Quatro empresas portuguesas assinam acordos com Arábia Saudita. IA do Porto e clínica estética vão entrar em Riade
Há mais quatro empresas portuguesas, das áreas de tecnologia e saúde, que estão a expandir o negócio no maior país do Médio Oriente, apesar de uma guerra na região que se arrasta há praticamente seis meses. Perante um contexto de business as usual nas principais economias do Golfo Pérsico, as tecnológicas DigestAId, Ciberbit e ITGest e a clínica de medicina estética NB Clinic preparam-se para assinar acordos com investidores sauditas para terem representação comercial, arrancarem operações em Riade ou procurarem financiamento.
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EscolherA parceria para expandir laços entre Portugal e a Arábia Saudita surge no âmbito da terceira visita oficial da comitiva de empresas privadas sauditas a Lisboa, que antecede a visita do ministro da Saúde Fahad Al-Jalajel. Aliás, a inovação na saúde é o que une este grupo de empresas do Porto, Matosinhos, Vila Nova de Gaia e Lisboa, embora todas tenham objetivos (e produtos ou serviços) diferentes.
“A maioria dos memorandos de entendimento será assinada por entidades, instituições ou empresas portuguesas que pretendam expandir-se para a Arábia Saudita. A ideia é que estes empresários, com os quais assinarão [os acordos], queiram ser seus representantes no país, porque as empresas portuguesas têm o know-how, o conhecimento, mas precisam das pessoas certas para lhes abrir o mercado na Arábia Saudita”, revelou ao ECO o presidente do Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal, Alwalid Albaltan.
É na próxima segunda-feira, dia 31 de agosto, por volta das 15h, na sede da CIP — Confederação Empresarial de Portugal, que serão assinados os quatro memorandos com a DigestAId, a Ciberbit, a ITGest e a NB Clinic. Do acordo faz parte iniciar operações na Arábia Saudita, mas não exige participação acionista.
“Não podemos precisar o valor do investimento, mas o que podemos garantir é que estas quatro empresas que vão assinar o acordo terão know-how na Arábia Saudita”, afirmou Alwalid Albaltan, dando como exemplo a ITGest, que “é uma empresa muito conhecida na área de sistemas [hardware e software] e “quer ter um representante local que possa apresentar o seu sistema ao mercado saudita e, a partir daí, vender os seus serviços”.
A ITGest, fundada há 18 anos, criou soluções que permitem que hospitais, clínicas e laboratórios monitorizem todas as suas operações em tempo real. Em 2025, teve um volume de negócios de cerca de 10,5 milhões de euros, tendo lucrado 1,6 milhões de euros, de acordo com os dados depositados no registo comercial.
“Trata-se de abrir o mercado e depois ir expandindo. A partir dos projetos, pode estimar o valor do investimento”, diz Alwalid Albaltan, em declarações a partir do ‘quartel-general’ que foi montado para os próximos dias, em Cascais.

A comitiva conta com quase 20 empresas com ligações ao mercado saudita. “Organizámos esta delegação à margem das visita de sua excelência o ministro da Saúde, mas o nosso trabalho é tratar da parte privada, não da governamental. Ele [Fahad Al-Jalajel] terá a sua própria agenda, quando chegar dia 31, e nós viemos antes com o setor privado. Geralmente, o protocolo da Arábia Saudita exige que, sempre que temos uma visita governamental, o setor privado também participe”, explica o líder do Conselho Empresarial Arábia Saudita-Portugal (SPBC, na sigla anglo-saxónica).
DigestAID procura “músculo financeiro”
A DigestAID, uma empresa de tecnologia médica especializada em diagnóstico de lesões gastrointestinais, tem um objetivo “mais financeiro” para este acordo, porque há poucos meses recebeu uma aprovação que mudou as regras do jogo. A spin-off da Universidade de Porto viu o seu sistema de inteligência artificial (IA) DeepCapsule receber o ‘ok’ da FDA – Food and Drug Administration e agora, com a validação técnica, quer começar a comercializar.
“Queremos validar a nossa IA em várias populações para mitigar o viés demográfico, mas do ponto de vista empresarial, para nós, [este memorando de entendimento] também é interessante, porque temos uma presença global e acho que é uma área onde é importante estabelecer laços, porque tem um potencial enorme de crescimento”, começa por explicar ao ECO o CEO da DigestAID, Miguel Mascarenhas.
Depois de conquistar todos os continentes (Europa, América do Norte e do Sul, Ásia e Oceânia), a DigestAID, criada em plena faculdade, quer trabalhar com mais países do Golfo, onde opera através dos Emirados Árabes Unidos e Omã. “Do ponto de vista clínico já estávamos bem cimentados, mas agora, após a aprovação da FDA, precisamos de músculo financeiro e queremos ter uma maior relação para oportunidades de financiamento nessa parte do globo”, acrescenta o médico nortenho, cuja healtech tem, desde fevereiro, uma colaboração científica com um centro hospitalar de referência na Arábia Saudita, o King Faisal Hospital.
Número de empresas nacionais mais que duplicou desde 2024
Quando o SPBC foi criado, em 2024, existiam 24 empresas portuguesas com operação na Arábia Saudita e, atualmente, são cerca de 60. “No início, o nosso objetivo era construir a infraestrutura, a relação e a consciencialização entre os dois países no que diz respeito ao setor privado. Agora, o nosso foco é mais setorial. Queremos concentrar-nos em cada setor individualmente. Esta é considerada a primeira delegação setorial que a Arábia Saudita organiza a Portugal“, conta o fundador do grupo Albaltan, que tem também a holding SDCI — Strategic Deals Company for Investment em Gaia.
A saúde foi a primeira indústria escolhida por este conselho que representa os investidores privados sauditas interessados ou com investimentos em Portugal, bem como as empresas portuguesas que têm registo comercial na Arábia Saudita e, portanto, são consideradas sauditas.
A comitiva empresarial chegou a Portugal a 25 de agosto e estará entre as zonas de Lisboa e Porto, até dia 1 de setembro, com uma agenda cheia que inclui encontros com representantes da Trofa Saúde, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, do INL – Laboratório Internacional Ibérico de Nanotecnologia, da Escola Superior de Biotecnologia, da União das Misericórdias Portuguesas e da Tecnimede, entre outros.

O reino da Arábia Saudita está a fazer uma das maiores transformações – inclusive digital – do seu sistema de saúde em décadas, com cerca de 500 hospitais, mais de 80 mil camas e um mercado de seguros de saúde em desenvolvimento, mas precisa de mais parceiros internacionais, como estabelece o plano estratégico Visão 2030.
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