Queimadas controladas podem estar a causar mais mortes de répteis do que se pensava
As queimadas controladas utilizadas para reduzir a carga de combustível vegetal e diminuir o risco de incêndios florestais poderão estar a provocar um número significativamente maior de mortes de pequenos animais do que o atualmente registado, segundo um novo estudo realizado por investigadores da Universidade de Adelaide.
A investigação concluiu que a maioria dos vestígios de mortalidade desaparece poucos dias após os incêndios, o que poderá estar a conduzir a uma subavaliação do verdadeiro impacto destas operações sobre a fauna selvagem.
O estudo, publicado na revista científica Australian Journal of Zoology, analisou dez queimadas controladas realizadas entre 2022 e 2024 nas florestas de eucaliptos da região de Mount Lofty Ranges, no estado da Austrália do Sul.
Durante o trabalho de campo, os investigadores identificaram 27 lagartos mortos pertencentes a quatro espécies diferentes. Mais de metade dos cadáveres registados foi encontrada apenas 28 horas após a extinção dos fogos.
Contudo, ao fim de 12 dias, todos os vestígios tinham desaparecido.
Segundo os autores, a remoção rápida das carcaças por aves, raposas, gatos e diversos invertebrados torna difícil avaliar corretamente a mortalidade quando os levantamentos são realizados vários dias após os incêndios.
“O momento da monitorização é crucial”, afirma Shawn Scott, investigador da Escola de Ciências Biológicas da Universidade de Adelaide e autor principal do estudo.
“Se os levantamentos forem realizados dias ou semanas depois da queimada, existe um elevado risco de subestimar drasticamente o número de animais mortos, comprometendo a compreensão dos efeitos do fogo na biodiversidade e no bem-estar animal”, acrescenta.
Impacto poderá estender-se a outras espécies
Embora a investigação tenha incidido especificamente sobre lagartos, os cientistas acreditam que o mesmo fenómeno poderá afetar a avaliação da mortalidade de outros grupos de animais de pequena dimensão, incluindo mamíferos, anfíbios e invertebrados.
Os autores defendem, por isso, que as avaliações da fauna devem ser realizadas nas horas imediatamente posteriores às queimadas, permitindo recolher dados mais rigorosos sobre os seus efeitos ecológicos.
“Nossa recomendação é que os levantamentos sejam efetuados logo após as queimadas controladas. Isso permitirá compreender melhor o impacto sobre outras espécies, incluindo pequenos mamíferos, rãs e invertebrados”, refere Scott.
Investigadores contestam perceções sobre queimadas controladas
A investigação também desafia algumas ideias frequentemente associadas às queimadas controladas, que são geralmente consideradas menos prejudiciais para a fauna devido à sua menor intensidade em comparação com os incêndios florestais de grandes dimensões.
Para Sophie Petit, coautora do estudo, é importante reconhecer que estas intervenções continuam a representar um risco direto para os animais.
“As queimadas controladas matam animais, tal como qualquer outro incêndio”, afirma a investigadora.
“É ilusório pensar que todos os animais conseguem escapar. Independentemente de ser um fogo de baixa intensidade, continua a ser fogo”, acrescenta.
Necessidade de mais dados sobre custos ecológicos
As queimadas controladas são amplamente utilizadas no sudeste da Austrália como ferramenta de gestão florestal, com o objetivo de reduzir a quantidade de vegetação combustível e limitar a severidade de futuros incêndios.
No entanto, os investigadores alertam que ainda existe escassa informação científica sobre o número de animais mortos durante estas operações, em grande parte porque os levantamentos de mortalidade raramente são realizados imediatamente após o fogo.
Segundo Shawn Scott, a ausência de dados robustos dificulta a avaliação do equilíbrio entre os benefícios das queimadas para a prevenção de incêndios e os seus custos para a conservação da biodiversidade.
Os autores observam ainda que a eficácia das queimadas controladas na redução do risco de grandes incêndios continua a ser objeto de debate científico, reforçando a necessidade de estudos mais abrangentes sobre os seus impactos ambientais.
Monitorização rápida poderá tornar-se recomendação
A equipa espera que os resultados incentivem as entidades responsáveis pela gestão do território a incorporar levantamentos rápidos da fauna nos programas de queimadas controladas.
Segundo os investigadores, esta prática permitiria obter uma imagem mais fiel dos efeitos do fogo sobre a fauna australiana e contribuir para políticas de gestão que conciliem a prevenção de incêndios com a proteção da biodiversidade.
À medida que as queimadas controladas tendem a tornar-se mais frequentes em várias regiões do sudeste australiano, os autores consideram que a recolha imediata de dados sobre mortalidade animal será fundamental para avaliar o verdadeiro impacto destas intervenções nos ecossistemas.