Qual o tamanho da abstenção? - 11/10/2026 - Voto a Voto - Folha
Um em cada cinco eleitores não foi votar no primeiro turno de 2026. Foram 32,9 milhões de ausências, o mesmo patamar de 2022. O número costuma ser lido como termômetro do desinteresse pelo voto. Mas parte dessa conta não é feita apenas de eleitores que deviam votar e ficaram em casa.
Para separar uma coisa da outra, usamos dados eleitorais do TSE/CepespData para dividir a abstenção em camadas. Como o TSE ainda não divulgou quem faltou em 2026 por idade, analisamos os grupos com os dados de 2022.
A primeira camada é a de quem não é obrigado a votar: jovens de 16 e 17 anos, analfabetos e pessoas com 70 anos ou mais. Em 2022, eles eram 13% do eleitorado e responderam por 32% das abstenções. Só os de 70 anos ou mais somaram 27%. E, com o tempo, o cadastro envelhece: os maiores de 70 passaram de 9,5% dos inscritos em 2022 para 10,9% em 2026. Mesmo sem ninguém mudar de comportamento, a abstenção tende a subir.
A segunda camada é mais delicada: o cadastro contém nomes de eleitores que já morreram. O título de quem falta a três turnos seguidos é cancelado, mas a regra não vale para quem tem voto facultativo. Um idoso que morreu só sai do cadastro se o cartório comunicar o óbito; quando a comunicação não chega, o nome fica.
Em 2026, havia 298 mil inscritos com 100 anos ou mais, enquanto o Censo de 2022 contou 38 mil centenários no país. Com 90 anos ou mais, eram 1,3 milhão de nomes no cadastro para 814 mil moradores estimados pelo IBGE: ao menos 528 mil nomes a mais. Eles não votam (em 2022, 99% dos inscritos com 100 anos ou mais faltaram) e só ampliam a abstenção.
Descontadas essas camadas, a abstenção entre os eleitores obrigados a votar foi de 16,3% em 2022: um em cada seis, não um em cada cinco. A abstenção estável entre 2022 e 2026 também tem explicação administrativa: em 2025, a Justiça Eleitoral cancelou cerca de 5 milhões de títulos de quem faltou a três turnos. Se esses eleitores continuassem inscritos e voltassem a faltar, a abstenção de 2026 teria passado de 23%.
Isso não quer dizer que o problema não exista. Entre os eleitores obrigados a votar em 2022, a abstenção foi de 10% entre quem tem diploma universitário e de 19% entre quem não terminou o ensino fundamental. E, comparando municípios do mesmo estado, a ausência é maior onde há mais pretos e pardos. A abstenção que importa é menor do que a manchete, mas ainda assim é desigual.
Algumas ações da Justiça Eleitoral ajudariam a medir melhor a taxa de abstenção: garantir a comunicação de óbitos em todos os estados, cruzar o cadastro com as bases federais de mortalidade, revisar os inscritos de 90 anos ou mais e divulgar separadamente a abstenção de obrigados e facultativos. Assim, saberíamos com mais precisão quantos eleitores de fato deixam de votar por desinteresse e onde a participação realmente falha.
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