Queimavam vítimas com cigarros e perseguiam-nas com um pitbull. Este gangue aterrorizou menores em Lisboa e Cascais
Escolhiam vítimas entre os 15 e os 17 anos, cercavam-nas em superioridade numérica e deixavam-nas na rua de roupa interior ou descalços. A história de um grupo de amigos que surpreendeu as autoridades pelos “modos violentos” e que terá atacado pelo menos dez estudantes no verão passado. A decisão instrutória está marcada para esta sexta-feira, 2 de outubro, e determinará se os quatro arguidos seguem para julgamento nos termos propostos pelo Ministério Público
“Para, o cão vai-te morder.” O adolescente já corria, ofegante, pelo paredão de Cascais quando ouviu a ameaça. Atrás dele seguiam três assaltantes e um pitbull chamado Lua. Um dos membros do gangue terá então atiçado o animal e ordenado: “Lua, pega”. O cão foi solto na direção da vítima, mas o adolescente conseguiu ganhar distância e escapar. A fuga salvou-o, mas deixou os dois amigos para trás, cercados.
Era a madrugada de 5 de outubro de 2025. Os três menores estavam a caminhar junto à Praia da Rata quando foram abordados por dois jovens com uma pergunta: “Querem comprar droga?”. Responderam que não, mas foram seguidos e encostados para trás de aparelhos de ginástica, onde os esperava um grupo mais numeroso. Um dos assaltantes agarrou uma das vítimas pelo casaco, levou-a de volta para o local mais escondido e deu-lhe uma ordem: “Passa tudo”.
Os dois adolescentes foram revistados e obrigados a entregar dois telemóveis, uma carteira, um casaco, cartões e os ténis. O valor dos bens roubados terá sido de, pelo menos, 2.380 euros. Antes de os deixar abandonar o local descalços, o grupo lançou um último aviso: “Não façam queixa senão vamos atrás de vocês”.
Foi um dos assaltos com maior valor do gangue que, durante o ano passado, assaltou pelo menos dez alunos entre Cascais e Lisboa. Era formado por quatro amigos - Alan, Wemerson, Bruno e Diogo -, mas, para além deles, existia também um menor e outros indivíduos que nunca chegaram a ser identificados. Unidos por “estreitos laços de amizade”, atacavam em grupo - às vezes oito de cada vez - e a sua atuação era vista com preocupação pela polícia que alertou para os seus “modos violentos”, “linguagem intimidatória” e impulsividade.
As vítimas eram escolhidas a dedo e tinham entre 15 e 17 anos. Algumas regressavam de uma saída à noite, outras caminhavam junto à praia ou tinham saído da escola. O “bando”, como mais tarde o Ministério Público descreveu, aproximava-se em superioridade numérica, cercava-os e, em poucos minutos, retirava-lhes telemóveis, roupa, ténis e outros objetos de valor. Em alguns casos os menores eram mesmo coagidos a fornecer códigos bancários, resultando em despesas de milhares de euros.
Alguns dos arguidos já tinham cadastro, inclusivamente por assaltos, mas, sem uma aparente razão explícita, em agosto do ano passado decidiram aumentar a parada e passar a conduzir ataques mais sofisticados e sistemáticos. A peça-chave era escolher menores. Segundo vários acórdãos judiciais a que a CNN Portugal teve acesso, os arguidos tinham como alvos estudantes que teriam “maior dificuldade em resistir ou pedir ajuda”.
Gangue foi responsável por pelo menos dez assaltos
Um dos primeiros ataques aconteceu na madrugada de 22 de agosto de 2025. Dois adolescentes tinham acabado de sair do bar “Deck” no Estoril quando foram cercados junto a uma passagem sobre a linha ferroviária. A abordagem começou com Wemerson, Alan e um menor a perguntar se as vítimas tinham horas. Logo depois, agarraram-nos.
Wemerson colocou um dos adolescentes num mata-leão, pressionando-lhe o pescoço, e retirou-lhe um iPhone 14 Pro Max e um relógio. Ao lado, o menor agarrava e revistava a segunda vítima, enquanto Alan vigiava quem passava para evitar que fossem interrompidos.
A segunda vítima ficou sem um relógio e chegou a ver o telemóvel ser-lhe retirado do bolso. “Não me vais roubar o telemóvel, andámos na mesma escola”, disse a um dos assaltantes que o reconheceu e, com alguma simpatia, devolveu-lhe o telemóvel. Mas não o relógio.
Entre o primeiro assalto e o segundo, passaram onze dias. Alan e Bruno abordaram outros dois adolescentes numa zona movimentada do Estoril. “Porque é que não foram falar connosco?”, perguntaram. “Não vos conhecemos”, responderam. “Que telemóveis é que têm?”, quis saber Bruno. Com medo, um dos jovens mentiu e disse que tinha um Samsung, mas quando Bruno percebeu que se tratava de um iPhone, voltou a agredi-lo e obrigou-o a desbloquear o aparelho.
A outra vítima transportava uma coluna portátil e tinha ao pescoço um pendente da Christian Dior avaliado em três mil euros. “Deixa-me ver a coluna”, exigiu Alan. Como o adolescente recusou entregá-la, ouviu uma nova ameaça: “Tu és estúpido? Tu queres morrer?”. Alan deu-lhe uma chapada e colocou a mão atrás das costas, simulando procurar uma faca ou uma arma de fogo.
Por estarem numa zona movimentada, Alan e Bruno agarraram os dois adolescentes e levaram-nos para um local mais escondido. Com chapadas, murros e pontapés, Bruno agrediu uma das vítimas até obter a palavra-passe da conta iCloud. Ao mesmo tempo, Alan tentou arrancar o pendente do pescoço do outro jovem, que se agarrou à joia para impedir o roubo.
Foi então que Bruno lhe encostou ao lábio a ponta do cigarro que estava a fumar. O adolescente sofreu uma queimadura e deixou de resistir. Alan arrancou-lhe o pendente e fugiu ainda com a coluna portátil, embora a vítima tenha conseguido recuperá-la quando o suspeito teve de voltar atrás por ter entrado numa rua sem saída.
O sistema de localização do iPhone roubado indicava que o aparelho se encontrava numa habitação no Estoril. Pelas 22h15, a polícia viu Alan sair daquele prédio e, quinze minutos depois, entrar num veículo TVDE com Wemerson, Bruno e o menor. Os agentes seguiram o automóvel e mandaram-no parar na Estrada da Alapraia.
Bruno correspondia à descrição de um dos assaltantes, incluindo uma cicatriz no nariz que as vítimas tinham assinalado. O jovem já tinha sido fotografado pela polícia devido a outro roubo. Apesar da identificação e das revistas realizadas aos quatro ocupantes, os polícias não encontraram os objetos roubados.
A 18 de setembro, Alan e Wemerson terão voltado a agir, desta vez acompanhados por um outro membro, Francisco. O alvo foram dois jovens que tinham saído da discoteca Lust e caminhavam pela Rua da Cintura do Porto de Lisboa. Os três chamaram-nos, levando-os a regressar ao interior da discoteca por recearem ser atacados. Quando voltaram a sair e chegaram à plataforma da Estação de Santos, foram novamente abordadas.
Wemerson colocou o braço em torno do pescoço de uma das vítimas e ordenou: “Passa tudo, já!”. Retirou-lhe um iPhone, uma carteira, cartões bancários e documentos. Alan arrancou-lhe ainda um relógio e os fios que levava ao pescoço. “Dá cá a merda do fio, dá cá essa merda!”, terá gritado.
A segunda vítima entregou outro iPhone, temendo pela vida e pela integridade física. Francisco ficou com o aparelho, retirou-lhe um relógio e apoderou-se dos auriculares que levava consigo. Mantendo a primeira vítima presa pelo pescoço, Wemerson insistiu: “Dá-me os códigos do telemóvel, dá-me os códigos!”.
Segundo a acusação, os três acederam depois à aplicação Caixa Direta instalada num dos aparelhos e transferiram 1.900 euros da conta da vítima para a Estoril Sol Casinos. O dinheiro não voltou a ser devolvido. Os dois foram intercetados pouco depois pela PSP, que encontrou na posse deles os telemóveis, relógios, auriculares, documentos e fios roubados. Francisco transportava ainda 2,263 gramas de ecstasy.
No dia seguinte, Alan e Wemerson ficaram obrigados a apresentações semanais, proibidos de contactar entre si e impedidos de frequentar a Estação de Santos. Mas, quatro dias depois, Alan terá voltado a participar num roubo, agora nas imediações da Escola Secundária de São João do Estoril.
“O que é que tens em tua posse?”, terá perguntado Alan a um aluno, enquanto lhe passava o braço pelo pescoço e o imobilizava com um mata-leão. Alan retirou-lhe o telemóvel e exigiu a palavra-passe da conta iCloud. Wemerson e um terceiro indivíduo tiraram-lhe a mochila. Como a vítima não conseguiu indicar o código correto, foi levada para uma zona mais escura e agredida com murros.
Wemerson colocou-se de vigia enquanto o terceiro assaltante perguntava ao adolescente onde morava, se tinha familiares, dinheiro ou contas bancárias. A vítima foi ainda obrigada a descalçar os chinelos e a despir os calções. O grupo levou umas chuteiras, uma bola de futebol, material escolar, auriculares e o passe de transporte. O jovem regressou a casa descalço e em roupa interior, ficou traumatizado e faltou três dias à escola por recear voltar a cruzar-se com os agressores.
Mas o ataque de maior dimensão aconteceu naquela madrugada de 5 de outubro quando os três adolescentes foram abordados no paredão da Praia da Rata, em Cascais e quando um dos elementos do gangue atiçou o pitbull contra as vítimas. Depois de as ameaçar com a promessa de as perseguir caso denunciassem o assalto à polícia, uma das vítimas entregou o código do telemóvel, que foi anotado e partilhado num grupo do Instagram do gangue.
Vítimas regressaram a casa descalças e uma faltou três dias à escola por medo
Na posse dos códigos, elementos do grupo terão acedido às aplicações bancárias e uma conta Revolut foi utilizada para comprar produtos num supermercado, incluindo garrafas de whisky entregues através de uma plataforma digital. Houve ainda uma tentativa de transferência de 265 euros, uma compra de capas de telemóvel e três viagens em veículos TVDE.
Uma fotografia tirada com um dos aparelhos roubados apareceu na conta iCloud do proprietário. Outras imagens publicadas nas redes sociais mostravam telemóveis, ténis, um casaco e garrafas de whisky. Wemerson chegou a divulgar as mensagens “uber 50%” e “07 patrocina”, juntamente com a localização de um automóvel. Numa das fotografias aparecia acompanhado por um pitbull.
Foram os próprios telemóveis roubados e a atividade nas redes sociais que ajudaram a polícia a chegar ao grupo. A localização de um dos aparelhos conduziu os investigadores a um prédio onde Alan foi visto, enquanto fotografias sincronizadas na conta iCloud de uma vítima, compras efetuadas através das aplicações bancárias e publicações no Instagram permitiram reconstruir os movimentos dos suspeitos. A identificação foi ainda sustentada pelo vestuário usado nos ataques, pelas características físicas descritas pelas vítimas e pelas imagens recolhidas pela polícia.
A investigação, que reuniu cinco inquéritos, culminou na manhã de 18 de dezembro. A PSP, com o apoio da GNR, realizou seis buscas domiciliárias no concelho de Cascais e deteve cinco jovens através de mandados emitidos fora de flagrante delito. Nas habitações foram encontrados telemóveis, roupa utilizada nos assaltos e objetos pertencentes às vítimas, incluindo um par de ténis roubado no ataque da Praia da Rata.
O menor foi presente no próprio dia ao Tribunal de Família e Menores, que determinou a sua guarda num centro educativo, em regime fechado, por três meses. Os restantes quatro detidos foram interrogados no dia seguinte no Tribunal de Instrução Criminal de Cascais. Alan, Wemerson e Bruno ficaram em prisão preventiva, enquanto Diogo foi libertado, sujeito a apresentações semanais perante as autoridades.
Um adolescente foi queimado no lábio com um cigarro
Alan, que tinha 18 anos à data dos ataques, está acusado de cinco crimes de roubo agravado, dois de abuso de dados de pagamento e um de acesso ilegítimo agravado. Encontra-se em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Leiria Jovens.
Wemerson, então com 20 anos, responde por seis crimes de roubo agravado, dois de coação, um de abuso de dados de pagamento e dois de acesso ilegítimo agravado. Também está em prisão preventiva em Leiria. O Ministério Público pede ainda que lhe seja aplicada a pena acessória de expulsão do país.
Bruno tinha igualmente 18 anos e está acusado de cinco crimes de roubo agravado. Já tinha sido condenado numa pena de prisão suspensa por outro roubo cometido na zona da Estação de São João do Estoril. Está também em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Leiria Jovens e o Ministério Público pede a sua expulsão.
Diogo, o mais velho dos quatro, tinha 24 anos e responde por três crimes de roubo agravado. Foi ele quem pediu a abertura da instrução, negando ter participado no ataque da Praia da Rata. A defesa sustenta que a localização do seu telemóvel demonstrará que não estava no local e alega que nunca teve um pitbull chamado Lua.
Durante a instrução, Wemerson prestou declarações apenas para afirmar que Diogo não participou em qualquer dos episódios, recusando responder a outras perguntas. A decisão instrutória está marcada para esta sexta-feira, 2 de outubro, e determinará se os quatro arguidos seguem para julgamento nos termos propostos pelo Ministério Público.
Para Alan e Wemerson há ainda outro encontro marcado com a justiça. Os dois serão julgados com Francisco pelo ataque ocorrido na Estação de Santos que começa a 21 de outubro, no Juízo Central Criminal de Lisboa.