Por que a Petrobras está comprando gás dos EUA por 20 anos

🗓️ 2026-09-15 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -
Sede da Petrobras, no Rio de Janeiro
Sede da Petrobras, no Rio de Janeiro (Fernando Frazão/Agência Brasil)

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A decisão da Petrobras de comprar gás natural liquefeito dos Estados Unidos pelos próximos vinte anos parece, à primeira vista, contraditória. O Brasil vem batendo recordes na produção de gás, e o próprio planejamento oficial prevê forte expansão da oferta doméstica ao longo da próxima década. Ainda assim, a estatal resolveu garantir 0,8 milhão de toneladas de GNL (Gás Natural Liquefeito) por ano da americana Sempra Infrastructure durante duas décadas.

A explicação está menos numa expectativa de falta permanente de gás e mais na compra de previsibilidade. A demanda brasileira pelo combustível varia fortemente de acordo com as chuvas. Quando os reservatórios das hidrelétricas estão baixos, aumenta o despacho das termelétricas e, com ele, a necessidade de GNL. Historicamente, o Brasil cobriu boa parte desses picos recorrendo ao mercado spot — justamente onde os preços podem disparar quando vários países precisam comprar ao mesmo tempo. A crise hídrica de 2021 mostrou o risco: as importações de GNL da Petrobras mais que triplicaram naquele ano, chegando à média de 23 milhões de metros cúbicos por dia.

Há também uma segunda incerteza entrando na conta: a Bolívia. A produção do país vizinho vem caindo, o que levou Petrobras e YPFB a rever sucessivamente o contrato de fornecimento pelo Gasbol. O acordo atual pode se esgotar entre 2028 e 2029. No Plano Decenal de Expansão de Energia, a EPE já prevê que o gás recebido pelo gasoduto caia de 13 milhões de metros cúbicos por dia para 5 milhões a partir de 2030.

Nem mesmo o avanço do pré-sal elimina o problema. Em julho, a produção brasileira de gás atingiu 214,97 milhões de metros cúbicos por dia, 12,6% acima de um ano antes. Mas apenas 66,12 milhões de metros cúbicos por dia foram efetivamente disponibilizados ao mercado. Parte relevante da produção é reinjetada nos reservatórios, consumida nas próprias operações ou depende de infraestrutura de escoamento e processamento para chegar aos consumidores. A própria EPE alerta que restrições na malha podem impedir que uma oferta nacional teoricamente excedente atenda toda a demanda.

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A Petrobras, portanto, está montando uma espécie de seguro para seu portfólio. O movimento começou antes do acordo com a Sempra. Em fevereiro de 2025, a companhia contratou da britânica Centrica outros 0,8 milhão de toneladas anuais de GNL por quinze anos, com entregas a partir de 2027. Na ocasião, afirmou explicitamente que pretendia reduzir sua exposição ao mercado spot. O novo negócio dobra o volume anual contratado nesses dois acordos de longo prazo e estende a proteção por mais duas décadas.

O curioso é que isso acontece justamente quando a EPE projeta crescimento de 95% da produção líquida brasileira de gás entre 2025 e 2035 e um balanço nacional superavitário ao longo do período. Não há contradição necessariamente. O excedente pode existir em uma região ou período e faltar gás disponível onde e quando as térmicas forem acionadas. O GNL funciona como uma fonte de flexibilidade para cobrir esses picos. A aposta da Petrobras é trocar parte do risco de ter de correr ao mercado internacional em momentos de aperto por um compromisso longo de fornecimento.

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A companhia não revelou quanto pagará pelo GNL da Sempra nem a fórmula de preços do contrato — informação decisiva para saber quanto custa esse seguro. Também não informou quando começam as entregas. O que já está claro é a direção da estratégia: depois de anos dependendo fortemente de cargas compradas conforme a necessidade, a Petrobras está reservando com antecedência uma parcela maior do gás que poderá precisar no futuro.

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