Putin não precisa de conquistar a Europa. Basta tomá-la por dentro

🗓️ 2026-09-03 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

O drone de Leipzig e a reação alemã revelam a natureza da guerra híbrida russa: não a repetição da Guerra Fria, mas algo novo, cujo alvo final não são as nossas fronteiras, são as nossas democracias.

Um drone com explosivos, largado junto a um avião num aeroporto alemão, fez mais pela lucidez estratégica da Europa do que anos de relatórios. Mas para perceber o que Leipzig significa, convém primeiro arrumar os conceitos, gastos de tanto uso vago. A Guerra Fria não foi uma tensão qualquer entre potências. Assentava em três pilares: dois pólos de dimensão incomparável, cada um com o seu bloco; duas ideologias messiânicas a disputar o mundo inteiro; e um tabu absoluto sobre o confronto directo, imposto pela ameaça nuclear. Foi, apesar do terror, um sistema estável. Chamaram-lhe a longa paz.

A guerra híbrida é o contrário disso. É a busca de fins estratégicos pela combinação de meios militares e civis, na zona cinzenta entre a paz e a guerra, sob negação plausível, para corroer a vontade do adversário sem cruzar o limiar que legitimaria uma resposta armada. O que a distingue não são os instrumentos, pois a subversão é antiga. É a sua integração sistemática, potenciada pelo ciberespaço, e um alvo que já não é o território, mas a mente: a confiança nas instituições, a coesão social, a vontade de resistir.

Por isso é errado chamar Guerra Fria ao confronto com a Rússia de hoje. Falta-lhe a bipolaridade: Moscovo não é um pólo simétrico, é uma potência em declínio, com uma economia do tamanho da italiana e uma dependência quase vassala face à China. E falta-lhe a ideologia universal: Putin não oferece ao mundo um modelo de sociedade, apenas o desejo de reaver um império. Chamar-lhe Guerra Fria concede-lhe a paridade que procura e não tem.

Há uma segunda razão, quase inversa, para recusar o rótulo: isto é, em certos aspectos, mais perigoso. A Guerra Fria era estável porque tinha regras, linhas vermelhas e uma dissuasão respeitada como liturgia. A guerra híbrida vive de dissolver essas regras. Era um equilíbrio de terror com regras; é um desequilíbrio de audácia sem regras. E o que dela se espera não é o regresso à tensão estável do passado, mas uma zona cinzenta em erosão contínua, onde a falta de limiares multiplica o risco de escalar sem querer.

É a esta luz que se lê Leipzig, onde um drone com explosivos surgiu junto a um avião de carga ucraniano, e que a Alemanha atribuiu formalmente aos serviços russos. Não é um caso isolado. É mais um ponto numa curva já inegável, a de uma hostilidade estrutural, permanente e assumida entre a Rússia e o espaço euro-atlântico. Somem-se-lhe os drones sobre a Polónia e a Roménia, a atribuição formal da NATO, os cerca de 144 aparelhos de vigilância que o IISS documentou, os cabos cortados no Báltico, os assassínios e as sabotagens, os incêndios em armazéns, a interferência eleitoral. É uma campanha, não uma série de acidentes. E a resposta, o fecho do consulado de Bona, as expulsões, as sanções, os controlos de fronteira, mostra uma Europa que deixou de minimizar para atribuir e retaliar. Entrámos numa fase nova. E mais perigosa.

Há aqui um detalhe decisivo. A guerra híbrida vive de ficar abaixo do limiar; é esse o seu segredo. Um drone explosivo junto a um avião num aeroporto civil europeu está perto demais desse limiar para preservar a negação. Pode ter sido um novo erro de cálculo de Putin, do mesmo género do de 2022, quando julgou que Kyiv cairia em dias e o governo se renderia. Não caiu, e a Rússia atola-se desde então num pântano que paga a sangue e a dinheiro. Os dois erros partilham a raiz: a certeza de que o adversário é fraco por natureza.

É o que Moscovo pensa da Europa. Que é frouxa, que os seus líderes são frouxos, e que a subversão é uma arte em que Moscovo se julga insuperável e o Ocidente amador. É uma vaidade antiga, e das mais caras. Porque a intimidação tinha um alvo preciso, dobrar a Europa e afastá-la da Ucrânia, e conseguiu o inverso. Ao passar o limiar em Leipzig, a Rússia não amedrontou a Europa; acordou-a. Berlim voltou a discutir o envio de mísseis a Kyiv. A ameaça reforçou a mão que a queria fazer largar. Quem se julga senhor do medo alheio arrisca-se a descobrir que só sabia geri-lo enquanto o outro consentia em ter medo.

E o mais revelador foi quem reagiu. A Alemanha é, por história, o país mais contido perante Moscovo, e não só por cultura: por sobrevivência política. A AfD lidera as sondagens. Os próprios serviços alemães classificam-na como extremista e correia da propaganda russa. E pode, a 6 de Setembro, governar um estado pela primeira vez, prometendo cortar o apoio aos refugiados ucranianos e reatar laços com Moscovo. Um governo que responde com firmeza a uma provocação russa tendo em casa um partido pró-russo à frente nas sondagens já não faz política externa: defende-se de uma ameaça de fora e de dentro ao mesmo tempo.

Não é só a Alemanha. Em França, o Rassemblement National de Le Pen é a principal oposição. Em Itália, o caso mais eloquente, Giorgia Meloni, das direitas europeias uma das mais atlantistas, está cercada dentro do próprio campo. O general reformado Roberto Vannacci, ex-comandante de forças especiais e, note-se, antigo adido militar em Moscovo, fundou há meses o Futuro Nazionale, já segunda força da direita, anti-NATO e russófilo ao ponto de admitir aceitar dinheiro de Moscovo. Não combate Meloni de fora: rói-a por dentro, onde o apoio à Ucrânia a expõe. O Conselho Europeu de Relações Externas chamou-lhe, sem rodeios, um cavalo de Tróia russo.

Chegamos ao essencial, e formulo-o como pergunta: para quê destruir a União Europeia, se se pode tomar conta dela? O objectivo de Putin nunca foi conquistar a Europa pelas armas, que não pode nem quer. É subvertê-la até a tomar por dentro, fortalecendo em cada capital os partidos que lhe são favoráveis. Com governos ou forças de bloqueio simpáticos em Berlim, Paris, Roma ou Londres, dispensa tanques: tem a Europa a paralisar-se sozinha, a recusar armas a Kyiv, a reabrir o gás russo, a vetar sanções, a esvaziar a NATO por dentro.

É a chave que une o que parece disperso: a eleição anulada na Roménia por interferência russa, a operação na Moldávia, a Geórgia a deslizar para a órbita de Moscovo e, no coração da União, o cultivo paciente da AfD, de Vannacci, da russofilia que atravessa direitas e esquerdas. Os drones, os cabos, os incêndios são a face ruidosa. A face profunda, e mais perigosa, é política: manter os regimes democráticos sob coacção e alimentar uma quinta coluna que já não é de espiões, mas de partidos e de votos.

Por isso Leipzig importa muito para além do drone. Marca o instante em que a Europa começa a perceber que defender as fronteiras e defender as democracias é a mesma defesa, e que quem lança um drone num aeroporto é quem financia o partido que promete sair da NATO. Não estamos na antecâmara de uma nova Guerra Fria, comparação que nos tranquiliza com um modelo conhecido e ultrapassado. Estamos dentro de uma guerra híbrida cujo teatro decisivo não é o flanco leste, são as nossas urnas, os nossos parlamentos, a nossa opinião pública. E só a perderemos se insistirmos em tratá-la como assunto de polícia e de fronteiras, quando é um combate pela alma política da Europa. A Itália é o laboratório onde se ensaia o que chegará aos outros. E a factura chega primeiro, e mais pesada, a quem se julgava à margem do perigo. Portugal, que gosta de se pensar a salvo, é apenas o que ainda não abriu o sobrescrito.