Regime venezuelano abandona libertação de Nicolás Maduro - 21/08/2026 - Mundo - Folha

🗓️ 2026-08-22 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

O regime da Venezuela não fez qualquer menção à libertação do ditador deposto Nicolás Maduro, preso nos Estados Unidos, durante quase duas semanas de negociações com a oposição neste mês —o sinal mais claro até agora de que as autoridades do país o abandonaram à Justiça americana.

Em janeiro, a líder interina, Delcy Rodríguez, classificou a captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, como um caso de "agressão vil". Seu irmão Jorge Rodríguez, líder do Parlamento venezuelano, afirmou que eles "não descansarão" até que Maduro seja libertado da prisão no Brooklyn, onde responde a acusações relacionadas ao tráfico de drogas.

Mas o regime de Delcy, apoiado pelos EUA, surpreendeu a oposição ao nem sequer apresentar essas exigências durante as cinco rodadas de negociação, encerradas na semana passada, segundo várias pessoas presentes ouvidas pelo jornal Financial Times.

A Casa Branca apoia Delcy, ex-vice de Maduro, desde que militares americanos capturaram o ditador em uma operação noturna ousada em 3 de janeiro. Em troca, ela abriu os vastos recursos naturais do país a investidores estrangeiros, dando a empresas dos EUA acesso às reservas de petróleo venezuelanas.

A primeira rodada de negociações com a oposição tinha como objetivo chegar a um acordo sobre as medidas necessárias para uma nova eleição presidencial, mas produziu poucos resultados concretos.

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Os dois lados se concentraram em como financiar a recuperação após os terremotos devastadores de junho, exigindo a repatriação de cerca de US$ 4 bilhões (R$ 20 bilhões) em barras de ouro armazenadas nos cofres do Banco da Inglaterra. Também concordaram em começar a trabalhar na reforma do sistema judiciário.

Após o encerramento das negociações, o regime afirmou ter libertado 131 presos políticos, embora a organização de direitos humanos Foro Penal tenha dito que só conseguiu confirmar a soltura de 78.

Mas um destino semelhante não parecia estar nos planos para Maduro, a quem Delcy, chavista de longa data, certa vez chamou de "presidente único e legítimo" da Venezuela, disseram analistas.

No que diz respeito ao regime, "o destino dele já está selado", afirmou Edward Rodríguez, analista e consultor venezuelano. "Eles deixarão o processo seguir seu curso enquanto se concentram em sua única prioridade: sobreviver."

Logo após a captura, Delcy Rodríguez foi categórica ao exigir a libertação de Maduro, enquanto consolidava o apoio dos setores linha-dura dos serviços de segurança. Desde então, porém, substituiu os principais líderes militares por aliados próprios, enquanto o poderoso chefe da segurança, Diosdado Cabello, também se aproximou de Washington.

Placas e outdoors pedindo a libertação do casal foram instalados em cidades de toda a Venezuela em janeiro —muitos dos quais já foram retirados. Murais pró-Maduro pintados antes de sua prisão foram apagados. Restam em Caracas apenas alguns retratos gigantes do casal deposto.

Delcy, cujos discursos sucintos marcam uma ruptura com as falas inflamadas e de tom populista de Maduro, raramente menciona seu antigo chefe em aparições públicas —inclusive na declaração que fez após o término das negociações, na semana passada.

Mas Maduro, herdeiro escolhido a dedo do projeto socialista revolucionário do falecido líder Hugo Chávez, continua contando com o apoio dos chavistas mais fervorosos, como são conhecidos os seguidores do movimento.

"Discordo dessas negociações porque não se pode permitir que Trump continue nos impondo coisas enquanto o acordo nem sequer menciona o presidente que foi sequestrado", afirmou Ricardo García, um chavista de base que, como muitos apoiadores fiéis, acredita que Maduro foi traído por integrantes de seu círculo próximo e entregue às forças americanas.

As negociações também têm causado controvérsia entre a oposição, inclusive por deixarem de lado sua líder mais popular, a vencedora do Nobel María Corina Machado.

Procurado, o regime venezuelano não respondeu a pedidos de comentários.