Ran, de Akira Kurosawa, reestreia e é tema de documentário - 17/09/2026 - Ilustrada - Folha
Cinéfilos de São Paulo e Rio de Janeiro têm um programa em 1º de outubro: assistir ao relançamento, em cinema, de "Ran", uma das grandes obras-primas do cineasta japonês Akira Kurosawa, morto em 1998. Lançado originalmente em 1985, o filme será exibido no Cine Belas Artes, em São Paulo, e no Cinesystem Belas Artes Botafogo, no Rio de Janeiro.
"Ran" é um épico baseado em "Rei Lear", de Shakespeare, sobre um senhor feudal que decide dividir seus domínios entre três filhos e acaba deflagrando um conflito fratricida. O personagem principal é interpretado por Tatsuya Nakadai, ator que havia trabalhado com Kurosawa em cinco filmes anteriores.
"Ran" marcou a ressurreição comercial e crítica de Kurosawa após mais de uma década de declínio de popularidade e credibilidade no Japão. Depois de assombrar o mundo com uma sequência impressionante de 13 filmes lançados entre 1950 e 1965, incluindo clássicos como "Rashomon" (1950), "Viver" (1952), "Os Sete Samurais" (1954), "Trono Manchado de Sangue" (1957), "A Fortaleza Escondida" (1958), "Yojimbo" (1961), "Sanjuro" (1962) e "Céu e Inferno" (1963), Kurosawa passou a ter imensa dificuldade para financiar seus filmes.
Depois de "Dodeskaden" (1970), o cineasta passou uma década sem conseguir filmar no Japão. Kurosawa entrou em depressão e tentou se matar. Fez "Dersu Uzala" (1975) na União Soviética com financiamento do estúdio russo Mosfilm e só conseguiu terminar "Kagemusha – A Sombra do Samurai" (1980) com a produtora japonesa Toho depois que os cineastas George Lucas e Francis Ford Coppola convenceram o estúdio norte-americano 20th Century-Fox a investir na produção e complementar o orçamento.
"Kagemusha" foi um sucesso de público e crítica, ganhando a Palma de Ouro no Festival de Cannes e recebendo indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Kurosawa estava de volta.
"Ran" foi uma coprodução entre a França e o Japão e o filme mais caro feito no Japão até aquele momento, com cenários suntuosos, centenas de figurantes, 1.400 armaduras e 200 cavalos. As cenas de batalha estão entre as mais espetaculares da história do cinema.
O filme foi indicado a quatro Oscar —direção, fotografia, figurino e direção de arte— e venceu o prêmio de figurino. Kurosawa perdeu o Oscar de melhor diretor para Sydney Pollack, de "Entre Dois Amores".
Um complemento indispensável para a experiência de ver "Ran" no cinema é assistir, na plataforma de streaming Belas Artes à La Carte, a "A.K.", documentário do francês Chris Marker sobre as filmagens de "Ran". Marker, conhecido pelo cultuado filme de ficção-científica "La Jetée" (1962), que inspirou o "thriller" "12 Macacos" (1995), de Terry Gilliam, acompanha vários dias de filmagem de "Ran" no fim de 1984 e mostra Kurosawa em ação.
"A.K." é um documentário incomum. Não há entrevistas ou cenas de arquivo, com exceção de uma foto de Kurosawa menino. Marker se limita a filmar o cineasta trabalhando pesado, aos 74 anos, e é lindo vê-lo dirigindo atores e orientando os câmeras de forma tão detalhista. Em determinado momento, o cineasta reclama do excesso de fumaça em uma cena e pega, ele próprio, o lançador de fumaça e mostra ao jovem profissional como obter o efeito desejado. "A fumaça precisa subir entre a câmera e o ator", diz Kurosawa.
Os métodos de filmagem de Kurosawa são conhecidos —os "storyboards" detalhados que ele próprio ilustra para os filmes, a atenção às palavras do roteiro, que precisam ser ditas exatamente da forma como foram escritas, a intrincada maneira como posiciona três câmeras em quase todas as cenas—, mas é revelador assistir ao mestre trabalhando.
Numa das sequências mais impressionantes, a equipe toda ajuda a pintar um matagal de dourado para uma cena noturna, iluminada por poderosos holofotes amarelos e decorada com uma imensa lua cenográfica e o resultado é magnífico. "No entanto, toda essa cena foi cortada na montagem", conta Marker.