Prevenir ao invés de Remediar
Ao longo das últimas semanas, o caos instaurado pelo processo de correção e avaliação dos exames nacionais dominou por completo a agenda pública. Sem qualquer precedente que se registe nos anos transatos, presenciámos o adiamento da entrega dos resultados das provas em questão, fundamentais para o futuro de milhares de jovens portugueses. De armazéns que nos recordam a Amazon a acusações ping pong de “imprudência”, que mensagem nos transmite a catástrofe que se tem desenrolado?
Se há um traço de personalidade que caracteriza o nosso Ministro da Educação é, inequivocamente, a exagerada confiança que tem nas reformas que implementa. Numa primeira análise, seria um traço positivo que o governante confiasse nas transformações que propõe ao país. Torna-se negativa quando, perante um fracasso evidente da mesma, se insiste no erro. Uma governação defensiva conduz, inevitavelmente, a um caminho de cegueira política que afasta a realidade da situação dos governantes – e o exemplo primordial desta questão são, principalmente, os exames nacionais.
Sejamos objetivos – acredito que pouquíssimos serão os professores que se oponham à modernização e digitalização da educação em Portugal. É algo positivo, que acelera os processos, derruba barreiras e nos coloca em uníssono com as boas práticas europeias. Não obstante, o segredo de uma reforma eficaz não é a conceptualização, mas sim a respetiva execução tendo, em particular neste plano, a tutela fracassado redondamente.
Seria inconsequente da minha parte condenar um Ministério que, quer se goste quer não, tenha demonstrado uma índole claramente reformista ao inevitável fracasso político após analisar apenas uma questão alarmante como a dos exames. Pois bem, para tristeza do eleitor, são vários os aspetos e projetos em que o Ministério da Educação e, em última instância, o Governo, têm falhado no plano da execução.
Não haveria melhor exemplo do que a Reforma do Modelo de Ação Social no Ensino Superior. Há muito ansiada, foi apresentada publicamente em dezembro de 2025, apresentando uma conceptualização disruptiva, que apostava na progressividade e equidade dos apoios (e bem). Contudo, meses se passaram com o projeto no bolso do governo. Para nossa surpresa, só em final de maio nos foi apresentado uma proposta de um novo «Regulamento de Atribuição de Bolsas a Estudantes do Ensino Superior» estipulando meros dias para contributos. Pensemos um pouco. Em apenas umas semanas é possível a um governante, pragmática e objetivamente, recolher contributos e alterar um projeto estrutural de lei? Para implementar dentro de dois meses? Não.
Bem, inconsciente seria eu se considerasse que este é um problema restrito ao Ministério da Educação. Na verdade, é um problema endémico da nossa sociedade. Preferimos remediar ao invés de prevenir, optando pela desresponsabilização e remediação (mal feita). Senhor Ministro da Educação, como diz o povo português, mais vale prevenir do que remediar.