Portugal, o País da Marmota
Sinceramente, acho que não sei distinguir uma marmota de uma toupeira. Este é o meu nível de ignorância. Claro que sei que a primeira vive em cima e a segunda em baixo. Mas se as duas passassem por mim na rua, evitaria dirigir-lhes a palavra para não passar vergonha confundindo-as.
Portugal é o país da marmota. Num certo sentido, até gostaria de dizer que é da toupeira por viver encafuado na terra mas tenho de seguir outro tipo de raciocínio. Portugal é o país da marmota por causa do filme “O Feitiço do Tempo” (“Groundhog Day” de Harold Ramis, de 1993).
O filme é inesquecível por conta do argumento simples e certeiro: Phil Connors, um jornalista frustrado por ter de cobrir o festival saloio de uma terrinha que comemora o Dia da Marmota, Punxsutawney na Pensilvânia, descobre-se inexplicavelmente a acordar sempre no mesmo dia: o tempo parou como castigo.
Phil passa por todas as fases da maldição do tempo parado: revolta-se, enlouquece, tenta tirar proveito, resigna-se. À sua volta, está dividido entre um povo que despreza e uma mulher que tenta conquistar. Apesar da diferença entre estados de espírito, enquanto o próprio Phil não mudar tudo vai ficar na mesma.
Não é preciso dizer mais acerca do filme para as semelhanças entre o dia da marmota e Portugal se insinuarem. Portugal é o país da marmota porque também nos encontramos num tempo enfeitiçado, parado, paradinho. E nada vai mudar enquanto teimarmos em ficar na mesma.
Muitas vezes julgamos que fica no passado quem prefere o passado ao presente ou ao futuro. Mas essa é uma análise superficial. Portugal não é o país da marmota por preferir o passado. O que está em causa em vivermos paralisados não é o nosso amor pelo passado mas o nosso medo de mudar.
Esta lição faz-se lembrando filmes como o “Groundhog Day” ou com a Bíblia aberta. Por exemplo, na Carta que Paulo escreve aos Colossenses encontramos a mesma dinâmica: a partir do momento em que, em vez da manutenção do mistério, há uma revelação divina, a nossa vida não pode ser a mesma.
Portugal também é o país da marmota pela nossa sobrevalorização do mistério. Enquanto acharmos que o prestígio é intuir o que não pode ser posto em palavras não teremos qualquer vontade de mudar. Esta nação de místicos e poetas há-de manter o país na mesma por estar convicta de que o povo não sabe lidar com o que é elevado.
Os portugueses não querem arriscar viver um dia diferente daqueles dias que já conhecem. Vivemos o dia da marmota sucessivamente porque despejamos este feitiço em nós próprios, evitando as ameaçadoras agruras da mudança. A nossa confortável pequenez é a sensação de controlo que a previsibilidade nos oferece.
Como pastor que sou, noto isto sobretudo quando na igreja crescem comunidades estrangeiras. A comparação mais imediata faz-se hoje graças à chegada de brasileiros. O brasileiro vive para mudar, como moderno que é. Muda de lá para aqui, muda de profissão, muda de casa, muda de carro e, eventualmente, muda daqui para outro país qualquer. Nós, claro, sentimo-nos proverbial e patrioticamente abandonados. Ser brasileiro e moderno é mudar.
Ser português é ficar na mesma. Passamos décadas de volta dos mesmos dilemas, das mesmas perguntas, dos eternos “e se?” Acompanho espiritualmente um povo que aperfeiçoa a virtude da manutenção. Fizemos do feitiço do tempo parado a suposta bem-aventurança do dia da marmota. Comparada connosco, até a toupeira no seu buraco parece mais desafogada.
Remato com palavras da Agustina na excelsa “A Brusca”: “Na província, o costume é o soberano. Pensai alterá-lo, e tereis arcontes e beleguins, trovadores e donas contra a vossa vida. Proclamai uma inovação, e cozinheiras honestas, magas do bolinho de bacalhau e da lampreia bordalesa, hão-de ministrar-vos uma mistura ervada. A paz da província chama-se prudência. Uma prudência ataviada de simpatias e consentimentos, às vezes uma prudência chamada instinto clerical, botânico, que destila veneno e doçura da mesma planta”.
Portugal precisa de descobrir o caminho de saída de Punxsutawney.