Quem faz diálise também precisa de férias
Todos os portugueses precisam de férias. Isso inclui os cerca de 13 mil doentes que fazem diálise em Portugal. No entanto, para quem depende de um tratamento que não pode ser interrompido, planear uns dias de descanso é muito mais do que escolher um destino ou reservar um alojamento. É garantir, antes de tudo, que existe uma unidade de diálise com capacidade para assegurar um tratamento vital durante esse período. Sem essa garantia, simplesmente não há férias.
Nas últimas semanas, temos recebido um número crescente de relatos de doentes renais com dificuldades em marcar sessões de diálise para os meses de verão, sobretudo no Alentejo e no Algarve. Refiro-me aqueles que podem e querem ir de férias, sem ignorar aqueles que vivem todo o ano nestas regiões mais turísticas e que precisam evidentemente de continuar a ter tratamentos.
Esta é uma situação crescente e preocupante, que condiciona a liberdade de milhares de pessoas e impede muitas famílias de usufruírem de um período de descanso a que têm pleno direito.
As férias não são um luxo. São uma componente importante da qualidade de vida, do bem-estar físico e emocional e da integração social de qualquer cidadão. Para quem vive com doença renal crónica, representam também um momento essencial para aliviar a carga psicológica associada a uma doença exigente, que impõe uma rotina rígida e permanente.
Portugal dispõe de uma rede de unidades de diálise convencionada e hospitais públicos reconhecidos pela sua qualidade e competência técnica. As clínicas que tratam 90% dos 13.000 doentes em Portugal, têm demonstrado, ao longo de décadas, uma enorme capacidade de resposta, sustentada em profissionais altamente qualificados e em equipamentos tecnologicamente avançados.
Contudo, importa reconhecer que as dificuldades que hoje começam a sentir-se não resultam da falta de capacidade instalada nem da ausência de compromisso das unidades prestadoras. A sua principal causa é estrutural e transversal a todo o sistema de saúde português: a crescente escassez de profissionais de saúde, que afeta igualmente o setor público e o setor convencionado.
O setor da diálise faz-se também de pessoas. Médicos, enfermeiros, técnicos e todos os profissionais que diariamente asseguram o funcionamento das unidades constituem o verdadeiro pilar da prestação de cuidados. É por isso que a falta de recursos humanos se tornou o maior desafio à sustentabilidade do setor. A dificuldade em recrutar e reter profissionais qualificados deixou de ser uma preocupação para o futuro e passou a ser uma realidade quotidiana, que limita a capacidade de resposta das unidades e coloca pressão crescente sobre as equipas existentes.
Os constrangimentos que hoje surgem na marcação de sessões de diálise durante o verão são um sintoma de um problema mais vasto. Devem ser encarados como uma oportunidade para que o Estado e as entidades competentes antecipem e colaborem na criação de soluções estruturais – nomeadamente no planeamento de recursos humanos em saúde – antes que situações pontuais se transformem em dificuldades permanentes.
Os doentes renais não pedem privilégios. Pedem apenas aquilo que qualquer cidadão deseja quando chega o verão: poder descansar alguns dias com a tranquilidade de saber que o tratamento de que depende a sua vida estará garantido.