Ramos-Horta defende parceria com a Austrália para segurança marítima
"Este projeto não representa apenas uma oportunidade económica. Representa também a afirmação da soberania nacional e da capacidade de Timor-Leste gerir os seus recursos naturais em benefício do seu povo", afirmou Ramos-Horta na cerimónia para assinalar o 51.º aniversário das Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste (Falintil) -- Forças de Defesa de Timor-Leste (F-FDTL).
A cerimónia decorreu em Abo Melari, no sopé da montanha Matebian (no município de Baucau), que tem um grande significado para o povo timorense. Além de um local sagrado é também um símbolo da resistência à ocupação indonésia.
"É neste quadro que, em repetidos discursos, tenho alertado para o facto de não ser possível implementar uma segurança marítima credível sem uma parceria estratégica forte com a Austrália", salientou o chefe de Estado timorense no discurso divulgado à imprensa.
Segundo o também prémio Nobel da Paz, Timor-Leste tem uma Zona Económica Exclusiva de grandes dimensões e não consegue assegurar a "cobertura e o controlo efetivos da totalidade das águas" sob a sua jurisdição.
A Austrália, continuou o Presidente, também "não consegue controlar a totalidade da sua Zona Económica Exclusiva".
"Renovo, por isso, o meu apelo para que o bom senso prevaleça nesta matéria, dando início a negociações sérias com vista à partilha de responsabilidades e dos custos de patrulhamento, monitorização e controlo das nossas águas", afirmou José Ramos-Horta.
O Presidente salientou também que aquela parceria deve ser "acompanhada por medidas concretas destinadas a assegurar a capacitação" das forças de defesa naval de Timor-Leste e qualificação dos recursos humanos.
O Greater Sunrise é um dos maiores campos de gás do Mar de Timor, situado entre a costa sul timorense e o norte da Austrália, fundamental para o desenvolvimento económico de Timor-Leste, que defende que a sua exploração deve ser feita por um gasoduto para a sua costa.
Durante a sua intervenção, o chefe de Estado defendeu também a modernização das forças de defesa do país, porque a "segurança dos estados já não depende apenas da capacidade militar".
"As novas ameaças incluem ataques cibernéticos, manipulação de informação, riscos tecnológicos, criminalidade transnacional, alterações climáticas e disputas por recursos estratégicos. Por isso, a modernização das [Forças de Defesa de Timor-Leste] deve ser um compromisso permanente", afirmou Ramos-Horta.
O Presidente timorense destacou também as parcerias estratégicas na área da defesa com a Austrália e Portugal e o desenvolvimento crescente da cooperação com o Brasil, a China, a Coreia do Sul, os Estados Unidos da América, a Índia, a Indonésia, o Japão e a Nova Zelândia.
"Ao mesmo tempo, é fundamental diversificar e fortalecer as nossas relações de defesa com os parceiros da ASEAN [Associação das Nações do Sudeste Asiático] e com outros países da comunidade internacional", disse.
"No que diz respeito à cooperação com a China, Timor-Leste continuará a defender uma abordagem baseada no diálogo, na cooperação e no respeito pelo direito internacional", afirmou o Presidente.
"Compreendemos que existam rivalidades históricas, estratégicas, comerciais e económicas entre grandes potências, mas acreditamos que a paz e a estabilidade regional exigem o reforço dos mecanismos de diálogo e cooperação entre a ASEAN e as grandes potências, incluindo a China, a Índia, os EUA e os países da União Europeia", acrescentou.
Timor-Leste assinou quarta-feira um acordo de cooperação no setor da defesa com a China, que dá prioridade ao desenvolvimento de capacidade dos recursos humanos, à logística, à educação militar e ao desenvolvimento de infraestruturas de saúde militar.
A assinatura do acordo ocorreu no âmbito de uma visita do ministro da Defesa da China, Dong Jun, a Díli, que termina hoje.
Leia Também: MNE agradece "apoio enorme" timorense no Conselho de Segurança da ONU