MedDança na FMUSP alivia estresse de alunos de medicina - 17/10/2026 - Equilíbrio e Saúde - Folha
"A pessoa não vai aguentar ser médica se não encontrar outra coisa que não seja a medicina. A vida será muito rasa. Não somos robôs", diz Beatriz Thiemi Mazzer Okuyama, 22, aluna do terceiro ano da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).
A estudante descobriu dentro do campus um respiro para amenizar a tensão das provas e dos desafios impostos pela graduação: o MedDança.
O projeto acadêmico nasceu em 2014, a partir de iniciativa dos próprios alunos, para ser um momento de aliviar o estresse. No ano seguinte, tornou-se extensão oficial da faculdade e, atualmente, também é uma atividade extracurricular complementar que permite acumular créditos válidos para a conclusão da graduação.
A Folha assistiu à décima edição da GA (Grande Apresentação), espetáculo anual dos alunos do MedDança. O evento para convidados aconteceu no teatro da FMUSP, na quarta-feira (14), quatro dias antes do Dia do Médico, celebrado neste domingo (18).
O grupo dançou 21 coreografias —as de abertura e de encerramento foram elaboradas por profissionais de dança; as demais ficaram a cargo dos alunos. No palco, surgiram vários estilos. Uma das apresentações, por exemplo, mesclou hip hop e balé clássico.
Do MedDança podem participar estudantes de qualquer curso da FMUSP e do pré-vestibular popular MedEnsina. As aulas —às terças e quintas, do meio-dia às 14h, no mesmo teatro— são ministradas pelos próprios alunos e, eventualmente, por professores convidados.
Há aulas de balé clássico, contemporâneo, jazz, hip-hop, street dance, funk, forró, samba, zumba e outros ritmos. A coordenação e as decisões são de responsabilidade dos alunos.
Nesse universo é proibido sofrer com pressões: não é necessário ser bailarino para integrar o grupo. Cabem corpos altos, baixos, magros e gordos.
Para Beatriz, a dança cumpre um papel importante no equilíbrio emocional diante das pressões da faculdade. A estudante diz que, além das aulas, a rotina é preenchida com pesquisas científicas, ligas acadêmicas para aprender a prática do atendimento ao paciente, além de outras atividades de extensão, como o departamento científico ou o centro acadêmico.
"Dentro da faculdade, entendi o que é cursar medicina na USP. O sentimento que a gente tem é que há pessoas tão boas [na medicina] que acabamos não tendo destaque. Temos muito a fazer até a formação completa do médico e todos fazem tudo muito bem. Refleti sobre o que me torna diferente. Em que eu sou boa e gosto de fazer? Daí entrei na dança", comenta Beatriz.
A responsável pelo projeto, professora Ana Cláudia Camargo Gonçalves Germani, do Departamento de Medicina Preventiva, ressalta que além de servir como válvula de escape, a união da dança com a medicina ensina muito sobre humanização.
"Em tempos de tanta tecnologia computacional, eu acho que a arte humaniza. A medicina é a humanidade em prática. É uma profissão que trata de corpos, e a dança é uma linguagem de corpos", diz Germani. "O benefício do MedDança não é só o refúgio, mas também o profissionalismo médico. Permite que eles sejam mais humanos nas suas relações com pacientes e com os colegas de trabalho."
Ao lado de Beatriz, Tuca Neves Maia, 21, do quarto ano de medicina, integra a diretoria do MedDança. Estudante da USP desde 2023, época em que trocou Recife por São Paulo, Tuca não havia tido contato com a arte até então.
Para Tuca, a dança conecta a sensibilidade artística à prática médica. "Propor um cuidado em conjunto exige aceitar que você não sabe tudo e que o melhor para o paciente envolve questões psicossociais, redes de apoio e valores de vida, e não apenas fatores biológicos. Existe um paralelo entre o palco e o público e os conceitos de transferência e contratransferência da relação médico-paciente. O MedDança me desenvolve em duas esferas que parecem diferentes, mas que no fundo tratam da mesma coisa: relações e humanidade", afirma.
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