Proibido tomar banho ou fazer exercício durante a menstruação? Mitos que ainda circulam originam "sofrimento desnecessário" - 24 Notícias
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Apesar dos avanços na educação para a saúde, a menstruação continua a ser rodeada por crenças transmitidas ao longo de gerações. Muitas mulheres ainda ouvem que não devem tomar banho, lavar o cabelo, nadar ou até cozinhar durante o período menstrual. No entanto, a ciência desmente estas ideias.
A ginecologista e obstetra Irina Ramilo, do Hospital Lusíadas Lisboa e responsável pela página de Instagram "A ginecologista da melhor amiga", garante que não existe qualquer fundamento para muitas destas recomendações.
Um dos mitos mais antigos diz respeito à higiene durante a menstruação. Segundo a especialista, "não existe qualquer risco real" em tomar banho ou lavar o cabelo durante o período menstrual.
"Este mito terá provavelmente origem numa época em que os banhos eram tomados em água fria, ou em fontes e rios comunitários, e a queda brusca da temperatura podia causar desconforto ou agravar as cólicas, não por causa da menstruação em si, mas devido à exposição à água fria", explica ao 24notícias.
Atualmente, acrescenta, "com água morna ou quente, não existe qualquer perigo. Pelo contrário, a higiene é recomendada, pois ajuda a reduzir o odor e o desconforto".
Outro dos mitos mais conhecidos diz respeito à preparação de alimentos. A médica é perentória ao afirmar que "não existe qualquer base científica que relacione a menstruação com alterações na capacidade de manipular alimentos, fermentar massas ou preparar maionese".
Na sua perspetiva, estas ideias nasceram da antiga crença de que a menstruação poderia "contaminar" ou "estragar" os processos culinários. "Trata-se de uma crença cultural, sem fundamento fisiológico ou científico", salienta.
Tabus antigos continuam a alimentar a desinformação
Para Irina Ramilo, muitas destas falsas crenças têm raízes históricas. "Os mitos sobre a menstruação têm origem em tabus religiosos e sociais que associavam o sangue menstrual à impureza, bem como no desconhecimento científico existente numa época em que o ciclo menstrual ainda não era compreendido", afirma.
A médica explica que estas ideias foram sendo transmitidas entre gerações, através das famílias e das comunidades, sem serem questionadas. "Quando o tema não é discutido de forma aberta, os mitos tendem a persistir".
Na sua opinião, a permanência destas crenças resulta de "uma combinação de falta de literacia em saúde menstrual, estigma e desinformação, fatores que ainda hoje estão presentes em muitas culturas".
Exercício físico pode ajudar a aliviar as dores
Também a ideia de que as mulheres devem evitar o exercício físico durante a menstruação não corresponde à evidência científica. "O exercício físico é recomendado durante a menstruação", afirma a ginecologista.
Segundo explica, "a evidência científica mostra que a atividade física promove a libertação de endorfinas, que ajudam a reduzir a dor, melhora a circulação, contribuindo para aliviar as cólicas, regula o humor e pode diminuir a irritabilidade e a fadiga".
A médica destaca ainda que atividades como caminhar, fazer alongamentos, praticar ioga ou realizar treino de intensidade ligeira a moderada são particularmente benéficas durante este período.
Banho e natação não aumentam o risco de infeções
Outro receio frequente é o de que tomar banho ou nadar durante a menstruação possa aumentar o risco de infeções.
"Tomar banho, nadar ou estar em contacto com a água não aumenta o risco de infeções", esclarece Irina Ramilo, já que "o canal vaginal não 'abre' durante a menstruação, nem existe maior vulnerabilidade à entrada de microrganismos externos".
Ainda assim, lembra que é importante manter uma higiene adequada e trocar o absorvente, tampão ou copo menstrual após a atividade, sempre que necessário.
Consequências vão além da saúde física
A ginecologista alerta que estas crenças podem ter impactos importantes na vida das mulheres. "Os impactos podem ser reais e significativos, tanto na saúde física como na saúde mental e emocional", afirma.
Entre as consequências físicas, destaca o facto de algumas mulheres evitarem tomar banho, aumentando o desconforto e o risco de irritações cutâneas, ou deixarem de praticar exercício, o que pode agravar as dores menstruais, piorar o humor e reduzir o bem-estar. A tendência para evitar atividades sociais pode ainda favorecer o sedentarismo e o isolamento.
No plano psicológico, a especialista aponta para sentimentos de vergonha, sensação de impureza, ansiedade, diminuição da autoestima e maior dificuldade em falar sobre sintomas menstruais. Estes fatores podem ainda criar barreiras no acesso aos cuidados de saúde devido ao medo, vergonha ou constrangimento.
"A literatura científica demonstra que substituir a evidência por mitos gera confusão, perpetua hábitos prejudiciais e pode contribuir para sofrimento desnecessário", sublinha.
Educação é essencial para quebrar o estigma
Para combater a desinformação, Irina Ramilo considera que famílias, escolas e profissionais de saúde têm um papel determinante.
Sobre os pais, defende que devem "falar abertamente sobre a menstruação desde cedo, normalizando o tema sem vergonha nem dramatização". E acrescenta: "É importante transmitir que a menstruação faz parte do funcionamento saudável do corpo e não representa qualquer impureza".
Relativamente às escolas, considera importante integrar a educação menstrual baseada na evidência científica nos currículos, garantir o acesso a produtos menstruais e a instalações sanitárias adequadas e promover ambientes onde as dúvidas possam ser colocadas sem receio.
Já os profissionais de saúde devem, nas palavras da especialista, "desmistificar crenças durante as consultas, utilizando uma linguagem clara, empática e não moralizante". Além disso, devem validar os sintomas das utentes, explicar o que é considerado normal, identificar as situações que justificam avaliação médica e produzir materiais educativos acessíveis, claros e culturalmente sensíveis.
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