Memória na velhice fica menos precisa, aponta pesquisa - 21/09/2026 - Equilíbrio - Folha
Velhice e esquecimento parecem andar de mãos dadas. Mas, na verdade, as lembranças se tornam menos precisas e não são totalmente esquecidas. Estudo publicado na revista Cerebral Cortex mostra como, à medida que você envelhece, o cérebro mescla experiências relacionadas, em vez de reproduzir exatamente aquela de que você precisa.
A memória é um processo complexo. Mesmo quando tudo funciona como deveria, a maneira como as pessoas se lembram de acontecimentos específicos envolve várias etapas.
Digamos que você tenha uma conversa com um amigo. A primeira etapa da memória ocorre quando você vivencia, sente e percebe os detalhes de um acontecimento à medida que ele ocorre. A segunda envolve armazenar esses detalhes no arquivo do cérebro. A terceira acontece quando, uma semana depois, você quer se lembrar daquela conversa com seu amigo e precisa procurar no arquivo a pasta certa. Essa última etapa, a recuperação, é o que muitas pessoas entendem como memória.
Imagine que, ao recuperar informações daquela conversa com seu amigo, seu cérebro combine acidentalmente detalhes dela com os de uma conversa que você teve com seu cônjuge naquela manhã. Então, ao tentar se lembrar da conversa com seu amigo, você acaba acessando a pasta da conversa com seu cônjuge. Esse tipo de confusão pode ser um exemplo do que acontece no cérebro durante o envelhecimento.
Por que isso é importante
Lembrar-se de pessoas e acontecimentos é importante para muitas atividades sociais. Confundir o nome das pessoas pode ser constrangedor. O medo de confundir lembranças pode até levar ao isolamento social.
Os cientistas já sabem que confundir lembranças ocorre com mais frequência do que esquecê-las por completo. O que ainda não está tão claro é como o cérebro se confunde.
O estudo buscou entender em que momento do processo da memória essas confusões acontecem e qual é o papel do centro de memória do cérebro, chamado hipocampo.
O hipocampo participa de todas as etapas da memória. Os padrões de disparo neural que ocorrem durante a primeira etapa —a experiência inicial de conversar com seu amigo— costumam se repetir enquanto o cérebro arquiva essa lembrança e, mais tarde, quando a recupera.
No estudo, escaneamos o cérebro de adultos jovens, de meia-idade e idosos enquanto eles passavam por essas mesmas três etapas da memória. Dentro do aparelho de ressonância, eles viam brevemente a imagem de um rosto na parte superior da tela e, na parte inferior, a imagem de um cenário ou de um objeto, como uma floresta ou uma maçã.
Pedimos aos participantes que imaginassem a pessoa mostrada na parte superior interagindo naquele cenário ou com aquele objeto. Cada par de imagens representava um "acontecimento" distinto.
Em seguida, eles relaxaram durante 20 minutos, enquanto continuávamos registrando sua atividade cerebral. Por fim, fizeram um teste de memória no qual um rosto que já haviam visto reaparecia na parte superior da tela, acompanhado de quatro imagens abaixo. Os participantes tinham de se lembrar de qual dessas imagens havia sido anteriormente associada àquele rosto. Repetimos o teste várias vezes para avaliar até que ponto as pessoas se lembravam das associações entre rostos, cenários e objetos nos diferentes acontecimentos.
Descobrimos que as pessoas mais velhas confundiam mais as lembranças do que os adultos jovens. Por exemplo, tinham maior probabilidade de se lembrar erroneamente de que um rosto inicialmente associado a uma maçã havia sido associado a uma floresta. Os idosos também tinham menor probabilidade de repetir os mesmos padrões de atividade cerebral observados quando vivenciaram, armazenaram e recuperaram uma lembrança específica pela primeira vez. Surpreendentemente, mesmo quando repetiam os padrões cerebrais originais, eram ainda mais propensos a confundir suas lembranças.
O estudo fornece novas evidências de que, à medida que envelhecemos, o hipocampo altera indevidamente as lembranças entre as diferentes etapas da memória.
O que ainda não se sabe
Pesquisas com adultos jovens, incluindo os participantes do estudo, sugerem que o hipocampo deveria apresentar os mesmos padrões de disparo neural ao recordar um acontecimento e ao vivenciá-lo pela primeira vez.
Mas os idosos que confundiram mais as lembranças do que os participantes mais jovens apresentaram esses mesmos padrões neurais. Então, qual é a assinatura cerebral quando os idosos se lembram corretamente? Outras regiões do cérebro, além do hipocampo, estariam ajudando? O estudo não forneceu uma boa resposta para essas perguntas.
Próximos passos
Os pesquisadores ainda estão descobrindo como diferentes regiões do cérebro se comunicam entre si. Uma das próximas fronteiras da neurociência é compreender como a estimulação elétrica do hipocampo pode prevenir a perda de memória ou restaurar lembranças perdidas.
Intervenções futuras podem tentar fortalecer o hipocampo para impedir que ele altere uma lembrança depois que ela é armazenada. Os pesquisadores já têm algumas ideias para isso: exercícios físicos intensivos, treinamento de atenção plena, estimulação cerebral e até o registro de pistas de memória em smartphones.
Mas os pesquisadores ainda precisam investigar se alterar o hipocampo pode resultar em lembranças estáveis e consistentes ao longo do tempo.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.