Procrastinação: quando o “amanhã” começa a prejudicar a saúde
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"Faço amanhã", "Trato amanhã sem falta". São frases que todos podemos dizer de vez em quando, mas quando adiar se torna um padrão, pode começar a afetar o trabalho, as relações e até a saúde. A Dra. Mariana Sobral já aqui está comigo. Bom dia, doutora.
Bom dia.
O que é exatamente a procrastinação?
Procrastinar é adiar voluntariamente uma tarefa, mesmo sabendo que esse adiamento pode trazer consequências. No momento, sentimos algum alívio, mas mais tarde pode surgir culpa, ansiedade, por causa das consequências deste adiamento.
Então, e quando é que a procrastinação deixa de ser apenas um hábito e pode ser sinal de doença?
Devemos preocupar-nos quando é frequente, quando dura no tempo e basicamente quando interfere no nosso funcionamento. Naturalmente que a procrastinação não é um diagnóstico, mas é um sintoma. Pode estar associada à ansiedade, depressão. Claro que também pode surgir quando existe o medo de um resultado, vergonha, dor ou até dificuldade financeira ou uma experiência negativa anterior, por exemplo, no contexto dos cuidados de saúde.
Então, isto quer dizer que pode estar associada à ansiedade ou à depressão?
Sim. Na ansiedade, adiar pode ser uma forma de fugir temporariamente a uma situação que provoca medo ou desconforto. Por exemplo, marcar uma consulta, fazer uma análise ou abrir um resultado. O alívio imediato reforça o adiamento, mas a preocupação tende a aumentar exponencialmente. Na depressão, é mais a falta de energia, perda de interesse e às vezes a pessoa pode mesmo deixar de conseguir cumprir atividades básicas.
E que impacto é que isto pode ter na saúde física?
Pode fazer com que uma pessoa adie exames de rastreio, análises. Também pode interromper a medicação porque não vai renovar as receitas. Naturalmente, adiar um exame não significa necessariamente que alguma coisa grave esteja a acontecer, mas pode atrasar a detecção de um problema e a oportunidade de intervir mais cedo. E claro que não podemos esquecer o impacto social, profissional e familiar, como adiar encontros com amigos, ser incapaz de organizar a casa. Se o comportamento é recorrente, independentemente da origem, pode efetivamente ter um impacto muito profundo na pessoa e nas pessoas que a rodeiam.
E o que pode fazer quem se reconhece nesse padrão?
Em primeiro lugar, o mais importante é ter empatia por si mesmo. Não é preguiça. Pode tentar fazer uma lista de tarefas, seguir a premissa de começar devagar, mas de uma forma consistente. E é útil perguntarmos: estou a adiar porque me esqueci? Porque não sei onde começar? Porque tenho medo? A resposta orienta o tipo de ajuda necessária. As estratégias de organização ajudam, mas não substituem a avaliação quando o problema é persistente.
Então qual é o papel do médico de família, como a Dra. Mariana Sobral?
O médico de família pode ajudar a perceber o padrão, avaliar o impacto, pode perceber que exames e consultas em atraso estão. E quando percebe que é um comportamento padrão e suspeita quer de uma perturbação de ansiedade, quer de uma perturbação depressiva, é importante encaminhar para psicólogo e psiquiatra. O mais importante é que não podemos transformar a procrastinação numa acusação moral. É um sinal de alerta e nós temos que perceber como é que podemos ajudar.
Então, para terminar, qual é a mensagem prática, doutora?
Não espere por amanhã para tratar de algo que já sabe ser importante. Escolha um primeiro passo pequeno, como marcar uma consulta. E se efetivamente adiar é um padrão que está a prejudicar a sua vida, não se culpe. Fale com o médico de família, fale com amigos. Procrastinar pode ser um comportamento, mas também pode ser um sinal de que precisa de apoio.
Portanto, um passinho de cada vez e pedir ajuda quando for preciso. Fica por aqui o "Tratar de Saúde", que regressa amanhã com a dra. Mariana Sobral. Obrigada, doutora. Até amanhã.
Obrigada, Joana.