"Quase me afoguei em Portugal. Isso influenciou a saída dos Fischer-Z"
A banda rock britânica Fischer-Z vai subir ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 4 de setembro, seguindo depois para a Casa da Música, no Porto, no dia seguinte.
Este é, na verdade, um regresso a Portugal deste grupo, autores de êxitos como "The Worker", "So Long", "Marliese" e "Room Service". Os Fischer-Z atuaram pela primeira vez no país em 1980, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e no Pavilhão do Académico, no Porto, e estes concertos foram tema para recordar numa conversa entre o Notícias ao Minuto e o vocalista, John Watts.
Durante a entrevista, John Watts falou ainda sobre a evolução da indústria musical, e da banda, tendo também partilhado uma história que podia ter ficado marcada como uma tragédia. O cantor, lembra, esteve "prestes a afogar-se no mar em Portugal e teve de ser resgatado".
Houve ainda espaço para falar de política, tema pelo qual tem "um grande interesse", e também sobre atuais questões de saúde mental - até porque, e como o próprio referiu, John Watts é psicólogo clínico de formação.
A primeira vez que os Fischer-Z atuaram em Portugal foi em novembro de 1980, no Coliseu dos Recreios. Que memórias guarda desse concerto?
Sinceramente, não me lembro desse concerto em particular. Estávamos no meio de uma digressão extremamente exigente, que incluía 30 espetáculos na América, imediatamente antes ou depois dessa data. Nessa primeira visita, o país causou-me uma impressão muito forte. Lembro-me de pensar que Portugal era tão diferente do norte da Europa. Parecia-me muito exótico.
Naquela altura, ainda não existiam todas aquelas cidades cheias de cadeias de lojas como havia no meu país. Uma das minhas canções favoritas do álbum "Red Skies of Paradise", "Luton to Lisbon", foi inspirada na nossa primeira viagem!
E qual a impressão com que ficou dos portugueses?
O povo português foi muito caloroso e acolhedor, e estava marcado pelos recentes acontecimentos políticos da época. Inicialmente, receava que, como grande parte das minhas composições se baseia em letras em inglês, o público português tivesse dificuldade em identificar-se connosco. Foi exatamente o contrário. A receção e a compreensão foram, sem dúvida, das melhores da Europa!
Depois de tantos palcos nestes 50 anos de carreira, ainda existe alguma ansiedade antes de cada concerto? E há algum ritual antes dos espetáculos?
Fico muito entusiasmado antes de subir ao palco. A minha única preocupação é não ter a voz em boas condições. Faço exercício físico para aquecer o corpo. Certifico-me sempre de ver muito bem o local antes de o público entrar, para ter uma ideia do que vão ver. Como sempre uma refeição nutritiva e descontraída três horas antes do concerto - isto dá-me energia e é uma parte importante do meu ritual. Gosto de aquecer com a minha guitarra numa zona dos bastidores onde haja eco. Normalmente acaba por ser uma casa de banho.
Em 1981, quase me afoguei no mar em Portugal e tive de ser resgatado. Isso quase acabou em tragédia! O incidente influenciou diretamente a minha decisão de deixar os Fischer-Z em 1981
Acredito que histórias não faltam nestes anos de carreira, entre concertos e lançamentos de álbuns. Mas há alguma que venha logo à memória e que continue a recordar? Ou algum momento que tenham vivido em Portugal e que vos tenha marcado?
Em 1981, quase me afoguei no mar em Portugal e tive de ser resgatado. Houve um enorme contraste entre os grandes espetáculos de sucesso e este incidente tão traumático.
Fui sempre tratado com uma hospitalidade extraordinária pelos representantes da editora discográfica, de quem me tornei amigo. Isso incluiu maravilhosas refeições partilhadas, a prática de desporto e ensinaram-me muito sobre Portugal de 1980.
Infelizmente, devido à minha veia desportiva, eles sobrestimaram a minha capacidade como nadador. Isso quase acabou em tragédia! O incidente influenciou diretamente a minha decisão de deixar os Fischer-Z em 1981.
Este regresso ao Coliseu dos Recreios, no dia 4 de setembro, coincide com a edição do novo álbum, que será lançado nesse mesmo dia. Encontra aqui algum simbolismo nesta coincidência - entre passado e futuro?
Este ano, em que se assinalam os 50 anos do primeiro concerto dos Fischer-Z, tenho encontrado muito simbolismo que liga o passado, o presente e o futuro. Na primeira vez que viemos a Portugal, tudo acontecia tão depressa e estávamos tão ocupados que não tive tempo para apreciar o país como deveria. É um grande privilégio, para mim, ter passado 50 anos da minha vida a compor canções e a tocar música. Regressar a locais que foram importantes na fase inicial da minha carreira é extremamente comovente.
Estar de volta a Portugal, a um palco tão especial, vai ser um verdadeiro prazer e vai trazer-me grandes memórias. Não sou uma pessoa nostálgica, sou mais de seguir em frente. As memórias são apenas os tijolos que constroem um muro de recordações acumuladas ao longo de mais de 50 anos e que, espero, continue a crescer durante os próximos 10 anos.
O único problema da indústria musical é que os artistas já muito ricos ficam com todo o dinheiro que deveria servir para desenvolver novos talentos. Além disso, a indústria dos espetáculos está a ser engolida pelo monopólio dos gigantes do entretenimento
Que Fischer-Z vamos poder encontrar neste novo espetáculo quando comparado com o dia em que atuaram no mesmo palco há 46 anos?
Bem, serão uns Fischer-Z muito mais modernos, mas que se sentem igualmente felizes por interpretarem qualquer uma das canções do nosso catálogo de 26 álbuns, com a mesma paixão com que interpretam os êxitos dos anos 80. Como vocalista, hoje falo mais do que costumava falar, mas o público português atual compreende muito melhor o inglês do que os fãs nos anos 80. Também esperamos incluir pedidos de canções mais específicas feitos pelo público.
As canções não envelhecem, mas muitas vezes damos-lhes uma nova 'roupagem' e uma nova vida. Um concerto dos Fischer-Z é muito mais do que um espetáculo de rock 'n' roll.
A indústria da música mudou muito desde os anos 70, quando nasceram os Fischer-Z. Aliás, o John viveu a era do vinil, da cassete, do CD e agora do streaming. Qual a retrospetiva e reflexão que faz destas décadas na indústria? (E que temas o possam deixar mais inquieto nos dias de hoje? Qual a melhor parte desta evolução que decorreu ao longo de todos estes anos na música?)
Atualmente, há mais música disponível gratuitamente para muito mais pessoas, e isso é fantástico! A razão para fazer música, tal como acontece com toda a arte, é expressar de forma única a visão que o artista tem do mundo, esperando que essa visão possa ser apreciada pelo maior número possível de pessoas.
O único problema da indústria musical é que os artistas já muito ricos ficam com todo o dinheiro que deveria servir para desenvolver novos talentos. Além disso, a indústria dos espetáculos está a ser engolida pelo monopólio dos gigantes do entretenimento, a Live Nation, que procuram controlar o entretenimento mundial, inflacionar artificialmente os preços dos bilhetes e exercer um nível de controlo semelhante ao que os magnatas tecnológicos têm vindo a impor na política moderna.
A forma como a música é consumida nos dias de hoje é diferente. Na sua opinião, o álbum vai continuar a fazer sentido sobretudo nesta nova era dominada pelos singles e playlists?
O formato álbum será sempre precioso para as gerações que cresceram com o vinil, cassetes e, posteriormente, CDs, porque todos eles valorizavam o álbum como uma obra completa. Continua a ser relevante para certos artistas, mas hoje em dia a música é consumida principalmente faixa a faixa.
Continuo interessado na ordem em que as canções são apresentadas nos meus álbuns. Temos um público muito diversificado, tanto em idade como em gostos musicais. Hoje é necessário pensar tanto na forma como cada música funciona isoladamente como na experiência de ouvir o álbum como um todo.
Vivemos num mundo em que os factos e a verdade foram desvalorizados por quem exerce o poder político, enquanto todo o processo democrático enfrenta ameaças vindas dos gigantes tecnológicos e da inteligência artificial
Sobre o novo álbum dos Fischer-Z, "X-Ray Serenade", vai juntar temas inéditos com versões reinventadas de clássicos da banda. O que podemos esperar deste disco? O que o levou a juntar o passado e o presente? É uma espécie de retrospetiva destes 50 anos?
É exatamente isso. Uma representação de toda a carreira e uma forma de mostrar que os Fischer-Z se reinventam constantemente. Retrospetiva é uma palavra muito adequada para descrever, porque tem conotações do mundo da arte, e os Fischer-Z sempre se sentiram tão próximos do mundo da arte como do mundo da música.
As sete faixas originais são, na sua maioria, interpretadas por mim, com alguma contribuição de outros músicos. As versões reinventadas representam o som atual da banda. Tocamos tanto as canções antigas como as novas da forma que mais nos emociona e entusiasma, a nós e ao público. O single "X-Ray Serenade", que não faz parte do álbum, mas foi lançado durante o verão, revela um lado completamente diferente dos Fischer-Z, com uma abordagem ao spoken word e à expressão surrealista. Estou muito orgulhoso de todo este trabalho.
E quando se reinventa uma canção é como se estivesse a dar-lhe um novo significado ou prende-se mais à atualidade e a uma nova abordagem musical?
Reinventar uma canção dá-lhe uma nova relevância e permite-nos interpretá-la com muito mais paixão. Não me sinto obrigado a tocar canções clássicas tal como aparecem no disco. Não faria sentido. O espírito original deve ser mantido, assim como os riffs e os refrões principais, mas, para além disso, tudo é possível!
O mais importante é que uma banda seja boa ao vivo e consiga estabelecer uma verdadeira ligação com o público. A justaposição de canções novas e clássicos reinventados no mesmo álbum parece ser a forma mais adequada para celebrar o nosso 50.º aniversário.
Sou psicólogo clínico de formação e acredito que existe quase uma moda à volta da doença mental. As pessoas parecem querer ser diagnosticadas com PHDA para deixarem de assumir responsabilidade pelos seus comportamentos
Em março, os Fischer-Z lançaram a canção "Strings", que parece ser uma reflexão, e a descrição da canção no YouTube refere que vivemos numa era em que "os factos e a verdade já não estão na moda, especialmente na arena política". Qual é a opinião pessoal de John Watts sobre esta questão?
Quem acompanha os Fischer-Z está, obviamente, a par do meu grande interesse pela política. O single "Strings" aborda as questões atuais da causa, do efeito e das consequências. Vivemos num mundo em que os factos e a verdade foram desvalorizados por quem exerce o poder político, enquanto todo o processo democrático enfrenta ameaças vindas dos gigantes tecnológicos e da inteligência artificial. Até a própria linguagem foi distorcida em nome do oportunismo político.
De um modo geral, acredito na ideia de uma política pendular, ou seja, que os valores e as práticas políticas poderão voltar a evoluir numa direção mais positiva. Neste momento, porém, não consigo perceber como é que isso vai acontecer. Apesar de toda a loucura do mundo atual, continuo a achar a política - e o comportamento humano em geral - absolutamente fascinantes.
Ao revisitar canções antigas, visitamos também as décadas passadas, que estiveram muitas vezes associadas ao consumo de drogas e a uma cultura de excessos no meio artístico. Hoje, talvez, fala-se cada vez mais de saúde mental, bem-estar e equilíbrio. Sente essa mudança na indústria musical? E de que forma é que isso influenciou a criação artística e a forma como a música é vivida e consumida?
Um dos maiores problemas do mundo ocidental em 2026 é que muitas pessoas deixaram de assumir responsabilidade por si próprias e pelas suas famílias. Em vez disso, procuram justificações para as suas vidas e para os seus comportamentos, culpando o Estado ou os políticos e acreditando que precisam constantemente de ajuda.
Sou psicólogo clínico de formação e acredito que existe quase uma moda à volta da doença mental. As pessoas parecem querer ser diagnosticadas com PHDA para deixarem de assumir responsabilidade pelos seus comportamentos. Os pais culpam as escolas pelo mau comportamento dos filhos, quando muitas vezes são eles próprios que não estão a cumprir o seu papel.
Os cuidados de saúde mental deveriam ser reservados para quem realmente necessita deles. O foco deveria estar mais na ação do que na análise. Tornou-se muito comum artistas, músicos, desportistas e outras figuras públicas assumirem publicamente que precisam de ajuda em termos de saúde mental, para que os seus fãs se sintam mais confortáveis. Eu não acredito num Estado paternalista.
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