas, uma segunda época de exposição ao pólen, no outono, “com implicações para a saúde pública”.

Para além das entidades públicas, a quem apelam a uma intervenção coordenada – desde a administração central, aos municípios ou gestores de áreas protegidas, entre outras - os investigadores da Agrária de Coimbra reconhecem o “papel fundamental” dos cidadãos no reconhecimento da espécie e em evitar a sua utilização e disseminação, “controlar nos seus jardins e terrenos e comunicar novas ocorrências”.

“E é necessária uma mudança de paradigma: não podemos continuar a intervir apenas onde e quando a cortadéria já domina. Temos de procurar e eliminar os novos focos antes que se transformem em grandes focos”, sustentou aquela instituição.