Procura de impacto científico pode reduzir a felicidade dos investigadores devido à pressão
O estudo defende que as instituições científicas poderiam complementar os indicadores tradicionais de desempenho com medidas relacionadas com o bem-estar, a autonomia ou o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, incorporando assim uma visão mais abrangente da qualidade dos sistemas de investigação
A pressão associada à obtenção de reconhecimento no seio da comunidade científica pode reduzir, desde o início, a felicidade dos investigadores, e uma das chaves para compreender este efeito reside nas dificuldades em manter um equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal.
Um estudo realizado pelo Ingenio, centro conjunto do CSIC e da Universidade Politécnica de Valência, e pela Universidade de Valência, publicado na revista Research Evaluation, revela que a publicação de artigos científicos com muitas citações e a obtenção de reconhecimento no seio da comunidade académica nem sempre se traduzem numa maior felicidade.
O trabalho analisa de que forma o impacto científico influencia o bem-estar pessoal de mais de 2.400 pessoas do meio académico em Espanha. “O que esperávamos encontrar era que o impacto científico gerasse satisfação pelo reconhecimento obtido, pelo menos até certo ponto. No entanto, os dados mostram que o efeito predominante é que a pressão associada reduz a satisfação desde o início”, explica Joaquín Mª Azagra, investigador do Ingenio e coautor do estudo.
A investigação atual desenvolve-se em ambientes altamente competitivos, nos quais as publicações, as citações ou a visibilidade científica desempenham um papel central na avaliação profissional. Esta situação pode levar os investigadores a dar prioridade a objetivos externos e a métricas de desempenho em detrimento de interesses pessoais ou vocacionais.
O trabalho identifica também alguns elementos capazes de atenuar os efeitos negativos. “Os investigadores que mantêm uma forte motivação para contribuir para a sociedade ou que desenvolvem o seu trabalho de forma mais criativa apresentam níveis de felicidade mais elevados, mesmo em contextos onde existe uma elevada exigência para alcançar impacto científico”, afirma Ana M. Tur, catedrática do Departamento de Psicologia Básica e da Personalidade da Universidade de Valência e coautora do estudo.
Segundo os autores, estes resultados sugerem que associar a investigação a objetivos sociais e promover espaços para a criatividade pode ajudar a preservar a satisfação de quem desenvolve carreiras científicas. “Os sistemas de avaliação deveriam preocupar-se não só com os resultados produzidos pelos investigadores, mas também com as condições em que desenvolvem o seu trabalho”, conclui Azagra.
O estudo defende que as instituições científicas poderiam complementar os indicadores tradicionais de desempenho com medidas relacionadas com o bem-estar, a autonomia ou o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, incorporando assim uma visão mais abrangente da qualidade dos sistemas de investigação.