Cardiopatia: anabolizantes elevam risco de morte súbita - 04/09/2026 - Não Tem Cabimento - Folha

🗓️ 2026-09-04 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

As mortes recentes de Gabriel Ganley, Mailson Araújo e Dwayne Quamina por cardiopatias alertam usuários de anabolizantes para fins estéticos. Essa mudança foi sentida por Clayton Macedo, diretor da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) e coordenador do programa "Saindo do Suco", do Núcleo de Endocrinologia da Disciplina de Medicina Esportiva da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp).

Clayton diz que as mortes fazem repensar o uso dessas substâncias. A maioria busca tratamento por medo de efeitos colaterais ou por incentivo de pessoas próximas. Gratuita e anônima, a iniciativa multiprofissional atende 140 pessoas e tem mais de 200 na fila.

Para Paulo Muzy, médico e fisiculturista, esse tipo de projeto não deve reforçar preconceitos nem falar só entre pares, sob risco de ineficácia. O acolhimento profissional é essencial.

"A pessoa usa o esteroide na esperança de se conectar consigo, mas, sob o transtorno dismórfico, essa ideia de si é uma fantasia", diz, já que a distorção da autoimagem é uma possibilidade na busca por um físico irreal associada a predisposições. "Além de o consumo de anabolizantes piorar a saúde de forma evidente, os medicamentos sozinhos não produzem resultado", explica.

Os anabolizantes, que são derivados naturais ou sintéticos da testosterona, aumentam proteínas e massa muscular, e têm efeito androgênico, explica Carlos Minanni, endocrinologista do Hospital Albert Einstein.

Testosterona, oxandrolona, estanozolol, boldenona e trembolona estão entre os mais conhecidos. Parte não é aprovada para uso humano e é obtida clandestinamente; a Anvisa lista anabolizantes sob controle especial na C5.

Essas drogas elevam hematócritos, tornam o sangue viscoso e aumentam pressão e risco de trombos. Há risco de cardiomiopatia, em que o músculo cardíaco adoece, deforma-se e passa a exigir maior esforço mecânico para bombear o sangue, podendo causar morte súbita mesmo em jovens sem histórico de doenças. Fígado e rins também podem ser afetados.

De acordo com Bruno Leandro de Souza, médico do Conselho Federal de Medicina, há ainda risco de depressão e surto psicótico em pessoas predispostas. Irritabilidade, insônia, impulsividade e ansiedade podem ser potencializados em quem já lida com esses quadros.

O medo de mudanças na aparência dificulta o desmame. As substâncias podem inibir a testosterona natural em homens, cuja recuperação exige acompanhamento multidisciplinar.

Homens podem ter atrofia testicular, infertilidade e crescimento das mamas. Entre 13 mil homens tratados por Muzy desde 2005, apenas 2 voltaram a produzir testosterona nativa, diz. Em mulheres, a virilização pode ser irreversível, com voz mais grossa, acne e hipertrofia do clitóris.

"Não existe dose segura", diz Clayton. A Resolução CFM n.º 2.333/2023 proíbe a prescrição de esteroides, hormônios androgênicos, SARMs e a a gestrinona (o "chip da beleza") para fins de desempenho ou estética. Ciclos, alternância ou adição de produtos também não protegem órgãos e agravam danos cardiovasculares, hepáticos e renais, explica.

Com base em falsas orientações, há também quem pense que o uso de substâncias concomitante a uma rotina regular de exames médicos previna complicações de saúde. "Não é verdade", alerta o médico Bruno Leandro de Souza.

Em casos específicos e num contexto com cuidados aliados, o tratamento com hormônios como a testosterona pode, sim, ser indicado. "Mas dificilmente um hormônio resolve sozinho uma questão de saúde", finaliza.

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