Procrastinar é adiar e isso causa ansiedade
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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de procrastinação e de ansiedade. Olá, Eduardo. Muita gente confunde procrastinação com preguiça, e não é a mesma coisa.
Olá, Judite, boa tarde. É uma preguiça mais urbana, Judite. Estamos só a falar entre nós, que ninguém nos ouve. É só uma preguiça mais urbana. É guardarmos para depois de amanhã aquilo que podemos fazer amanhã. É uma coisa que algumas pessoas fazem com alguma frequência. Os estudantes fazem isso melhor do que ninguém. Vão adiando, e depois têm aquela expressão que eu acho absolutamente deliciosa: "Eu funciono muito melhor sob pressão", que faz com que as mães fiquem enternecidas, porque se for preciso, antes de um exame, eles fazem uma direta. Mas porque enquanto isso desperdiçaram um dia, dois dias, muitos dias e guardaram tudo pra às últimas. E portanto, guardar pra às últimas é um pouquinho procrastinar. Se me disser assim: "Isso anda de mãos dadas com a ansiedade?" Anda, Judite, uma vez que agora passamos pela época dos exames, os alunos portugueses estão a conviver com outro tipo de ansiedade que tem a ver com as notas, mas antes dos exames, eles ficam com o humor impossível, ficam inflamáveis, reagem tão depressa chorando como a seguir ficando furiosos. E esse registro ansioso muitas vezes vem acompanhado, porque se foi esticando o tempo até não se poder mais. E nessas circunstâncias, este termo mais sofisticado é uma aquisição nova que os adolescentes pegaram com ambas as mãos, talvez porque, com honestidade, sem dúvida, mas apanhando a onda e percebendo que tinha um pouquinho a ver com eles, não deixaram de utilizar e de repetir até à exaustão.
Se a procrastinação nos traz ansiedade, por que adiamos exatamente aquilo que nos traria mais alívio se fizéssemos?
Judite, porque é um estado de espírito.
Ok.
É uma maneira de uma pessoa ir gerindo o tempo sem gerir, basicamente. E é, no fundo, uma forma de ir desafiando também algumas regras, alguns limites que fazem com que se tente fazer uma gestão difícil, que é difícil, Judite. Isto é, quando nós temos muitas vidas a concorrer umas com as outras, e todos nós temos muitas vidas, felizmente. Às vezes tapamos a cabeça e destapamos os pés e vice-versa. E é difícil gerirmos tudo em tempo real. Nota-se mais nos adolescentes, Judite, porque eles estão a aprender a fazer uma coisa muito difícil, que é compatibilizar uma vida pessoal, sobretudo quando eles estão apaixonadíssimos pela vida, com uma vida de trabalho, que muitas vezes tem exigências um pouquinho chatas, que exige sacrifícios, exige ficar fechado em casa a estudar, por exemplo, quando está um sol absolutamente fantástico lá fora. E, portanto, eles aprendem por ensaio e erro. É verdade que há pessoas que passam a vida a exercer um pouquinho teimosamente, um lado um pouco egocêntrico, como quem diz: "As coisas serão quando eu achar que devem ser". E são essas que parecem desafiar tudo, os prazos de pagamento, isto e aquilo, e vão esticando tudo e mais alguma coisa. Mas regra geral, isto faz-se muito quando eles estão em processo de aprendizagem, no seu crescimento. E claro, são um pouquinho preguiçosos, até por isto, Judite. A preguiça, tal como nós fomos vendo, não é uma mancha no caráter. Às vezes é uma forma mais ou menos sofisticada de nós falarmos de uma grande insegurança que se vai instalando. E portanto, quando essa insegurança se instala, evidentemente que a olho nu parece que se vai adiando, parece que é uma preguiça sem fim. O que há é uma insegurança muito grande. E quando é assim, de fato, o que nós observamos? Que a olho nu se vai guardando pra depois de amanhã o que se pode fazer hoje. Mas na prática, quando os nossos filhos, por exemplo, estão seguros daquilo que valem, dos resultados que conseguem ter e tudo mais, eles não adiam. Eles querem ter os resultados o mais depressa possível, com toda a capacidade que depois acabam por revelar em cada um desses momentos. E, portanto, eles só adiam muitas vezes, porque é uma maneira de irem fintando a insegurança e o medo e de irem pedindo mais um minuto ou dois aos tempos que a vida lhes dá para se conseguirem gerir.
De alguma forma, o perfeccionismo ajuda a procrastinação?
Judite, às vezes, por uma razão simples, e essa questão é uma questão preciosa. É uma questão simples, por quê? Porque, em termos práticos, quando uma pessoa é muito exigente nos pormenores e é muito perfeccionista, o que acaba por fazer? Tudo o que não for perfeito é mau Basicamente. Nós vamos observando que se tenta retocar um pormenor, e outro pormenor, e outro pormenor, sempre muitos pormenores, sempre com a ideia de que quando se termina um trabalho tem que estar perfeito. A olho nu, mais uma vez, lá parece que se está a adiar uma entrega, está-se a lutar contra uma exigência de perfeccionismo que às vezes é verdadeiramente irrespirável e que em muitos momentos não permite que as pessoas valham por aquilo que valem e parecem estar sempre a ter sobre elas uma espécie de espada inclemente que não lhes permite ter os erros, as dúvidas e a consciência de que as coisas não são perfeitas, mas ainda assim acabam por ser boas.
Há uma questão aqui que é se eventualmente é um padrão que se pode transmitir aos filhos. Os pais que procrastinam acabam por transmitir esse padrão aos filhos.
Sim, de certo modo, por uma razão simples. Os nossos filhos vão sempre aprendendo com os nossos erros. Muitas vezes são erros que nós achamos que eles nem sequer percebem e eles estão meticulosamente a anotá-los. E sim, aprende-se com tudo. Se os nossos filhos vão vendo que nós passamos a vida a fintar tudo e mais alguma coisa para lidarmos com prazos, tempos e outras coisas do gênero, é natural que eles façam idêntico e que tentem chegar a um padrão que de alguma forma replica aquilo que eles veem. Mas atenção, em muitos momentos acontece o contrário. Quando se têm pais que se vão entregando a este tipo de prazos que esticam, os filhos passam a lidar com isso com uma tão grande animosidade que se tornam as pessoas menos capazes de adiar os tempos, de adiar os prazos e são as mais cumpridoras. Quando se tem estes maus exemplos, das duas uma: ou se replica ou se aprende com os erros e se faz muito melhor.
E que conselho daria a um ouvinte que sabe que está a adiar, sente aquela ansiedade a crescer e mesmo assim não consegue começar?
Porque o Judite já não é desse tempo, mas havia há muitos anos, na RTP a preto e branco, uma série chamada "O Perigo é a Minha Profissão", que era basicamente uma série onde entravam duplas e outras coisas do gênero. Só a vibração de gerar uma situação aparentemente perigosa e o gozo de a vencer, mesmo que ela tenha sido criada de uma forma artificial, faz com que, sobretudo muitos adolescentes, passem a vida neste registo, sempre com a ideia de que no limite acabam por ganhar. Muitos dos nossos filhos fazem isto, Judite. Acabam por ter uma negativa, ou duas, ou três, e depois os pais dizem, eles próprios com sentimento de alguma vitória no olhar, que cheguem ao terceiro período, esgadanham-se de todas as formas e feitios e quando se dá por isso, não tiveram negativa nenhuma. Há miúdos que fazem isto por sistema até ao dia em que corre mal e quando corre mal, tragédia das tragédias, se calhar aprendem da pior maneira. Mas às vezes só o gozo de criar um perigo, de o desafiar e depois de vencer, faz com que se criem este tipo de situações e se repitam até ao dia em que corre mal. Quando corre mal, aprende-se da forma pior, tipo de banho de água fria, mas se calhar já aconteceu com todos nós, claro.
Mas nós não procrastinamos e amanhã estamos cá à mesma hora.
Seguramente.
E com um novo tema. Um abraço, Edmundo Bardo. Obrigada. Até amanhã.
Até amanhã.